Titina Medeiros não era apenas uma atriz: era presença. Daquelas que chegam e alegram o clima do lugar, que ocupam a cena sem esmagar ninguém, que iluminam sem pedir holofote. Havia nela uma força rara, feita de trabalho diário, de afeto e de uma convicção de que a arte só faz sentido quando nasce da raiz. Titina “foi uma proletária da arte, uma trabalhadora da cultura”, segundo o ator César Ferrario, marido da atriz há quase 20 anos.
E há algo de profundamente simbólico neste momento. Enquanto nos despedimos de Titina, o Brasil é celebrado no mundo por sua força no cinema, com o destaque do filme “O Agente Secreto” – que contou com três potiguares no elenco. Dois acontecimentos que, à primeira vista, parecem opostos, mas que se tocam no fio invisível da arte que se sobressai e permanece.

Titina atravessou palcos e telas. Nunca buscou o rótulo de estrela, preferiu ser gente, ser ofício. E talvez por isso tenha sido tão grande, de uma grandeza que não estava apenas nos personagens que interpretou, mas na maneira como existiu entre nós.
Nem mesmo a morte, ainda mais quando chega cedo demais, é capaz de interromper aquilo que foi construído com verdade e talento. A vida pode ter sido breve, mas o legado não é. O que Titina deixa está nas pessoas que ela formou, nos caminhos que abriu para outros artistas e nas histórias que ajudou a contar sobre o Rio Grande do Norte.

Titina morreu aos 49 anos no domingo 11, em Natal, em decorrência de um câncer no pâncreas.
Velório no teatro, casa de Titina
Em meio à comoção de familiares, amigos e colegas de profissão durante o velório realizado nesta segunda-feira 12 no Teatro Alberto Maranhão (TAM), César Ferrario destacou que a artista potiguar se afastava do rótulo de celebridade e construiu a própria trajetória “no cumprimento daquilo em que acreditava”, trabalhando de manhã, de tarde e de noite.
“Quebra essa história que o Rio Grande do Norte não consagra e nem desconsagra ninguém. Nós consagramos sim!”, afirmou. Para César, Titina integrava um grupo de artistas que “se distanciam do conceito de celebridade. Porque elas são proletárias. Titina foi uma proletária da arte, ela foi uma trabalhadora. Se alguém a nomeou como celebridade, não coube a ela. Veio de fora”. Ele lembrou que a atriz montou estruturas próprias, convidou equipes, criou espetáculos e participou de muitos outros, sempre movida por projetos e desejos futuros.

César falou sobre a complexidade do luto e a gratidão pela convivência com a artista. “Apesar de toda a tristeza, a consciência é que nós somos muito privilegiados. Eu sou muito privilegiado. Estou agradecido por ter a oportunidade de ter vivido do lado desse ser humano maravilhoso que é Titina Medeiros”, disse. Mesmo reconhecendo a lacuna deixada pela partida precoce, ele destacou: “Se ela só teve 49 anos de existência, ela não veio à brincadeira. Nesses anos, ela botou para quebrar”.
César também descreveu o modo de ser da atriz fora dos holofotes. “Titina é amável, feliz, absurdamente profissional, dedicada. Às vezes as pessoas falam de talento, mas eu quero dizer também que existe trabalho, pesquisa, treinamento, assiduidade e essa também era Titina”, afirmou.
Atriz enfrentou a doença de forma reservada
Sobre o período após a descoberta da doença, contou que a artista optou por viver o processo de forma reservada: “Ela resolveu viver todo o processo de uma forma resguardada, protegida, compartilhando com amigos próximos, familiares, sendo muito acolhida, muito amada”.
Pouco antes das 10h desta segunda-feira 12, o corpo deixou o TAM sob homenagens e seguiu para Acari, no Seridó, onde a atriz cresceu. O sepultamento aconteceu no fim do dia. A família informou que Titina havia descoberto o câncer em março de 2025 e preferiu não tornar público o diagnóstico, para focar na cura física e espiritual.

