Um dia após o Dia Mundial da Alfabetização, celebrado em 8 de setembro, o Rio Grande do Norte ainda enfrenta desafios na educação de jovens e adultos. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua 2024, do IBGE), 12% da população com mais de 15 anos é analfabeta, o que equivale a cerca de 360 mil pessoas. Entre idosos acima de 60 anos, a taxa chega a 27,8%. A frequência universitária também é baixa: apenas 21,9% dos jovens de 18 a 24 anos estão matriculados, abaixo da média nacional de 27,1%. Apesar de liderar o Nordeste com média de 9,6 anos de estudo, o RN ainda enfrenta barreiras estruturais relacionadas a gênero e raça: 13,5% dos homens são analfabetos, e 11,5% das pessoas negras não sabem ler nem escrever.
Aos 73 anos, Iraci Benedita retomou os estudos após uma infância sem acesso à escola. Aluna do Programa de Alfabetização e Letramento de Jovens e Adultos, realizado gratuitamente pela Estácio em parceria com o Instituto YDUQS, ela já sente as mudanças do aprendizado no cotidiano. “Antes, eu dependia dos outros até para ler um letreiro de ônibus. Agora já consigo ler sozinha e até mexer no celular, algo que eu tinha medo de fazer”, contou.

José Wilson, de 45 anos, trabalha com manutenção hidráulica e também encontrou no programa uma oportunidade de aprendizado na vida adulta. “Conheci o projeto pela televisão e me inscrevi. Eu sabia muito pouco e errava para escrever coisas simples. Hoje já finalizei os dois módulos e estou fazendo um reforço a mais”, disse.
Para ele, o estudo trouxe confiança e novos hábitos. “As professoras orientam a gente a procurar sempre um jornal ou revista para criar o hábito de ler. Antes eu não tinha isso e hoje indico para qualquer pessoa que tenha a mesma dificuldade que eu tinha”, revelou.
Segundo a pedagoga Jeanne Maciel, coordenadora do projeto em Natal há seis anos, os resultados vão além do aprendizado formal. “Esses alunos buscam, sobretudo, autonomia. Querem pegar um ônibus sozinhos, preencher uma ficha em um posto de saúde ou tirar a carteira de motorista e vemos que, além de aprender a ler, eles ganham a confiança necessária para vivenciar todas as atividades que um cidadão comum precisa no seu dia a dia”, explicou.
Ela acrescentou que aprender a ler e escrever impacta de forma decisiva a vida dos estudantes, especialmente os de meia-idade ou terceira idade. “O programa vem para facilitar a vida de quem deseja transformar sua história, aprender, buscar novos caminhos ou até outros cursos. É, acima de tudo, uma mudança de vida, como diz o lema da instituição: educar para transformar”, garantiu.
Resultados da EJA
O RN registrou avanços recentes na Educação de Jovens e Adultos (EJA). Em 2025, o número de matrículas no Ensino Fundamental e Médio da EJA aumentou 11% e 20%, respectivamente, em relação a 2024, resultado de programas como o Pé de Meia, que oferece incentivo financeiro de R$ 200 para matrícula e frequência de jovens entre 19 e 24 anos.
No mesmo ano, o Estado sediou o lançamento do “Pacto pela Superação do Analfabetismo e Qualificação na EJA” no Nordeste. O evento reuniu cerca de 200 profissionais e beneficiou mais de 38 mil estudantes da rede estadual.
O AGORA RN publicou, no último dia 22, uma matéria destacando os avanços recentes na Educação de Jovens e Adultos. Para Claudia Romano, presidente do Instituto YDUQS e vice-presidente do Grupo Yduqs, os programas são instrumentos de transformação, oferecendo a oportunidade de reacender os sonhos de muitas pessoas.
“Erradicar o analfabetismo é um compromisso que assumimos no Instituto Yduqs, em parceria com nossas Instituições de Ensino. Estamos falando de vidas que se transformam por meio da educação, desde o momento em que essas pessoas pisam em uma de nossas unidades. Por isso, nosso objetivo é ampliar o alcance do programa e levar oportunidades de aprendizagem para quem mais precisa”, afirmou.
Impacto na vida cotidiana
O programa vai além da leitura e escrita. Os alunos desenvolvem autonomia para atividades do cotidiano, participam de processos sociais e ampliam suas oportunidades profissionais. As histórias de Iraci e Wilson exemplificam como iniciativas estruturadas podem reduzir desigualdades, transformar rotinas e abrir novas perspectivas em regiões com altos índices de analfabetismo e abandono escolar.
Com a abertura de novas turmas em 2026, a expectativa é ampliar ainda mais o alcance do programa, formando cidadãos capazes de exercer plenamente seus direitos e participar da vida social, política e econômica do Estado.