Em um palco distante geograficamente, mas cada vez mais próximo no campo simbólico, a cantora potiguar Khrystal apresentou-se neste domingo 3 e volta a subir ao palco nesta segunda-feira 4, na China, como parte da programação do JZ Festival, um dos principais eventos de jazz e música contemporânea da Ásia. A participação integra o Ano Cultural Brasil-China 2026, iniciativa que articula cultura, diplomacia e economia criativa em uma agenda ampla de intercâmbio entre os dois países.
A presença da artista no festival marca um dos momentos mais expressivos de sua trajetória. “Para mim é uma honra poder levar a bandeira do nosso Estado e do Brasil tão longe. É um momento muito importante da minha carreira e também do nosso país, pois marca o estreitamento das relações diplomáticas com a China, um novo momento da nossa história”, disse a cantora, em entrevista recente ao O Correio de Hoje.

Khrystal compõe uma delegação que reúne nomes consolidados da música brasileira, como Ivan Lins, Adriana Calcanhotto e a também potiguar Juliana Linhares. No repertório apresentado em Xangai, ela leva o espetáculo “Carvoeirando”, síntese de sua trajetória artística, construída a partir de referências que atravessam a música brasileira, o Nordeste e, de forma particular, o Rio Grande do Norte.
No palco, a artista sustenta uma escolha estética clara: não adaptar o espetáculo ao público estrangeiro. “O interessante para mim exatamente é isso, levar exatamente a montagem que eu apresento no Brasil a vida toda. É esse elemento brasileiro, nordestino-brasileiro, que a gente vai levar para a China.” A decisão reforça a ideia de que o intercâmbio cultural se constrói não pela diluição de identidades, mas pela afirmação delas.
Essa identidade, no entanto, não se apresenta como algo estanque. “É plural. Somos híbridos. Na cultura potiguar é muito difícil a gente ser purista. E, ao mesmo tempo, tudo o que eu faço é potiguar. É genuinamente potiguar e brasileiro. Acho que é uma questão mais das pessoas elaborarem isso do que eu. Acho tudo o que eu faço muito potiguar, mas não consigo dizer exatamente o que é que determina isso. É um mistério.”
Mais do que repertório, Khrystal afirma levar consigo um conjunto de referências culturais que atravessam sua formação. “Quando subo no palco, carrego na minha arte o que eu sou e muito do que me construiu como artista nesses anos de carreira. Levo também as manifestações culturais do nosso RN e do nosso País. Poder apresentar tudo isso ao povo chinês será uma experiência incrível, uma tarefa que realizarei com muita honra e orgulho.”
A participação da cantora também se insere em um contexto mais amplo de valorização da produção nordestina no exterior. “Nós já mostramos que sobra talento em todos os nordestes que há dentro do Nordeste. Produzimos arte de qualidade, música brasileira. Sempre houve quem utilizasse o termo ‘música regional’, ou ‘arte regional’ para tentar diminuir a arte que fazemos aqui. Mas os lugares que sempre chegamos mostram que a nossa arte é grande, do tamanho do Brasil. Não à toa desperta também os olhares de fora.”
O espetáculo apresentado em Xangai ganha ainda uma camada visual simbólica com o figurino assinado pelo potiguar Jailson Fernandes, inspirado na obra de Bispo do Rosário. No palco, Khrystal é acompanhada por Ricardo Baya (direção musical e guitarra), Bruno Cirino (acordeom), Darlan Marley (bateria), Paulo Milton (baixo) e o DJ Mateus Tinoco, formando uma base que dialoga com tradição e contemporaneidade.
A presença brasileira no JZ Festival ocorre dentro de uma estratégia mais ampla conduzida pelo Governo Federal, com participação de órgãos como Casa Civil, Ministério da Cultura, Ministério das Relações Exteriores, Ministério do Turismo, Funarte e Embratur, além de instituições culturais chinesas. A ação integra a Plataforma Música Brasil, que leva mais de 120 profissionais do setor à China, entre artistas, produtores e agentes culturais.
No sábado 2, a agenda institucional ganhou força com a realização do Brazilian Day, em Xangai, com a presença da ministra da Cultura, Margareth Menezes. Durante o evento, foi entregue o certificado do primeiro ponto de cultura brasileiro na Ásia, consolidando a política Cultura Viva no exterior. “É uma alegria enorme estar aqui na China, do outro lado do mundo, com o objetivo de ampliar as relações entre Brasil e China por meio da cultura e da arte”, disse a ministra.
Ela também destacou o momento como parte de um movimento mais amplo. “Vivemos uma fase de expansão de mercados e de novas oportunidades. Este é apenas o começo. Muitas coisas ainda virão nessa relação entre Brasil e China”, afirmou.
O JZ Spring Festival, que segue até terça-feira 5, reúne artistas de diferentes gerações e estilos, evidenciando a diversidade da música brasileira — do chorinho ao samba, do frevo à MPB — e promovendo encontros com músicos chineses. Para o cônsul-geral do Brasil em Xangai, Augusto Pestana, a iniciativa amplia a compreensão sobre o país. “Este mês de maio é uma oportunidade para apresentar aos nossos amigos chineses um pouco mais do que somos: um Brasil diverso, vibrante e profundamente cultural”, disse.
As relações diplomáticas entre Brasil e China, estabelecidas em 1974, encontram na cultura uma dimensão estratégica de aproximação. Inserida nesse contexto, a trajetória de Khrystal em Xangai ultrapassa o gesto artístico individual e se projeta como parte de um movimento histórico.
“É importante porque marca um momento histórico também: é o primeiro movimento de aproximação cultural oficial entre Brasil e China, conduzido pelos governos dos dois países. É um episódio que entra para a história do nosso País e do mundo, e participar disso me deixa muito feliz”, ressaltou a artista.
Enquanto atravessa fusos, idiomas e geografias, a artista também prepara outros passos. Um novo disco está em fase final de produção. “O que posso adiantar é que estamos gostando muito do resultado. O disco é um retrato muito fiel do momento que estou vivendo agora enquanto artista. Está em processo de mixagem e não vai demorar para estar disponível. Em breve eu trarei mais notícias.” Entre Natal e Xangai, o percurso de Khrystal se desenha como uma travessia que tem a música como linguagem comum.