As vendas de carros elétricos usados nos Estados Unidos avançaram no primeiro trimestre, impulsionadas pelo aumento da oferta de veículos que retornam de contratos de leasing e pela redução nos preços médios, em um cenário de combustíveis mais caros e perda de incentivos para modelos novos.
Segundo estimativas da Cox Automotive, as vendas de elétricos usados cresceram 12% na comparação anual e 17% em relação ao trimestre imediatamente anterior. O movimento ocorre em paralelo a uma retração no mercado de veículos novos, com queda estimada de 28% após a retirada, em 2025, do crédito fiscal de US$ 7.500 para consumidores.
O aumento da oferta tem como principal origem os contratos de leasing firmados durante o boom de veículos elétricos no início da década. Esses automóveis começam agora a retornar ao mercado em volume elevado. Dados da Experian indicam que os elétricos devem representar 15% dos veículos devolvidos ao fim dos contratos neste ano, ante 7,7% no primeiro trimestre.
Esse excesso de oferta tem pressionado os preços. Entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026, o valor médio dos elétricos usados recuou 8,5%, reduzindo a diferença em relação aos veículos a combustão de US$ 4.923 para US$ 1.334, também segundo a Cox Automotive.
“Estamos vendo um reajuste significativo nos preços dos VEs”, afirmou Stephanie Valdez Streaty, diretora de insights do setor da consultoria.
Analistas apontam que o crescimento do segmento está ligado a decisões tomadas durante a fase de incentivos mais robustos. Com o crédito fiscal introduzido em 2022, consumidores passaram a acessar modelos elétricos por meio de leasing com parcelas competitivas. De acordo com Dan Levy, do Barclays, em junho do ano passado a mensalidade média de um Chevrolet Blazer EV era de US$ 515, abaixo dos US$ 586 de um modelo equivalente a gasolina, mesmo com preço de tabela superior.
As condições favorecidas impulsionaram a participação dos elétricos no mercado automotivo dos EUA, que dobrou para 5,2% entre 2021 e 2022 e alcançou 7,7% em 2024, segundo a Edmunds, antes de recuar para cerca de 6,5% neste ano.
Ao mesmo tempo, uma guerra de preços liderada pela Tesla contribuiu para reduzir o valor residual dos veículos usados, ampliando a acessibilidade no mercado secundário. Para Jessica Caldwell, chefe de insights da Edmunds, os modelos usados mais baratos devem funcionar como uma “porta de entrada” para novos consumidores.
O ambiente de preços elevados de combustíveis também reforça a tendência. O preço médio da gasolina nos Estados Unidos superou US$ 4 por galão nesta semana, pela primeira vez desde 2022, enquanto o valor médio de um carro novo permanece próximo de níveis recordes. Analistas avaliam que a combinação tem pressionado a demanda por alternativas mais acessíveis.
Executivos da indústria já identificam sinais de mudança no comportamento do consumidor. Duncan Aldred, presidente das operações da GM na América do Norte, afirmou que a montadora registrou aumento no interesse por veículos elétricos nas últimas semanas.
Apesar disso, especialistas ponderam que ainda é cedo para avaliar se o avanço dos preços da gasolina será suficiente para impulsionar de forma consistente as vendas de modelos novos, diante de preocupações persistentes com autonomia e infraestrutura de recarga.
Montadoras como Ford e GM planejam lançar uma nova geração de veículos elétricos mais acessíveis nos próximos anos. Até lá, o mercado de usados tende a absorver parte relevante da demanda, beneficiado pela maior disponibilidade e pela evolução tecnológica dos modelos mais recentes.
“O sonho da adoção em massa de VEs aqui na América ainda não morreu”, afirmou Mike Murphy, cofundador do grupo EVs For All America.