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Saúde

Quando o adeus pode ser escolhido: morte assistida em debate no Canadá

Procedimento legal desde 2016 já responde por uma em cada 20 mortes no país; Parlamento discute se direito deve incluir pacientes com transtornos mentais
Por O Correio de Hoje
09/03/2026 | 17:02

O sofrimento de Jacques Poissant chegou ao limite no dia em que perguntou à filha se seria “covardia pedir ajuda para morrer”. Aposentado e ex-consultor de seguros no Canadá, ele tinha 93 anos e enfrentava um câncer de próstata que lhe causava dores intensas. Segundo a filha, Josée, o pai “estava se apagando” e já não demonstrava vontade de continuar vivendo.

Quando soube que poderia recorrer à morte assistida, legalizada no país, Poissant tomou sua decisão sem hesitar. Cinco anos depois, em 2025, a mãe de Josée fez a mesma escolha. Aos 96 anos, após uma internação hospitalar e consciente de que não voltaria para casa, decidiu encerrar a vida cercada pela família e ouvindo as músicas de que mais gostava. “Ela estava em paz. Cantou até adormecer. Não existe uma boa maneira de morrer, mas, para mim, essa foi a melhor”, recorda a filha.

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Morte assistida é legal no Canadá desde 2016 para pacientes com doenças graves e sofrimento intolerável; pesquisa internacional analisou opiniões de médicos sobre eutanásia - Foto: Freepik

A morte assistida é permitida no Canadá desde 2016 para pacientes em fase terminal. Em 2021, a legislação foi ampliada para incluir pessoas com doenças graves e incuráveis, mesmo quando a morte não é considerada iminente. Em 2023, uma em cada 20 mortes registradas no país ocorreu por meio desse procedimento.

O debate agora gira em torno da possibilidade de estender o direito a pessoas que sofrem exclusivamente de transtornos mentais. Uma comissão parlamentar analisa a proposta. Entre os que defendem a mudança está Claire Brosseau, de 49 anos, que convive há décadas com transtorno bipolar e entrou na Justiça para obter autorização para a morte assistida.

“Tentei antidepressivos, antipsicóticos, estabilizadores de humor, benzodiazepínicos, soníferos, terapia cognitivo-comportamental, terapia dialético-comportamental, tai-chi, reiki, meditação, veganismo, arteterapia e musicoterapia. Não há praticamente nada que eu não tenha tentado. Já é demais há muito tempo”, afirma.

Moradora de Toronto, ela diz que apenas breves momentos do dia trazem algum alívio. “Tenho entre 10 e 30 minutos por dia em que me sinto bem. Mas o resto é simplesmente horrível”, relata. Para ela, uma mudança na legislação permitiria partir “em paz e com segurança, cercada de amor”.

O governo canadense chegou a planejar a ampliação da lei para 2024, independentemente da doença. No entanto, a medida foi adiada por três anos, com o argumento de que o sistema de saúde mental precisa estar preparado para lidar com essa possibilidade.

Pesquisas indicam que cerca de 80% dos canadenses apoiam a morte assistida, mas críticos alertam para riscos. O professor de direito sanitário da Universidade de Toronto, Trudo Lemmens, afirma que o debate se tornou banalizado. “A ideia de suicídio costuma fazer parte de um transtorno psiquiátrico e é extremamente difícil prever como uma doença mental irá evoluir”, diz.

Já a psiquiatra Mona Gupta, que presidiu um painel de especialistas que assessorou o governo, argumenta que não há motivo clínico para separar doenças mentais de enfermidades físicas graves. Segundo ela, algumas pessoas passam décadas em tratamento sem obter alívio significativo. “O sofrimento provocado por certos transtornos mentais pode ser tão impossível de aliviar quanto a dor física”, afirma.

Para solicitar a morte assistida no Canadá, o paciente deve ser maior de idade, ter capacidade de decisão e sofrer de uma doença grave ou incurável que provoque sofrimento constante considerado intolerável. É o caso de Rachel Fournier, de 71 anos, diagnosticada com um tumor cerebral e autorizada a recorrer ao procedimento.

“Quando você sofre, sente que isso nunca vai acabar. Saber que haverá um fim e que posso escolher o momento é um alívio imenso. Continuo mantendo o controle sobre minha vida, embora não possa controlar o que acontece com meu corpo”, diz.

Segundo médicos que acompanham esses casos, muitas famílias transformam o último dia em uma despedida planejada, com música, discursos e encontros entre parentes e amigos. Convites como “venham celebrar minha vida” já passaram a circular entre pacientes que escolhem esse caminho.

Para o médico Georges L’Espérance, pioneiro na prática no país, essas despedidas costumam ser marcadas por emoção e gratidão. “Graças à medicina, acrescentamos anos à vida, mas nem sempre vida aos anos. A decisão de encerrar a vida deve caber ao paciente”, afirma.

Médicos

Cerca de metade dos médicos ouvidos em uma pesquisa internacional afirmou que consideraria recorrer à morte assistida ou à eutanásia caso estivesse enfrentando câncer em estágio avançado ou doença de Alzheimer. O estudo foi publicado na revista científica Journal of Medical Ethics.

