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Eleitorado

Só 14% dos brasileiros votam com base em ideologia, aponta pesquisa

Levantamento realizado para livro de sociólogo indica que maioria dos brasileiros prioriza propostas e soluções para problemas do cotidiano
Por O Correio de Hoje
09/06/2026 | 15:20

Apesar do ambiente de forte polarização política observado no Brasil nos últimos anos, a identificação ideológica tem peso reduzido na decisão de voto da maioria dos eleitores. É o que aponta uma pesquisa apresentada no livro A Vida Antes do Voto – Reputação, bem-estar e decisão eleitoral no Brasil, do sociólogo Fábio Gomes, presidente do Instituto Informa, segundo a qual apenas 14,5% dos brasileiros afirmam escolher seus candidatos principalmente pelo posicionamento ideológico.

O levantamento mostra que 55,6% dos entrevistados afirmam votar em candidatos que apresentem boas propostas, independentemente de estarem alinhados à esquerda ou à direita do espectro político. O resultado reforça a percepção de que fatores ligados à vida cotidiana tendem a exercer influência maior sobre o comportamento eleitoral do que a identificação partidária ou ideológica.

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Pesquisa diz que 55,6% afirmam votar em candidatos que apresentem boas propostas - Foto: Tânia Rêgo / Agência Brasil

Na obra, Fábio Gomes identifica oito aspectos considerados centrais na avaliação que os brasileiros fazem de governos e candidatos: geração de emprego e estabilidade econômica, educação pública de qualidade, saúde eficiente e humanizada, infraestrutura e serviços básicos, qualidade de vida, planejamento de longo prazo, segurança pública e combate à corrupção. Para o pesquisador, esses elementos ajudam a compreender mudanças recentes no comportamento do eleitorado e a oscilação do apoio político a diferentes governos.

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o sociólogo afirma que o desgaste enfrentado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em regiões e segmentos que historicamente lhe deram sustentação política não deve ser interpretado necessariamente como uma mudança ideológica do eleitorado.

“Isso não necessariamente representa uma mudança ideológica do eleitorado, mas uma transformação de expectativas. À medida que determinadas demandas foram atendidas, outras passaram a ganhar prioridade”, explica.

Na avaliação do pesquisador, essa dinâmica ajuda a entender por que governos que desfrutam de ampla popularidade podem perder apoio entre seus próprios eleitores e por que crises políticas nem sempre produzem os efeitos esperados por situação ou oposição. Segundo ele, a decisão de voto está cada vez mais ligada às experiências concretas vividas pela população do que às narrativas construídas no debate político.

Fábio Gomes também relaciona essa lógica a episódios recentes da política nacional. Para ele, discussões envolvendo o caso do Banco Master e as tarifas anunciadas pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros ilustram uma disputa entre governo e oposição pela responsabilização dos problemas, mas não necessariamente determinam o comportamento do eleitor.

Nesse cenário, o pesquisador avalia que a principal disputa eleitoral tende a ocorrer menos entre campos ideológicos tradicionais e mais entre candidatos capazes de convencer a população de que compreendem e apresentam respostas para os problemas concretos enfrentados no dia a dia dos brasileiros.