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Saúde

Sistema diminui sequelas cerebrais

Dispositivo pode ser utilizado até 90 minutos após uma parada cardíaca e atua com medicação e resfriamento
Por O Correio de Hoje
23/04/2026 | 13:23

As sequelas neurológicas seguem como a principal consequência entre sobreviventes de paradas cardiorrespiratórias, tanto em ambientes hospitalares quanto fora deles. Dados citados em estudos internacionais indicam que cerca de 23% das vítimas de paradas dentro de hospitais e até 68% das ocorridas fora dessas unidades evoluem para morte em UTI por danos cerebrais graves. Esse cenário tem motivado o desenvolvimento de novas tecnologias voltadas não apenas à retomada dos batimentos cardíacos, mas à preservação do cérebro — órgão mais sensível à falta de oxigenação.


É nesse contexto que surge o Carl, equipamento criado pela empresa alemã Resuscitec, com a proposta de ampliar as chances de recuperação com menor comprometimento neurológico. O sistema foi projetado para atuar mesmo após períodos prolongados de parada, podendo ser utilizado até 90 minutos após o evento. Ainda assim, especialistas ressaltam que o ideal é que o dispositivo seja empregado entre 30 e 40 minutos após a ocorrência, quando as chances de reversão com menor dano ainda são mais favoráveis.

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Produto desenvolvido na Alemanha, o equipamento ainda não tem data definida para chegar ao Brasil e está em fase de negociação Foto: Divulgação / Resuscitec


A lógica por trás da tecnologia representa uma mudança de foco. Em vez de concentrar esforços exclusivamente na reativação do coração e dos pulmões, o sistema direciona atenção ao cérebro. “Sempre falam sobre ressuscitação cardiovascular e pulmonar, mas o cérebro é o órgão mais sensível. É preciso tratá-lo da forma correta e ninguém estava prestando atenção nisso.” A afirmação reforça a premissa que sustenta o desenvolvimento do equipamento: reduzir o impacto neurológico causado pela falta de oxigenação prolongada.


O funcionamento do Carl combina diferentes frentes de atuação simultânea. Segundo Christoph Benk, diretor-executivo e de tecnologia da Resuscitec, o equipamento assume temporariamente funções vitais do organismo. Enquanto simula a atuação do coração e dos pulmões, o sistema inicia a administração de medicamentos e o resfriamento controlado do paciente, estratégia que reduz o metabolismo cerebral e ajuda a proteger as funções neurológicas.


Ao mesmo tempo, sensores monitoram continuamente parâmetros como níveis de oxigênio e pressão arterial. Com base nesses dados, o dispositivo ajusta o tratamento em tempo real para garantir fluxo sanguíneo adequado ao cérebro. O objetivo é manter a perfusão cerebral até que o organismo recupere a capacidade de funcionamento autônomo.


Essa abordagem tenta preencher uma lacuna importante no atendimento de emergências: o intervalo entre a parada cardíaca e o restabelecimento efetivo da circulação. Quanto maior esse tempo, mais severas tendem a ser as consequências neurológicas. “Quanto maior a demora para a ressuscitação cardíaca, mais graves são as complicações”, resume o material técnico apresentado.


Estudos multicêntricos indicam que o uso do sistema pode elevar a taxa de sobrevivência com integridade neurológica para algo entre 40% e 50%. Em comparação, métodos tradicionais registram índices significativamente menores, variando entre 5% e 10%, segundo dados mencionados pelo diretor médico da empresa, Georg Trummer.


Apesar dos números promissores, especialistas destacam que o equipamento não substitui os protocolos tradicionais de atendimento. O médico intensivista Vinicius Garcia, do Hospital Samaritano Paulista, observa que o sistema deve ser encarado como um recurso complementar. “O paciente precisa receber massagem cardíaca imediatamente após a parada. O dispositivo opera como um suporte adicional para casos em que manobras iniciais e o choque do desfibrilador não foram suficientes para restaurar batimentos cardíacos.”


A Resuscitec informou que negocia a entrada do Carl no mercado brasileiro. Embora o valor do equipamento não tenha sido divulgado, a empresa afirma que o custo é comparável ao de tecnologias já utilizadas em hospitais, como sistemas de circulação extracorpórea (ECMO).


Para Natália Seipel, diretora global de desenvolvimento corporativo e de negócios da companhia, a adoção do equipamento pode trazer efeitos que vão além do momento crítico da emergência. A expectativa é de melhora na qualidade de vida dos sobreviventes, com redução de sequelas incapacitantes e, consequentemente, diminuição dos custos associados à reabilitação de longo prazo.


Ao ampliar a janela de atendimento e priorizar a proteção cerebral, a tecnologia se insere em uma nova fronteira da medicina de emergência. Mais do que reverter a parada cardíaca, o desafio passa a ser garantir que o paciente sobreviva com o máximo possível de autonomia — um avanço que pode redefinir protocolos e resultados no tratamento de uma das condições mais críticas da prática médica.