A indústria da moda, tradicionalmente associada à valorização da juventude, começa a dar sinais mais consistentes de mudança ao incluir mulheres mais velhas em posições de destaque. O movimento, que ganha força tanto nas passarelas quanto nas redes sociais, reflete uma tentativa de enfrentar o etarismo e ampliar a representação etária em um setor historicamente restritivo.
Um dos episódios mais emblemáticos dessa transformação ocorreu recentemente, quando a Vogue colocou duas mulheres de 76 anos na capa. As escolhidas foram a atriz Meryl Streep e a editora-chefe Anna Wintour, em uma proposta que dialogava com o imaginário em torno da sequência de O Diabo Veste Prada. A iniciativa chamou atenção não apenas pelo ineditismo, mas por sinalizar uma mudança de percepção dentro do próprio setor. Como afirmou Wintour, “sinto que a idade é, na verdade, uma vantagem”.

A presença de mulheres mais velhas também se tornou mais frequente nas passarelas internacionais. Durante a última temporada de desfiles, marcas de grande projeção incluíram modelos acima dos 40 anos em seus elencos. A Bottega Veneta apresentou nove modelos mais velhas, número semelhante ao registrado pela Tom Ford. Já Givenchy contou com oito nomes, enquanto Balenciaga incluiu cinco e a Louis Vuitton, quatro.
Além das modelos anônimas, celebridades com carreiras consolidadas também marcaram presença. A modelo Kate Moss, de 52 anos, desfilou para a Gucci, enquanto a atriz Gillian Anderson, de 57, encerrou o desfile da Miu Miu. Já a Carolina Herrera levou à passarela nomes ligados às artes, como Ming Smith, de 79 anos, e Amy Sherald, de 52.
De acordo com dados da plataforma de busca de moda Tagwalk, todas as 20 principais marcas analisadas incluíram pelo menos uma modelo considerada “mais velha” — termo que, no universo da moda, costuma designar profissionais acima dos 30 anos. Para Alexandra Van Houtte, o fenômeno revela uma mudança de postura do setor. “o que estamos realmente vendo é que as marcas estão cada vez mais abraçando modelos com sinais visíveis de idade, como cabelos grisalhos ou rugas”.
Essa valorização da idade não se restringe às passarelas. Nos bastidores dos desfiles e nas primeiras filas, mulheres mais velhas também passaram a ocupar espaços de destaque. Na Celine, o estilista Michael Rider convidou a escritora Joan Juliet Buck, de 77 anos, para acompanhar o desfile ao lado de atrizes como Naomi Watts, Sarah Paulson e Tracee Ellis Ross, todas na faixa dos 50 anos. Já na Loewe, a atriz Sissy Spacek, de 76 anos, fez sua estreia na Semana de Moda de Paris.
Para especialistas, essa transformação responde também a fatores econômicos. O chamado “mercado grisalho” — formado por consumidores mais velhos — tem grande poder de compra, mas por décadas foi pouco explorado pela moda. A ex-modelo Romae Gordon, de 52 anos, que voltou às passarelas recentemente, destaca essa realidade. “Há uma realidade que as agências e a indústria precisam enfrentar: que mulheres mais velhas têm o poder de compra para adquirir o que está sendo apresentado, e elas têm o desejo de se ver e ver suas experiências vividas nesses espaços”, afirma.