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Abstenção eleitoral

Taxa de abstenção preocupa e entra no cálculo das campanhas eleitorais

Ausência nas urnas varia conforme escolaridade, renda, gênero e região; especialistas apontam desafios para a Justiça Eleitoral e partidos
Por O Correio de Hoje
22/07/2026 | 17:19

O crescimento da abstenção tornou-se um desafio para a Justiça Eleitoral e passou a integrar as estratégias dos candidatos. Em uma disputa presidencial acirrada, a ausência de determinados grupos pode alterar o resultado, já que o não comparecimento às urnas varia conforme escolaridade, renda, gênero e região do País.

Em âmbito nacional, a abstenção apresenta uma trajetória de crescimento desde 2002, primeira eleição geral realizada integralmente por meio de urnas eletrônicas. Naquele ano, quando Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi eleito presidente pela primeira vez, 17,7% dos eleitores faltaram no primeiro turno e 20,4%, no segundo.

Eleições
Local de votação em Natal: cidade teve 20% de faltas no primeiro turno de 2022 - Foto: José Aldenir

Em 2022, o percentual chegou a 20,9% no primeiro turno. Na segunda votação, porém, houve uma redução para 20,5%, primeira queda entre os dois turnos desde o início da série. O movimento foi associado ao elevado grau de mobilização provocado pela disputa entre Lula e o então presidente Jair Bolsonaro (PL).

A maior taxa municipal de abstenção no segundo turno de 2022 foi registrada em Maraã (AM), onde 45,5% dos eleitores não compareceram. Entre as cidades com mais de 200 mil eleitores, o maior índice foi o de Governador Valadares (MG), com 27,5%.

Naquela eleição, o Rio Grande do Norte registrou a 4ª menor taxa de abstenção eleitoral do Brasil. No Estado, 17,4% dos eleitores não compareceram às urnas no primeiro turno, enquanto 18,2% ficaram ausentes na segunda etapa da votação. Apenas Distrito Federal, Ceará e Paraíba apresentaram percentuais menores. Considerando apenas a capital Natal, a abstenção em 2022 foi de 20,1% no primeiro turno e de 17,5% no segundo turno.

Entre os fatores relacionados à ausência, os especialistas apontam a dificuldade de acesso aos locais de votação, sobretudo na Amazônia e em pequenos municípios, o desinteresse pela disputa, a desatualização do cadastro eleitoral e o baixo impacto das punições previstas para quem não vota.

O voto é obrigatório para pessoas entre 18 e 70 anos, com exceção dos analfabetos. A ausência pode ser justificada pelo aplicativo e-Título. Caso não apresente justificativa dentro do prazo, o eleitor precisa pagar multa de R$ 3,51 por turno. O título pode ser cancelado após três ausências consecutivas. Em 2025, cerca de 5 milhões de brasileiros tiveram o documento cancelado por faltarem aos três últimos pleitos.

Também existe um grupo de brasileiros aptos a votar que não possui título eleitoral. As estimativas apontam que esse contingente corresponde a aproximadamente 5% da população em idade eleitoral. Considerando um universo de 160 milhões de eleitores, seriam cerca de 8 milhões de pessoas fora do cadastro.

Os dados de 2022 mostram ainda que a abstenção foi maior entre os eleitores com menor escolaridade. Em relação ao gênero, as mulheres compareceram mais: 19,96% delas faltaram no primeiro turno, diante de uma taxa de 21,98% entre os homens.

A distribuição desigual das ausências também produz efeitos políticos. Pesquisas indicam que eleitores com menor escolaridade tendem a apresentar maior aproximação com candidaturas de esquerda. Por outro lado, as mulheres, que em 2022 manifestavam preferência majoritária por Lula, tiveram uma taxa de comparecimento superior à dos homens. Por essa razão, a mobilização desses segmentos deverá ocupar espaço nas estratégias eleitorais de 2026.

Ao mesmo tempo, a combinação entre o aumento da abstenção e a redução dos votos brancos e nulos sugere uma mudança no comportamento do eleitor. Parte das pessoas que não deseja escolher nenhum candidato passou a simplesmente não comparecer, sobretudo diante do baixo valor da multa e da facilidade para justificar a ausência.