O Nordeste é a região do Brasil com a maior concentração de sedentários, com 62%, de acordo com a pesquisa Genial/Quaest. Somente 47% relatam que a prática de atividades físicas faz parte da rotina. Para 13%, a frequência é diária, enquanto outros 13% afirmam se exercitar “quase todos os dias”. Já 21% destinam um tempo para os exercícios somente em “alguns dias da semana”, e mais da metade (53%) não realiza qualquer atividade.
Para o profissional de Educação Física, Lucas Amorim, o sedentarismo é provocado por um conjunto de fatores, como rotina intensa, dificuldade de acesso a locais adequados e ausência de orientação. “Muita gente ainda não enxerga a atividade física como parte da saúde, mas sim como algo ‘extra’, que só faz se sobrar tempo, e quase nunca sobra”.

Ainda segundo ele, o Nordeste enfrenta obstáculos mais evidentes em comparação a outras regiões. O educador físico cita como exemplos a segurança e a renda. Segundo ele, a insegurança limita o acesso das pessoas à prática. “Muita gente até quer caminhar, correr ou treinar ao ar livre, mas não se sente protegida, principalmente no início da manhã ou à noite, que são justamente os horários mais viáveis por causa do calor. Isso faz com que a pessoa simplesmente deixe de se exercitar. E a renda também pesa diretamente. Quando o dinheiro é curto, a prioridade passa a ser alimentação, contas básicas e transporte.”
O levantamento mostrou que as mulheres representam a maior parcela da população sedentária (59%). Lucas observa que esse cenário está relacionado à sobrecarga enfrentada no cotidiano, com os cuidados domésticos e com os filhos, além da falta de rede de apoio. “Não é falta de interesse, é falta de tempo e de condição mesmo.”
Outro ponto ressaltado pelo especialista é a insegurança e o assédio. Ele afirma que muitas mulheres evitam praticar exercícios ao ar livre por receio. “Situações de assédio, olhares invasivos, comentários… tudo isso desestimula e, muitas vezes, afasta completamente da prática. No dia a dia, eu percebo que não é só falta de tempo, é também ausência de um ambiente seguro e acolhedor.”
De acordo com o estudo, 15% dos homens realizam exercícios diariamente, a mesma porcentagem se movimenta quase todos os dias e 23% treinam em alguns dias da semana. Apenas 10% conseguem manter a prática todos os dias. O educador físico observa que o público masculino costuma buscar atividades voltadas para desempenho, ganho de força e estética, enquanto o público feminino tende a aderir aos treinos com foco em saúde e qualidade de vida.
“O que mais chama atenção não é nem o objetivo em si, é a constância. As mulheres acabam tendo mais interrupções na rotina por conta das demandas do dia a dia ou até questões hormonais, como cólicas fortes, por exemplo”, explicou.
A gestora de Tecnologia da Informação, Jéssica Barbalho, se exercita sete dias por semana e conta que iniciou na musculação para reduzir medidas do corpo. Ela relata que sempre busca reservar um momento no dia para os treinos, o que considera inegociável. “Como um rito essencial para o equilíbrio entre o vigor físico e a sanidade mental.”
Ela aconselha quem deseja começar a se movimentar a focar no início e evitar autocríticas. “Frequentemente aconselho minhas amigas a persistirem na musculação por vinte dias ininterruptos; estou convicta de que, após esse ciclo, você começa a enxergar os resultados e o hábito se torna indispensável.”
De acordo com Lucas, para mulheres que enfrentam dificuldade em manter uma rotina ativa, o mais importante é a regularidade e a adoção de treinos mais curtos, de 30 a 40 minutos, e mais objetivos. Ele afirma que utiliza com suas alunas exercícios multiarticulares em formato de circuito. Também ressalta que realizar atividades próximas de casa ou no próprio lar pode facilitar a organização.
“Eu sempre falo: melhor fazer pouco do que não fazer nada. Ajustar expectativas é fundamental. Não precisa treinar todos os dias. O importante é criar uma rotina que se encaixe na vida da pessoa. Regularidade vale muito mais do que perfeição”, afirmou.
Outro fator que influencia diretamente quem não consegue se manter ativo são as redes sociais. Muitas pessoas acabam se sentindo desmotivadas por não conseguirem sustentar uma rotina fixa, já que são constantemente expostas a publicações de amigos ou conhecidos praticando exercícios. Para o educador físico, o ambiente digital pode estimular comparações e a busca por padrões inalcançáveis.
“Tem os dois lados nessa era digital. Pode ajudar muito quando traz informação, incentivo e mostra que é possível, mas também pode prejudicar bastante, principalmente quando cria comparação e padrões irreais. Isso acaba desmotivando, principalmente as mulheres”, disse.
A pesquisa Genial/Quaest foi realizada entre os dias 6 e 9 de março, com 2.004 brasileiros de 16 anos ou mais, por meio de entrevistas domiciliares presenciais. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.