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Editorial

Alfabetização exige plano ousado e metas claras

Confira o editorial do Agora RN desta quinta-feira 26
Editorial
26/03/2026 | 06:48

O Rio Grande do Norte avançou. Os números mostram isso. Entre 2024 e 2025, o percentual de crianças alfabetizadas na idade certa saltou de 39% para 48%. Trata-se de um crescimento relevante, de 23,1% em dois anos.

Mesmo assim, o RN caiu para a última colocação no ranking nacional. Avançou, mas menos do que outros estados. Melhorou, mas continuou ficando para trás.

Alfabetização exige plano ousado e metas claras - Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Alfabetização exige plano ousado e metas claras - Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

O Governo do Estado enaltece a melhora no desempenho. Sustenta que o avanço é resultado de políticas como o Pró-Alfa RN, da adesão de 100% dos municípios ao Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, da distribuição de materiais didáticos para mais de 190 mil estudantes, da criação de cantinhos de leitura, da concessão de bolsas para formação de professores e do fortalecimento do Sistema de Avaliação da Aprendizagem (Simais). Também aponta a existência de uma rede de articuladores territoriais e um investimento de cerca de R$ 38,4 milhões desde 2023.

Tudo isso é positivo. Tudo isso conta. Mas, diante do resultado final, surge a pergunta inevitável: se há tantas políticas em execução, por que o Estado ainda ostenta os piores indicadores do Brasil? A resposta não está clara para a sociedade.

Há, evidentemente, um esforço em curso, sinais de melhora, um caminho sendo trilhado. O próprio Comitê Estadual do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada reconhece uma “trajetória de crescimento consistente”. Mas ainda falta algo essencial: um plano estruturado, compreensível para o conjunto da sociedade, com metas claras, prazos definidos e responsabilidades bem distribuídas.

O crescimento recente é virtuoso. É alvissareiro. Mas não é suficiente.

Estados brasileiros — inclusive governados pelo PT — já demonstraram que é possível dar saltos mais expressivos. O caso do Piauí é emblemático. Em dois anos, o Estado saiu de 52% para 77% de crianças alfabetizadas na idade adequada. Está perto de alcançar a meta estipulada para 2030. Por lá, o desempenho foi resultado de uma decisão política clara: colocar a alfabetização no centro da agenda educacional e compreender que a responsabilidade é compartilhada entre governo estadual e prefeituras.

Entre outras iniciativas que contribuíram para o avanço do Piauí, está o Programa Piauiense de Educação na Idade Certa (PPAIC), que estabeleceu metas objetivas para melhorar os indicadores. O projeto tem um modelo de colaboração entre governo estadual e os 224 municípios do Piauí, com oferta de apoio técnico, formação continuada de professores e suporte no planejamento pedagógico.

Um dado relevante é que a política educacional é uniforme. Estado e prefeituras piauienses perseguem o mesmo objetivo. As diretrizes e os objetivos de aprendizagem são compartilhados. A atuação começa desde a creche.

Por que não seguir esse caminho?

O Rio Grande do Norte precisa de um plano ousado, estruturado e transparente.

Um plano que diga, de forma clara, onde estamos, aonde queremos chegar e como faremos isso. Que estabeleça metas intermediárias, mecanismos de monitoramento e, sobretudo, consequências para o não cumprimento dos objetivos.

Não há política pública mais transformadora do que a alfabetização. Não há base mais essencial para o desenvolvimento. Não há legado mais duradouro.

A governadora Fátima Bezerra (PT) construiu sua trajetória política no campo da educação. É professora, foi dirigente sindical e sempre defendeu a escola pública como instrumento de inclusão e cidadania. E é preciso reconhecer que ela tem serviços prestados ao Estado nessa área.

Na educação, porém, o RN continuou amargando índices ruins nesse segmento. Talvez não haja mais tempo para tirar o Estado da última posição no ranking nacional durante este ciclo de governo. Mas ainda há tempo para deixar algo mais importante: uma política consolidada, consistente, capaz de produzir resultados no médio prazo.

Um legado que organize a rede, alinhe os municípios, fortaleça a formação docente, qualifique o acompanhamento pedagógico e estabeleça metas claras de aprendizagem.

O Rio Grande do Norte já mostrou que pode crescer. Agora precisa mostrar que pode alcançar. Porque, na educação, não basta sair do lugar. É preciso chegar lá.