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Política

PT aciona TSE contra políticos por impulsionamento de críticas a Lula nas redes

Presidente Lula e prefeito do Rio, Eduardo Paes, durante desfile na Sapucaí - Foto: Ricardo Stuckert / PR
Por O Correio de Hoje
05/03/2026 | 16:58

O PT apresentou quatro representações ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra políticos e influenciadores que impulsionaram, nas redes sociais, publicações críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva após o desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, que homenageou o petista no carnaval deste ano. Para o partido, os anúncios configuram propaganda eleitoral antecipada negativa e fazem parte de uma estratégia de adversários para desgastar o presidente antes do período oficial de campanha.

Nas ações, a sigla pede que a Meta suspenda imediatamente o impulsionamento das publicações e proíba que os responsáveis promovam novos anúncios com teor semelhante. O relator dos pedidos é a ministra Estela Aranha, integrante do TSE indicada por Lula ao tribunal.

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Presidente Lula e prefeito do Rio, Eduardo Paes, durante desfile na Sapucaí - Foto: Ricardo Stuckert / PR

A ofensiva judicial do PT ocorre após um levantamento interno elaborado por integrantes do partido identificar quem pagou para ampliar o alcance de conteúdos críticos ao presidente. O documento, que circula entre membros do primeiro escalão do governo e dirigentes da sigla, reúne informações sobre 54 figuras públicas — entre deputados, senadores, prefeitos, vereadores, influenciadores digitais e páginas de grande alcance.

O material detalha os autores das postagens, o número de seguidores nas redes sociais, os valores investidos no impulsionamento, a duração dos anúncios e estimativas de alcance das publicações. Segundo o levantamento, a maioria dos anúncios teve investimento relativamente baixo, geralmente de até R$ 100, com alguns casos se aproximando de R$ 700.

Entre os nomes citados, estão o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), os deputados federais Filipe Barros (PL-PR) e Paulinho da Força (Solidariedade-SP) e Renato Bolsonaro, irmão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e pré-candidato à Câmara dos Deputados.

O jornal O Globo cruzou dados do documento com informações da biblioteca de anúncios da Meta e confirmou parte dos impulsionamentos. Um dos perfis com maior número de seguidores a investir em anúncios foi o do deputado Filipe Barros, que tem cerca de 1,3 milhão de seguidores no Facebook e mais de 700 mil no Instagram. Ele impulsionou um vídeo em que ironiza promessas de campanha de Lula que, segundo ele, não teriam sido cumpridas. O parlamentar afirmou que o conteúdo não fazia referência direta ao desfile da escola de samba e disse que pagou a publicação com recursos próprios.

Também tiveram grande alcance postagens impulsionadas pelo prefeito Ricardo Nunes e pelo deputado Paulinho da Força. No caso do prefeito paulistano, um vídeo com críticas ao desfile, feitas pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), alcançou cerca de 375 mil impressões. Na legenda, Nunes escreveu: “Aos amigos, tudo. Aos inimigos, a lei. Acorda, Brasil”.

Já Paulinho da Força divulgou um vídeo produzido com inteligência artificial que simula uma marchinha carnavalesca com críticas ao governo federal. O deputado afirmou que a gestão de suas redes é feita por uma agência e disse não saber o valor exato gasto no impulsionamento, mas garantiu que não utilizou recursos públicos.

Renato Bolsonaro também aparece entre os responsáveis por publicações patrocinadas. Em um vídeo divulgado nas redes, ele classificou o desfile como “absurdo” e afirmou ter acionado a Justiça para que o caso fosse analisado. Em nota, disse que financia as publicações com recursos próprios e negou qualquer irregularidade.

Além de políticos, o levantamento identifica influenciadores digitais que impulsionaram conteúdos críticos e perfis de entretenimento que publicaram ataques ao governo sem patrocínio pago.

O episódio que desencadeou a reação do PT foi o desfile da Acadêmicos de Niterói na Marquês de Sapucaí. A apresentação gerou intensa repercussão nas redes sociais, especialmente por causa de um carro alegórico que mostrava famílias dentro de latas, algumas com referências religiosas. O trecho provocou críticas de setores evangélicos e passou a ser explorado por opositores de Lula nas plataformas digitais.

Outro ponto que alimentou críticas foi o fato de as escolas de samba terem recebido recursos federais por meio da Embratur, o que adversários políticos passaram a utilizar como argumento para questionar a homenagem ao presidente.

No Palácio do Planalto, a avaliação é que o impulsionamento de críticas nas redes sociais indica um possível ensaio de campanha antecipada por parte da oposição. Integrantes do governo dizem que o movimento não foi espontâneo e que houve coordenação para ampliar o alcance das críticas ao presidente.

O monitoramento feito pelo PT passou a orientar discussões internas sobre comunicação digital e estratégias para enfrentar ataques nas redes. Dirigentes do partido afirmam que esse tipo de levantamento é feito com frequência e ajuda a orientar campanhas e ações de mobilização política.

Ao mesmo tempo, a sigla tem reforçado o diálogo com empresas de tecnologia. Desde a mudança na direção nacional do PT, no fim do ano passado, dirigentes têm buscado ampliar a interlocução com plataformas digitais para discutir regras de moderação de conteúdo e impulsionamento de anúncios durante o processo eleitoral.

Na semana passada, integrantes da cúpula petista se reuniram com representantes da Meta e levaram à empresa preocupações relacionadas ao uso de anúncios pagos para ampliar ataques ao governo. Um novo encontro entre o partido e a plataforma deve ocorrer nos próximos dias.

O tema também apareceu no debate sobre a atualização das regras eleitorais. O PT apresentou sugestões ao TSE durante a elaboração da nova resolução sobre propaganda na internet. Entre os pontos questionados está o trecho que estabelece que críticas ao desempenho de administrações públicas não caracterizam propaganda eleitoral antecipada negativa. Na avaliação de dirigentes da sigla, essa regra pode permitir que adversários ampliem ataques antes do início oficial da campanha.