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Atividade física

Treinos em grupo ganham força e transformam relação com exercício físico

Especialista aponta que atividades coletivas aumentam motivação e impacto emocional do exercício
Por Belita Lira, O Correio de Hoje
14/04/2026 | 13:16

Durante muito tempo, o exercício físico foi entendido como um compromisso individual — quase um ritual silencioso de disciplina, foco e repetição. Um espaço de esforço solitário, guiado por metas pessoais e pouca interação.

Mas essa lógica começa a se transformar. Cada vez mais, o treino deixa de ser apenas uma tarefa para se tornar um encontro. Um espaço onde o movimento do corpo se mistura com troca, incentivo e conexão.

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Gabriela Revoredo criou o Girls Club para unir saúde, rotina e apoio entre mulheres - Foto: arquivo pessoal

A personal trainer Laryssa Pio, especialista em consultoria fitness feminina, observa essa transformação de perto. Para ela, a mudança não é apenas prática — é emocional. “Quando o exercício se torna coletivo, ele deixa de ser apenas uma tarefa e passa a ser uma experiência. Existe uma troca de energia, incentivo e responsabilidade que eleva o nível de entrega”, conta.

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Personal Laryssa Pio defende a atividade em grupo – Foto: Cedida

O que antes era um compromisso consigo mesmo passa a envolver outras pessoas — e isso altera a forma como o exercício é vivido. “A pessoa não está mais sozinha, ela se sente parte de algo maior, e isso impacta diretamente na performance e na constância”, explica.

A mudança ajuda a explicar por que treinos em grupo têm atraído cada vez mais pessoas, mesmo em uma rotina já marcada por compromissos. “As pessoas estão cada vez mais buscando conexão, não só resultado físico. O treino em grupo entrega resultado, mas também entrega pertencimento, apoio e identificação”, afirma a personal.

Em um cenário em que o cotidiano tende ao isolamento — seja pelo trabalho remoto, pelo uso intenso de telas ou pela falta de tempo —, o exercício coletivo passa a ocupar um espaço que vai além da saúde física. Ele se torna um ponto de encontro.

A motivação deixa de ser exclusivamente interna. Ela passa a ser construída no ambiente. “A motivação no treino coletivo é alimentada pelo ambiente. Ver outras pessoas se esforçando, evoluindo e superando limites cria um efeito contagiante.”

Esse “efeito contagiante” tem impacto direto na consistência — um dos maiores desafios para quem tenta manter uma rotina de exercícios. “Além disso, existe um compromisso implícito com o grupo, que faz com que a pessoa apareça mesmo nos dias em que não está tão motivada.”, explica a especialista.

A constância, muitas vezes atribuída apenas à disciplina individual, revela outra dimensão. “A consistência não depende só de disciplina, ela também é influenciada pelo ambiente. Quando você tem um grupo esperando por você, um horário combinado e um senso de responsabilidade compartilhada, as chances de desistência diminuem muito.”

Mas o impacto não se limita ao comportamento. Ele também altera a forma como o exercício é sentido. “O treino individual pode ser mais introspectivo, enquanto o treino em grupo é mais estimulante emocionalmente. Ele gera sensação de apoio, encorajamento e até leve competitividade saudável”, conta.

Essa combinação transforma a relação com o próprio corpo. “O ser humano precisa se sentir parte de algo. Quando a pessoa se sente acolhida dentro de um grupo, ela não só melhora a adesão ao treino, como também reduz níveis de ansiedade, aumenta a autoestima e cria uma relação mais positiva com o próprio corpo e com o processo.”

Na prática, esse movimento tem se materializado em projetos que unem atividade física e construção de comunidade. Foi a partir dessa necessidade que surgiu o Girls Club, criado pela criadora de conteúdo Gabriela Revoredo. A ideia nasceu de uma experiência pessoal.

“Surgiu de uma necessidade minha. Eu sempre quis ter uma rotina mais saudável, mas sozinha era muito mais difícil manter constância. Então pensei em criar algo em grupo, onde uma motivasse a outra”, conta.

O que começou de forma simples, cresceu e se estruturou. Hoje, o projeto reúne acompanhamento profissional, desafios e encontros presenciais. “A gente tem um desafio de 31 dias com acompanhamento através do app GymRats, onde as participantes registram hábitos como treino, cardio, leitura e autocuidado.”

Mas o diferencial está no que vai além do treino. “Também realizamos encontros presenciais, com experiências como yoga, trilha, tecido aéreo, entre outras atividades. A ideia é sair da rotina, se movimentar e se reconectar com o próprio corpo.”

A proposta, segundo Gabriela, não é apenas melhorar o condicionamento físico — é integrar cuidado com o corpo, a mente e a rotina. “Vai muito além do treino, é sobre cuidar do corpo, da mente e da rotina de forma integrada.”

O impacto aparece nos relatos das participantes. “Já ouvi relatos de mulheres que voltaram a se cuidar, que melhoraram a autoestima e que encontraram no grupo e nos encontros um apoio que não tinham antes”, afirma.

Com o tempo, o grupo deixou de ser apenas um espaço de atividade física e passou a ser uma rede. “As meninas se conhecem, criam conexão, amizade e começam a se apoiar fora do desafio também. Vira realmente uma rede.”

Essa rede tem uma característica central: a ausência de comparação rígida. “A gente trabalha muito com a ideia de constância, não de comparação. Cada uma está em um momento, e tudo bem.”

O ambiente, segundo ela, precisa ser acessível — física e emocionalmente. “Quero que encontrem um espaço seguro, sem julgamento. Um lugar onde possam começar ou recomeçar”, conclui.

O sucesso desse tipo de iniciativa revela uma mudança mais ampla. O exercício físico deixou de ser apenas um instrumento de transformação corporal e passou a ser também uma ferramenta de conexão.

Em um cotidiano cada vez mais individualizado, o treino coletivo devolve algo essencial: a possibilidade de compartilhar o processo. E é nessa experiência — de ser visto, incentivado e acompanhado — que muitos encontram não apenas motivação para continuar, mas também um novo sentido para permanecer.