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Política

RN tem 14% de analfabetismo e atraso

Em entrevista a O CORREIO DE HOJE, economista detalha diagnóstico do RN e apresenta plano com foco em educação, indústria e sustentabilidade
Por O Correio de Hoje
22/04/2026 | 18:42

O pré-candidato ao Governo do Rio Grande do Norte pelo Psol, Robério Paulino, afirmou em entrevista exclusiva a O CORREIO DE HOJE que o Estado acumula “décadas de atraso” em áreas estruturais como educação, economia e meio ambiente. Professor de economia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), ex-vereador de Natal e ex-candidato ao governo e à Prefeitura do Natal, ele apresentou um diagnóstico amplo e defendeu mudanças “profundas, estruturais” no modelo de desenvolvimento estadual.

Na educação, Robério destacou o que considera o principal problema do Estado. Segundo ele, o RN tem “quase 14%” de taxa de analfabetismo, o que representa “o dobro da média nacional, em torno de 7%”. “Um em cada 7 ou 8 potiguares ainda não sabe ler e escrever, na época da Internet, das redes sociais”, afirmou, acrescentando: “isso me envergonha profundamente como professor”.

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Ex-vereador de Natal e professor universitário Robério Paulino, pré-candidato ao Governo do Estado pelo Psol Foto: José Aldenir / O Correio de Hoje

O pré-candidato também apontou atraso na educação integral. Em 2024, Pernambuco, Piauí, Ceará e Paraíba já superavam “50% das matrículas no ensino médio em tempo integral”, com Pernambuco chegando a “69%”. No RN, o índice era de “13,3% em 2024” e alcançava “pouco mais de 30% das escolas estaduais em 2025”. Ele ainda ressaltou que, das “100 melhores escolas de anos iniciais do Brasil, 87 estão no Ceará”.

Embora reconheça que os salários dos professores estejam “um pouco acima da média do Nordeste”, Robério criticou as condições das escolas. Segundo ele, são “precárias” e há “oportunidades limitadas de qualificação dos educadores”. “Basta ir a uma escola pública e conversar com os professores, para comprovar”, disse.

Na economia, o pré-candidato afirmou que o Estado segue dependente da indústria salineira e do petróleo, este último em retração após desinvestimentos da Petrobras. A exploração offshore, segundo ele, “é apenas promessa e não é garantia de nada, podendo ser muito arriscada”. Ele também criticou o impacto das energias renováveis. “Esse declínio não é compensado pelas indústrias de energia eólica e solar”, afirmou, citando problemas como “ruído” e “morte de pássaros migratórios” no caso das eólicas. Do ponto de vista econômico, disse que “a quase totalidade dos lucros delas não fica aqui”, que “os componentes são quase todos trazidos de fora” e que, após instaladas, “geram pouquíssimos empregos”. “Estamos ganhando o que com elas?”, questionou.

Robério também criticou a ausência de política industrial. Segundo ele, ao entrar em um supermercado no RN, é possível observar que “quase tudo que está nas prateleiras vem de fora”, incluindo “muçarela, iogurte, pizzas, tortas, suco de frutas, sabonetes, sandálias”. “Isso tudo poderia ser fabricado aqui, gerando milhares de empregos”, afirmou, acrescentando: “Temos muita inteligência nesse estado. Mas não há visão política para isso”.

Na área ambiental, o diagnóstico foi ainda mais duro. “Nosso semiárido está virando deserto rapidamente”, disse, ao citar a crise ambiental global. Segundo ele, “rios, açudes e barragens estão assoreados”, reduzindo a capacidade de armazenamento de água. “Nossa terra está morrendo. Isso não é exagero de ambientalista; é o diagnóstico muito real”, afirmou, questionando: “O que os governos fazem sobre isso? Nada”.

O pré-candidato mencionou ainda problemas em áreas como saúde e transporte, mas evitou aprofundar. “Sou apenas pré-candidato, não estamos em campanha ainda”, disse, afirmando que aguardará o programa do partido.

Propostas

Ao apresentar ideias para uma eventual gestão, Robério afirmou que pretende “acabar, em apenas dois anos, com essa vergonha que é o analfabetismo”, por meio de um mutirão envolvendo estudantes de universidades públicas e privadas. Ele citou experiência pessoal no Projeto Rondon aos 16 anos. Também defende ampliar a educação integral para “pelo menos 45%” em quatro anos, melhorar salários e condições de trabalho e criar um plano de qualificação de educadores.

Na economia, propõe um plano de desenvolvimento de “4 anos” para avançar “40 anos”, com foco em industrialização e substituição de importações. Ele afirma estudar experiências internacionais desde a graduação, mestrado e doutorado, citando a China como referência. Também defendeu o fim da escala “6 x 1”, classificando-a como “semiescravidão”, e argumenta que a medida pode gerar mais empregos.

Na área ambiental, propõe plantar “pelo menos 5 milhões de árvores em 4 anos”, com viveiros em cidades e escolas. Citou que a China planta “1 bilhão de árvores” no deserto de Gobi e que a Etiópia plantou “300 milhões”. Criticou Estados Unidos e Europa por não cumprirem compromissos do Acordo de Paris. “Nosso sonho é ver nosso sertão verde de novo”, disse.

Eleições

Sobre o cenário político, Robério afirmou que o Psol terá como foco “enfrentar a direita” para evitar um “retrocesso”. Disse que o partido apoia a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) contra a “direita fascista”. Apesar disso, no Rio Grande do Norte, avaliou que a governadora Fátima Bezerra (PT) poderia ter feito “bem mais em 8 anos”.

O professor universitário citou que apresentou a ela um plano de erradicação do analfabetismo e um projeto de plantio de árvores, mas “não foi implementado” e “sequer fomos recebidos”. Ainda assim, afirmou que o partido pode apoiar o indicado do PT como segundo nome ao Senado, tendo Sandro Pimentel (Psol) como primeira opção.

Ao comentar sobre o pré-candidato ao governo Allyson Bezerra (União), afirmou que ele e outro adversário “representam o passado” e “um retrocesso”. Disse que Allyson mudou de posição ao se aproximar das oligarquias. “Dá para confiar? Diz-me com quem andas que te direi quem és”, afirmou. Também disse que Allyson “não tem propostas sérias” e está “enrolado com graves denúncias”, acrescentando que “a população de Mossoró está desconfiada”.

Sobre Álvaro Dias (PL), afirmou que ele representa “os setores neoliberais de direita mais radicais”, críticos dos serviços públicos. Disse que o Estado é “opressor, mas também civilizador” ao garantir saúde e educação públicas. Avaliou que Álvaro “não tem propostas de avanço real” e faria “um governo medíocre”. Classificou sua gestão enquanto prefeito de Natal como “pífia” e afirmou que ele se alinhará com Flávio Bolsonaro (PL) contra Lula, o que, segundo ele, representaria “um retrocesso para o RN e para o Brasil”.

Por fim, Robério afirmou que o eleitor deve avaliar “propostas, história, qualificação e honestidade dos candidatos”, além de observar alianças e coerência partidária. Criticou a propaganda eleitoral e disse que não pretende ser figurante. “Não tenho dúvida que sou o candidato mais preparado e que teremos as melhores propostas nessa eleição”, afirmou.