De acordo com os resultados, a maioria dos profissionais de saúde preferiria priorizar o alívio de sintomas em vez de tratamentos destinados apenas a prolongar a vida, caso eles próprios fossem pacientes com essas doenças.

A morte assistida ocorre quando o paciente, ainda capaz de decidir sobre seu tratamento, recebe da equipe médica os medicamentos necessários para provocar a própria morte. Na eutanásia, por outro lado, a administração da dose fatal é feita diretamente pelos profissionais de saúde.

A pesquisa ouviu médicos de oito países e regiões com legislações diferentes sobre o tema: Bélgica, Itália, Canadá, os estados norte-americanos de Oregon, Wisconsin e Geórgia, além dos estados australianos de Victoria e Queensland.

As leis variam amplamente entre essas localidades. No Oregon, o suicídio assistido por médico é permitido desde 1997. Em Wisconsin, propostas para legalizar a chamada Lei da Morte com Dignidade foram apresentadas diversas vezes nas últimas duas décadas, mas a prática continua proibida, assim como na Geórgia. No Canadá, tanto o suicídio assistido quanto a eutanásia são legais desde 2016.

Na Europa, a Bélgica permite a morte assistida desde 2002, enquanto na Itália a prática permanece ilegal. Na Austrália, o estado de Victoria passou a autorizar a morte assistida em junho de 2019. Em Queensland, a legislação foi aprovada em 2021, mas ainda não havia entrado em vigor no período em que os dados foram coletados, entre maio de 2022 e fevereiro de 2023.

Para avaliar as opiniões dos médicos, os pesquisadores apresentaram dois cenários hipotéticos: um paciente com câncer avançado e outro com Alzheimer. Os participantes foram convidados a indicar quais práticas de fim de vida considerariam para si mesmos caso estivessem nessas situações.

Entre as opções avaliadas estavam ressuscitação cardiopulmonar, ventilação mecânica, alimentação por sonda, intensificação do controle de sintomas, sedação paliativa, uso de medicamentos para o fim da vida, suicídio assistido por médico e eutanásia.

O estudo reuniu respostas de médicos de família, especialistas em cuidados paliativos e outros profissionais que frequentemente lidam com pacientes em estágio terminal, como cardiologistas, oncologistas, neurologistas, médicos de emergência e intensivistas.

Ao todo, 1.408 profissionais responderam ao questionário, mas 1.157 respostas foram incluídas na análise final. A grande maioria indicou que consideraria intensificar o alívio dos sintomas como uma opção boa ou muito boa — 94% no cenário de câncer e 91% no de Alzheimer. Já a sedação paliativa foi vista como uma boa ou muito boa alternativa por 59% dos entrevistados no caso de câncer e por 50% no caso de Alzheimer.

As opiniões variaram de acordo com a região. No cenário de Alzheimer, por exemplo, a proporção de médicos que consideraram a sedação paliativa uma boa ou muito boa opção foi de pouco mais de 39% na Geórgia a mais de 66% na Itália.

A eutanásia também foi considerada uma opção positiva por cerca de metade dos entrevistados: 54% no cenário de câncer e 51,5% no de Alzheimer. A aprovação variou de cerca de 38% na Itália a 81% na Bélgica no caso de câncer, e de aproximadamente 37,5% na Geórgia a quase 67,5% na Bélgica no cenário de Alzheimer.

Além disso, cerca de um terço dos médicos (33,5%) afirmou que consideraria usar medicamentos disponíveis para encerrar a própria vida no caso de um câncer avançado.

Os pesquisadores observaram que a legislação local parece influenciar diretamente a opinião dos profissionais. Médicos que atuam em lugares onde a eutanásia ou o suicídio assistido são legais mostraram-se três vezes mais propensos a considerar essas práticas como uma opção muito boa em casos de câncer e quase duas vezes mais propensos no cenário de Alzheimer.

Segundo os autores do estudo, isso pode ocorrer porque esses profissionais estão mais familiarizados com os procedimentos e com seus resultados clínicos. O contexto social e legal também tende a influenciar as percepções sobre o que é considerado uma prática médica aceitável.

A especialidade médica também fez diferença nas respostas. Clínicos gerais e outros especialistas demonstraram menos disposição para considerar a sedação paliativa como uma boa opção quando comparados a médicos de cuidados paliativos. Por outro lado, foram mais propensos a avaliar positivamente a eutanásia, o suicídio assistido por médico ou o uso de medicamentos para encerrar a própria vida.

A religiosidade também apareceu como fator relevante. Médicos sem filiação religiosa mostraram maior tendência a considerar o suicídio assistido e a eutanásia como alternativas preferíveis. Entre eles, 65% disseram que considerariam o suicídio assistido, contra 38% entre aqueles com forte vínculo religioso. No caso da eutanásia, os percentuais foram de 72% e 40%, respectivamente.

Para os pesquisadores, os resultados também refletem um possível desconforto moral entre médicos diante da prática frequente de prolongar tratamentos em pacientes no fim da vida. Embora terapias para prolongar a sobrevivência ainda sejam amplamente utilizadas, muitos profissionais indicaram que não escolheriam esse caminho para si mesmos.