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Por O Correio de Hoje

Rússia classifica Memorial como “extremista” e persegue imprensa

Medidas ampliam repressão a organizações civis e à imprensa crítica ao governo
Por O Correio de Hoje
10/04/2026 | 14:54

A Rússia intensificou nesta quinta-feira o cerco a organizações da sociedade civil e à imprensa independente ao proibir a atuação da Memorial, entidade de direitos humanos laureada com o Prêmio Nobel da Paz em 2021, e realizar uma operação na sede do jornal Novaya Gazeta, um dos principais veículos críticos ao governo. A medida ocorre em meio ao aprofundamento da repressão interna iniciado após o envio de tropas russas à Ucrânia, há quatro anos.

Uma decisão judicial classificou a Memorial como organização “extremista”, proibindo qualquer forma de cooperação com o grupo e abrindo espaço para a responsabilização criminal de seus apoiadores. A entidade, fundada no fim da década de 1980, tornou-se referência ao documentar vítimas da repressão política durante o período soviético, especialmente no sistema de campos de trabalho forçado conhecido como Gulag, que resultou na morte de milhões de pessoas.

Rússia Copia
Decisão judicial proíbe atuação de ONG laureada com Nobel da Paz e operação contra Novaya Gazeta na Rússia - Foto: reprodução / internet

Embora tenha sido formalmente dissolvida pela Suprema Corte russa em 2021, a Memorial continuava operando majoritariamente no exterior. A nova decisão amplia as restrições legais e reforça o controle estatal sobre iniciativas ligadas à memória histórica e à defesa de direitos humanos.

No mesmo dia, forças de segurança russas realizaram buscas na redação do Novaya Gazeta, jornal fundado em 1993 e reconhecido por investigações sobre violações de direitos humanos e denúncias contra autoridades. Segundo o próprio veículo, agentes encapuzados entraram na sede por volta do meio-dia e impediram o acesso de advogados.

“Por volta das 12h, agentes encapuzados iniciaram uma busca na redação do Novaya Gazeta. Não sabemos o motivo. Os advogados do jornal não foram autorizados a entrar no escritório, onde alguns funcionários também estavam presentes”, informou o jornal em publicação nas redes sociais.

De acordo com o relato, duas vans do Comitê de Investigação da Rússia permaneceram em frente ao prédio durante a operação, enquanto agentes ocuparam o saguão. Um dos principais jornalistas investigativos do veículo foi detido.

O Novaya Gazeta, que ao longo dos anos consolidou sua reputação como principal jornal independente do país, reduziu sua circulação impressa na Rússia após o início da guerra na Ucrânia, mas manteve sua versão digital ativa, apesar de decisões judiciais contrárias.

O endurecimento das ações contra a imprensa e organizações civis marca uma mudança de escala na repressão interna russa, sem precedentes desde o período soviético. Além de restringir manifestações contrárias à guerra, o Kremlin ampliou o controle sobre instituições que documentam abusos e mantêm registros históricos sensíveis.

Em 2021, o então editor-chefe do Novaya Gazeta, Dmitry Muratov, recebeu o Prêmio Nobel da Paz por seus “esforços para proteger a liberdade de expressão”, reconhecimento compartilhado com a jornalista filipina Maria Ressa. No mesmo ano, a própria Memorial também foi agraciada com a premiação, em conjunto com outras organizações, pelo trabalho de preservação da memória histórica e denúncia de violações de direitos humanos.

As ações desta quinta-feira indicam a continuidade da estratégia do governo russo de restringir espaços de crítica e monitoramento independente, consolidando um ambiente de maior controle político e informacional no país.