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Documentário revisita últimos dias de Che

Produção francesa acompanha sobreviventes da guerrilha boliviana e revisita os meses finais de Ernesto Che Guevara antes de sua morte em 1967
Por O Correio de Hoje
11/05/2026 | 12:57

A história dos homens que acompanharam Ernesto “Che” Guevara em seus últimos meses de vida na Bolívia volta ao centro das atenções em um novo documentário que será apresentado no Festival de Cannes. Intitulada “Che Guevara: the last companions” (“Che Guevara: os últimos companheiros”), a produção dirigida pelo cineasta francês Christophe Réveillé acompanha a trajetória de três integrantes da guerrilha que sobreviveram à operação militar boliviana que culminou na morte do revolucionário argentino em 1967.

O documentário reconstrói os acontecimentos envolvendo o grupo que participou da tentativa de expandir movimentos revolucionários na América Latina após a Revolução Cubana. Che Guevara foi executado na Bolívia aos 39 anos, depois de ser capturado pelo Exército boliviano com apoio da CIA.

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Che Guevara é tema do documentário “Che Guevara: the last companions”, que reconstrói a trajetória dos guerrilheiros que sobreviveram à campanha militar na Bolívia Foto: Reprodução

A produção concentra sua narrativa em três guerrilheiros que estiveram próximos de Che durante a campanha boliviana: Harry “Pombo” Villegas, considerado um dos principais aliados militares do argentino; Urbano, nome de guerra de Leonardo Tamayo Núñez, filho de camponeses que ingressou ainda jovem na luta armada; e Benigno, codinome de Daniel Alarcón Ramírez, que também integrou o núcleo histórico da Revolução Cubana.

Segundo o filme, apenas Urbano permanece vivo atualmente. Os três participaram da tentativa liderada por Che Guevara de criar focos revolucionários em diferentes países da América Latina durante os anos 1960.

O documentário começa mostrando imagens do corpo de Che Guevara após sua execução em território boliviano. Em seguida, a narrativa acompanha os meses finais do grupo guerrilheiro, marcado por perseguições constantes, deslocamentos em áreas isoladas e dificuldades de sobrevivência.

De acordo com a produção, os combatentes percorreram cerca de 2.400 quilômetros enquanto eram perseguidos por milhares de soldados bolivianos. O filme retrata episódios de fome, sede, doenças e ferimentos enfrentados pelos integrantes da guerrilha durante a fuga.

Para reconstruir essa história, Christophe Réveillé utilizou entrevistas, imagens de arquivo e materiais históricos obtidos ao longo de anos de pesquisa. Em entrevista ao jornal The New York Times, o diretor contou que iniciou o projeto após uma viagem feita com o pai a Cuba, em 1997, quando acompanhou o processo de repatriação dos restos mortais de Che Guevara.

Foi durante essa experiência que Réveillé descobriu a trajetória de Benigno, um dos sobreviventes da guerrilha. Segundo o cineasta, o ex-combatente havia deixado Cuba após ser condenado à morte por Fidel Castro sob acusação de traição e passou a viver na França.

“Levei um ano e meio para encontrar Benigno”, contou Réveillé ao jornal americano. “Seus editores disseram que eu poderia fazer um documentário sobre ele, desde que terminasse sua biografia primeiro. Pensei: Este homem está condenado à morte. Vou filmar tudo o que ele disser para que fique registrado, caso algo lhe aconteça”.

Segundo o diretor, a ideia inicial acabou evoluindo para um projeto mais amplo sobre os sobreviventes do grupo de Che Guevara. Réveillé afirmou que o cineasta Steven Soderbergh, responsável pelo filme “Che”, lançado em 2008, incentivou a realização do documentário.

Ao longo da produção, o diretor procura apresentar não apenas a dimensão política da guerrilha, mas também os impactos humanos e emocionais deixados pela experiência revolucionária. Para Réveillé, os sobreviventes carregam marcas profundas do período vivido ao lado de Che Guevara. “Eles são heróis porque conquistaram o impossível — mas não por interesse próprio”, afirmou o diretor.

O cineasta também relacionou a produção do documentário a experiências pessoais de perda e sofrimento. Réveillé contou que perdeu a mãe aos 17 anos e afirmou que isso influenciou sua decisão de mergulhar em histórias humanas marcadas por dor e resistência. “Decidi que iria a qualquer lugar onde antes eu tinha medo de ir”, declarou.

Segundo ele, o trabalho no documentário também representou uma forma de compreender experiências extremas vividas por outras pessoas. “Eu havia mergulhado na anorexia, nas drogas. Um dia me deparei com essa história. Percebi que havia homens mais perdidos do que eu, e decidiram viver suas vidas em busca de um ideal. Percebi que, na vida, existem coisas maiores do que nós, sofrimentos maiores”, afirmou.

Além de revisitar episódios ligados à guerrilha boliviana, o documentário também aborda os desdobramentos políticos e pessoais enfrentados pelos sobreviventes após a morte de Che Guevara.