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Saúde

Uso de sachês de nicotina cresce no mundo e gera debate no Brasil

Produtos sem combustão ganham espaço no mercado internacional, mas enfrentam críticas sobre dependência, riscos à saúde e atração de jovens
Por O Correio de Hoje
31/07/2026 | 17:25

Os sachês de nicotina e outros produtos sem combustão vêm ampliando participação no mercado internacional e dividindo opiniões entre autoridades de saúde, pesquisadores e indústria do tabaco. Enquanto os Estados Unidos autorizaram recentemente a comercialização de algumas bolsas de nicotina com alegações de menor risco em comparação ao cigarro convencional, o Brasil mantém a venda proibida e iniciou uma análise regulatória que poderá definir o futuro desses produtos no País.

A discussão ganhou força após a Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora norte-americana, conceder autorização para que 20 sachês da marca ZYN, da Philip Morris, sejam vendidos com a informação de que o uso do produto em substituição ao cigarro reduz o risco de doenças como câncer de boca, câncer de pulmão, doenças cardíacas, acidente vascular cerebral (AVC), enfisema e bronquite crônica.

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Sachês de nicotina são comercializados em diversos países como alternativa ao cigarro - Foto: reprodução

Mesmo assim, a FDA ressalta que os sachês, vendidos em sabores como menta, citrus e café e com concentrações entre 3 mg e 6 mg de nicotina, não são isentos de riscos e não devem ser utilizados por pessoas que não fumam. O órgão considera, porém, que eles podem reduzir a exposição a diversas substâncias tóxicas produzidas pela combustão do cigarro.

Outro segmento em expansão é o dos dispositivos de tabaco aquecido, como o IQOS, da Philip Morris, e o glo, da British American Tobacco (BAT). Diferentemente do cigarro convencional, esses aparelhos aquecem o tabaco entre 250°C e 350°C, enquanto a combustão do cigarro pode atingir temperaturas entre 700°C e 900°C.

A indústria defende que tanto os dispositivos aquecidos quanto os sachês representam alternativas para fumantes adultos, já que eliminam a fumaça e parte das substâncias tóxicas produzidas pela combustão. Além disso, os sachês não contêm tabaco em sua composição e são utilizados entre a gengiva e os dentes, sem inalação.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informa que não existe nenhum sachê de nicotina autorizado para comercialização. Como esses produtos não se enquadram nas categorias já regulamentadas para cigarros ou cigarros eletrônicos, a agência incluiu o tema em sua Agenda Regulatória 2026-2027.

Segundo a Anvisa, “a revisão não tem como objetivo regularizar os sachês, mas analisar o enquadramento desses produtos” na legislação sanitária brasileira. A agência afirma ainda que a análise “busca tratar a questão sob a ótica técnica e sanitária”. Após uma consulta pública, um relatório técnico deverá orientar os próximos passos.

Os sachês são produzidos com nicotina extraída das folhas de tabaco ou sintética, misturada a adoçantes, aromatizantes, saborizantes e outros aditivos. O conteúdo é acondicionado em pequenas bolsas que se dissolvem quando colocadas entre a gengiva e os dentes. O produto deriva do tradicional “snus”, desenvolvido na Suécia com tabaco úmido.

Apesar da proibição, especialistas alertam que versões contrabandeadas já são comercializadas pela internet. Levantamento realizado entre agosto e setembro de 2025 pela Escola de Segurança Multidimensional da USP, em parceria com a Ipsos e patrocinado pela Philip Morris, apontou que 3% dos adultos brasileiros consumiram sachês de nicotina nos seis meses anteriores à pesquisa.

Debate sobre redução de danos

A possibilidade de regulamentação divide especialistas em saúde pública. A Comissão Nacional para Implementação da Convenção-Quadro sobre Controle do Uso do Tabaco e de seus Protocolos (Conicq) é contrária à liberação dos produtos.

Para a secretária executiva da comissão, Vera Luiza da Costa e Silva, pesquisadora do Centro de Estudos sobre Tabaco e Saúde da Fiocruz, ainda não há evidências suficientes de que os sachês reduzam o consumo de cigarros.

“Não temos hoje comprovação científica de que os usuários de tabaco realmente trocam o cigarro pelos sachês. E são produtos muito atraentes para crianças e adolescentes, que funcionam como uma porta de entrada para a dependência de nicotina. Seria trocar uma epidemia de cigarros por uma de nicotina.”

Já o pneumologista Bruno Dias, do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HC-USP) e do Hospital Nove de Julho, considera que os produtos podem ser avaliados como estratégia de redução de danos para fumantes.

“A ausência de combustão é sim um componente importante nessa discussão, porque ela libera uma série de substâncias tóxicas que vão além da nicotina. Por isso, os sachês são uma estratégia possível de ser avaliada como redução de danos. Ainda tem nicotina, ainda causa dependência, não é um produto seguro, mas o propósito é trocar o cigarro por uma alternativa melhor e tratar a dependência a longo prazo.”

Para Paulo Corrêa, pneumologista e coordenador da iniciativa Education Against Tobacco no Brasil, os riscos permanecem elevados.

“Esses produtos causam uma forte dependência e têm diversos riscos associados, como maior chance de câncer de cavidade oral, esôfago e pâncreas, danos cardiovasculares. E carregam outras substâncias danosas, como formaldeído, metais como níquel e cromo, e outras que ainda estão sendo estudadas.”

Expansão internacional e preocupação com jovens

Em relatório recente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) demonstrou preocupação com a expansão global dos sachês de nicotina, especialmente pelo marketing voltado ao público jovem.

Segundo a entidade, embora as fabricantes afirmem que os produtos são destinados a fumantes adultos, campanhas com sabores como chiclete e bala, uso de influenciadores digitais e patrocínio de eventos esportivos acabam aumentando o interesse entre adolescentes.

A OMS informa que cerca de 160 países ainda não possuem regulamentação específica para os sachês de nicotina. Outros 32 países já estabeleceram algum tipo de regra para comercialização, enquanto 16 optaram por proibir completamente esses produtos. Entre os países que regulamentam o mercado, cinco restringem sabores e 21 proíbem publicidade.

O mercado global de sachês de nicotina foi estimado em quase US$ 7 bilhões em 2025 e pode ultrapassar US$ 40 bilhões até 2033, segundo levantamento da Grand View Research.

Em países como Suécia e Japão, onde produtos alternativos à combustão ganharam espaço, o número de fumantes caiu nas últimas décadas. Na Suécia, o uso do tradicional “snus” é apontado pelo governo como um dos fatores que contribuíram para reduzir a prevalência de fumantes de 15% para 5% em menos de 20 anos. No Japão, a taxa de tabagismo caiu de 21% para 16% em menos de uma década.

Mesmo assim, especialistas afirmam que a introdução dos sachês apresenta desafios semelhantes aos enfrentados com os cigarros eletrônicos, cuja popularização entre adolescentes preocupa autoridades sanitárias. De acordo com o III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, realizado em 2023, 8,7% dos brasileiros entre 14 e 17 anos já utilizavam cigarros eletrônicos.