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Saúde

Revisão científica aponta baixa eficácia de medicamentos contra Alzheimer

Revisão na The Lancet aponta ausência de impacto clínico relevante de medicamentos no avanço do Alzheimer
Por O Correio de Hoje
05/05/2026 | 12:51

Uma revisão científica publicada na revista The Lancet analisou a eficácia de medicamentos utilizados no tratamento da doença de Alzheimer e concluiu que, apesar de avanços em pesquisas, os fármacos disponíveis até o momento não apresentam impacto clínico significativo na progressão da doença.

O estudo reuniu dados de ensaios clínicos conduzidos ao longo de mais de uma década, envolvendo aproximadamente 20.342 pacientes com diagnóstico de Alzheimer. A análise incluiu 17 estudos clínicos de fase 3, com duração mínima de um ano, considerados essenciais para avaliar a efetividade e segurança dos tratamentos.

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Análise questiona eficácia de remédios Foto: FreePik

Entre os medicamentos avaliados estão anticorpos monoclonais desenvolvidos em laboratório com o objetivo de reduzir os níveis da proteína beta-amiloide no cérebro — substância associada ao desenvolvimento da doença. O acúmulo dessa proteína forma placas que prejudicam a comunicação entre neurônios e contribuem para o avanço da demência.

Apesar de conseguirem reduzir a presença dessas placas, os estudos não identificaram melhora proporcional nas funções cognitivas dos pacientes. Em alguns casos, foram observadas pequenas diferenças em testes de memória e raciocínio, mas sem impacto relevante na vida cotidiana.

Os pesquisadores destacam que, embora exista uma associação entre a redução da beta-amiloide e alterações nos resultados clínicos, essa relação não se traduz em benefícios concretos para os pacientes. A maioria dos medicamentos analisados não apresentou efeitos considerados expressivos. “Pequenos ganhos foram observados em alguns testes, mas sem relevância clínica”, aponta a revisão.

Além disso, a análise identificou efeitos adversos associados ao uso desses medicamentos. Entre eles estão inchaço cerebral e sangramentos no cérebro, condições que podem representar riscos adicionais aos pacientes. A avaliação também indicou que os resultados podem ser superestimados em função de diferenças metodológicas entre os estudos.

Em média, os pacientes que receberam os medicamentos apresentaram desempenho cerca de duas vezes melhor que os do grupo controle, mas essa diferença foi considerada insuficiente para alterar significativamente o quadro clínico. A pesquisa destaca ainda que, mesmo quando há melhora estatística, isso não necessariamente significa benefício prático. O conceito de Diferença Mínima Clinicamente Importante (DMCI) foi utilizado para avaliar esse aspecto, indicando que os resultados observados não atingem o patamar necessário para justificar mudanças relevantes no tratamento.

Para Elisa Resende, coordenadora do Departamento Científico de Cognição e Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), há limitações importantes na forma como os estudos foram conduzidos. “Essa escolha metodológica acaba diluindo os resultados. Ela ressalta que boa parte das moléculas incluídas já havia falhado em estudos anteriores, enquanto os medicamentos mais novos mostram benefícios ainda modestos. Quando junta tudo, o efeito fica muito pequeno”, afirma.

Outro ponto levantado pelos pesquisadores é que, em alguns casos, análises estatísticas podem gerar interpretações equivocadas. A chamada “falácia da agregação” ocorre quando resultados distintos são analisados em conjunto, levando a conclusões que não refletem a realidade individual de cada estudo.

Apesar das limitações apontadas, especialistas reforçam que a busca por tratamentos eficazes continua sendo uma prioridade na área da saúde. O Alzheimer é uma doença neurodegenerativa progressiva que afeta milhões de pessoas em todo o mundo e ainda não possui cura.

Os autores da revisão destacam a necessidade de novos estudos com metodologias mais rigorosas e foco em desfechos clínicos relevantes para os pacientes. A expectativa é que pesquisas futuras possam identificar abordagens mais eficazes para o tratamento da doença.

Enquanto isso, o manejo do Alzheimer segue baseado em estratégias que incluem acompanhamento médico, suporte familiar e intervenções que visam melhorar a qualidade de vida dos pacientes, ainda que sem alterar significativamente a progressão da doença.