O Rio Grande do Norte registrou 19 tremores de terra em diferentes municípios potiguares só no mês de maio, de acordo com dados do Laboratório de Sismologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Os registros reforçam uma característica pouco conhecida da geologia nordestina: a ocorrência frequente de pequenos tremores de terra.
Segundo pesquisadores da UFRN, fenômenos desse tipo são monitorados praticamente todos os dias pela rede de estações instaladas no estado e em outras áreas do Nordeste.

Entre os eventos mais recentes registrados no Rio Grande do Norte estão um tremor de magnitude 1,7 em Currais Novos, no dia 1º de maio; outro de magnitude 1,9 em Jardim de Piranhas, no dia 24; e um terceiro também de magnitude 1,9 em Lajes, no dia 29 do mesmo mês.
Embora considerados de baixa intensidade e geralmente imperceptíveis para a população, esses eventos integram uma atividade sísmica constante observada pelos especialistas.
O trabalho de monitoramento é realizado pelo Laboratório de Sismologia da UFRN, referência nacional no acompanhamento desses fenômenos. De acordo com os pesquisadores, a ocorrência de tremores na região não é novidade.
“A sismicidade natural no Nordeste do Brasil é conhecida e já relatada desde o século XVIII. Então, não é exatamente uma novidade o aparecimento de sismicidade aqui no Nordeste do Brasil”, explica o coordenador do Laboratório Sismológico da UFRN, Aderson Nascimento, em entrevista à TV Tropical.

Segundo ele, a percepção de que os tremores estariam aumentando pode estar relacionada à ampliação da capacidade de monitoramento nos últimos anos.
“Temos essa percepção de que os tremores aumentaram, que existe mais terremotos, mas parte desse efeito é causado pelo fato de a gente estar monitorando de forma mais eficaz, especialmente nos últimos seis, sete anos”, afirma.
O episódio mais marcante da história sísmica potiguar ocorreu em 1986, no município de João Câmara, na região do Mato Grande. Naquele ano, um tremor de magnitude 5 atingiu a cidade e se tornou o maior já registrado no Rio Grande do Norte.
O evento provocou danos em imóveis, deixou milhares de pessoas fora de casa e gerou um cenário de medo entre os moradores.
O clima de insegurança levou muitos habitantes a deixarem o município temporariamente. Postos de combustíveis registraram filas e milhares de pessoas buscaram abrigo em outras cidades. Na época, mais de 10 mil moradores ficaram desabrigados.
Segundo os especialistas, a maior parte dos tremores registrados no Rio Grande do Norte está associada a características naturais da geologia regional.
Embora o Brasil esteja localizado no interior da placa tectônica sul-americana, longe das bordas onde normalmente ocorrem os maiores terremotos do planeta, existem áreas onde as rochas apresentam fragilidades estruturais.
“Mesmo no interior dessa placa tectônica, como é a placa sul-americana, onde o Brasil está inserido, existem pequenas áreas onde as rochas são mais frágeis. Com isso, elas favorecem a sismicidade”, explica o coordenador.
Além dos fatores naturais, pesquisadores também analisam a possibilidade de influência de atividades humanas em alguns casos específicos. No Seridó potiguar, por exemplo, a mineração tem forte presença econômica e é considerada uma hipótese que merece acompanhamento.
Até o momento, porém, não há comprovação de que os eventos mais recentes registrados na região tenham relação direta com a atividade mineradora.
Os pesquisadores ressaltam que não existe tecnologia capaz de impedir a ocorrência de tremores de terra. O acompanhamento contínuo, entretanto, permite identificar áreas mais suscetíveis à atividade sísmica e fornecer informações para o planejamento urbano e a elaboração de políticas públicas.
O mapeamento das regiões de risco também contribui para orientar construções mais seguras e ampliar a preparação da população diante de possíveis eventos de maior magnitude.
“A gente não tem controle sobre como a natureza vai responder, seja de forma natural ou seja de forma como a gente mexeu com ela. A gente tem sempre que se planejar para fazer construções protegidas, zoneamento urbano, educação e comunicação para as pessoas sobre o que está acontecendo”, afirma o pesquisador.
Com dezenas de estações distribuídas pelo Nordeste, o Laboratório de Sismologia da UFRN segue monitorando continuamente a atividade sísmica da região, produzindo dados que ajudam a compreender melhor os fenômenos geológicos que ocorrem sob o solo potiguar.