Amigos celebram: “Ela desbravou espaço para os potiguares”
Amigo de longa data, o multiprodutor e agente artístico Marcílio Amorim relembrou o início da relação com a atriz, em 1995, no próprio TAM. “Esse lugar aqui é emblemático para a minha história, porque eu conheci ela aqui em 1995. Ela me ofereceu carona e dessa carona a gente nunca mais se desgrudou. Então, desde 1995, eu vivo uma relação de irmão com ela”, disse. Para ele, Titina “veio para abrilhantar a cultura potiguar, para levar o nosso trabalho para além do nosso Estado. Ela queria que todo mundo acontecesse”.
Marcílio destacou a dimensão nacional da trajetória da atriz e o papel pioneiro na televisão. “Na televisão ela foi pioneira. Ela desbravou um mercado que não era acessível para nós nordestinos, que não tinha espaço principalmente para os potiguares. E ela quebrou esse bloqueio. Foi a primeira a fazer tão bem tantos personagens”, afirmou. Ele lembrou ainda a turnê de 2019 pelo Palco Giratório: “Passamos por 575 espetáculos em 47 cidades de 22 estados, foi inesquecível”.

A governadora Fátima Bezerra (PT) ressaltou a importância cultural e humana de Titina. “Não foi apenas uma grande atriz, foi uma grande militante em defesa da cultura, foi uma grande cidadã”, declarou. “Essa arte que ela abraçou com tanta alegria e que exerceu com tanta dignidade, se eterniza. Estará presente em cada canto desse Estado, pulsando, inspirando as gerações presentes e futuras”, complementou.
O Governo do Estado decretou luto oficial de três dias pelo falecimento da atriz, em homenagem à sua contribuição à cultura, à arte e ao povo potiguar. Em nota, destacou a trajetória de Titina como “uma artista imensa, cuja vida foi inteiramente dedicada à arte, à cultura e ao povo do nosso estado”.

Em entrevista ao AGORA RN, em 2021, Titina falou sobre o orgulho de ser reconhecida como pioneira no audiovisual potiguar. “Eu fico muito orgulhosa em saber que eu tenho um dedinho nisso, é muita alegria para mim”, afirmou. Ao comentar o crescimento das produções locais, destacou a importância do trabalho coletivo: “Porque só no coletivo é que a gente consegue produzir e resistir e mostrar nossa força”.
Atores homenageiam atriz potiguar nas redes sociais
Amigos e parceiros de cena usaram as redes sociais para relembrar momentos ao lado da artista. Cláudia Abreu contou que Titina chegou a se sentir intimidada ao participar de sua primeira novela, ao contracenar com artistas que acompanhava pela televisão, mas ressaltou que a potiguar rapidamente se impôs pelo talento e pela força cênica.
“Eu logo percebi que ela tinha um imenso talento, uma força interna extraordinária e eu falei: ‘Titina, você não é menor que ninguém aqui. Você é grande. Ocupe o seu espaço’. E foi isso que ela fez. Ocupou o espaço dela lindamente”, pontuou Cláudia. O humorista Whindersson Nunes também se manifestou nas redes sociais: “foi um prazer compartilhar do seu amor pela arte e pelo nosso povo!”, escreveu.
Taís Araújo exaltou sua generosidade e amor pela arte. “Uma amiga minha se foi, tanta alegria, tanta arte, tanto amor é o que fica. Eu te amo, Titina e o que fica aqui é o que você é. Você é o melhor da arte, o melhor do mundo. Você é o que eu gostaria que o Brasil fosse: você é só amor! Voa, voa, voa brabuleta! Te amo para sempre”, publicou.
Débora Bloch também se manifestou. “Que sorte eu tive de contracenar com essa atriz extraordinária”, escreveu. Lúcio Mauro Filho destacou o orgulho que Titina representava para o RN e se solidarizou com familiares e amigos. “Meus sentimentos ao marido, familiares, amigos e admiradores desta figura fantástica! Boa viagem Titina”, declarou.
Amiga de longa data, a atriz potiguar Alice Carvalho fez uma homenagem emocionada em um texto publicado no Instagram, no qual relembrou a importância de Titina como incentivadora de sua trajetória artística e como referência para toda uma geração de intérpretes do Estado.

Izabel Cristina de Medeiros, a Titina
Izabel Cristina de Medeiros, criada em Acari, construiu a carreira a partir do teatro potiguar e integrou grupos como Casa de Zoé, onde também atuou como formadora. Ganhou projeção nacional em 2012 ao interpretar Socorro, a “personal colega” de Chayene na novela Cheias de Charme, da TV Globo, e participou de produções como Geração Brasil, A Lei do Amor, Onde Nascem os Fortes, Mar do Sertão e No Rancho Fundo (2024). Ela era formada em Jornalismo pela UFRN.