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Debate

Pesquisa de potiguar compara educação inclusiva entre Brasil e Estados Unidos

Estudo da UFRN compara experiências nos países e aponta diferenças nos serviços de apoio e na participação das famílias
Por Belita Lira, O Correio de Hoje
05/08/2026 | 17:32

Uma pesquisa desenvolvida pela assistente social e doutoranda em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Júlia Angélica de Oliveira Ataíde, está ampliando o debate sobre educação inclusiva a partir de uma análise comparativa entre Brasil e Estados Unidos. O estudo, iniciado no Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) e expandido durante um intercâmbio acadêmico em território norte-americano, investiga como as políticas de assistência estudantil e de educação especial podem contribuir para garantir não apenas o acesso, mas também a permanência, a aprendizagem e o êxito de estudantes com deficiência intelectual.

A pesquisa começou a partir da investigação sobre as políticas de assistência estudantil e de educação especial desenvolvidas no IFRN. O objetivo era compreender como essas ações contribuem para garantir não apenas o ingresso de estudantes com deficiência intelectual na educação profissional e tecnológica, mas também a aprendizagem, a participação nas atividades acadêmicas e a conclusão dos cursos.

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Pesquisa de doutoranda da UFRN analisa políticas de assistência estudantil e educação especial para identificar práticas que favorecem o sucesso de estudantes com deficiência - Foto: Cedida

Durante o doutorado na UFRN, o trabalho ganhou uma dimensão internacional. O intercâmbio nos Estados Unidos, inicialmente planejado para o aperfeiçoamento da língua inglesa, abriu novas possibilidades para a pesquisa. Segundo Júlia, o domínio do idioma era necessário para ampliar o acesso à literatura científica internacional e fortalecer sua formação acadêmica.

O período no exterior coincidiu com a aprovação de um trabalho para apresentação na reunião anual da American Association on Intellectual and Developmental Disabilities (AAIDD), uma das principais organizações dedicadas ao estudo da deficiência intelectual e do desenvolvimento. Na ocasião, ela apresentou resultados parciais da tese e passou a aprofundar a análise sobre como a educação inclusiva é organizada nas escolas norte-americanas.

“Inicialmente, vim para os Estados Unidos com o objetivo de realizar um intercâmbio de língua inglesa. Como pesquisadora e doutoranda em Educação, sempre compreendi a importância do domínio do inglês, já que grande parte da produção científica de referência é publicada nesse idioma. Meu principal objetivo era aprimorar minhas habilidades de leitura, escrita e conversação, ampliando meu acesso à literatura científica internacional e fortalecendo minha formação acadêmica”, afirmou.

Além da experiência acadêmica, a pesquisadora passou a observar o sistema educacional norte-americano sob outra perspectiva: a de mãe. Seu filho estuda na rede pública dos Estados Unidos e é acompanhado por meio do Plano Educacional Individualizado (Individualized Education Program – IEP). A vivência permitiu acompanhar reuniões, avaliações e o planejamento pedagógico voltado ao estudante.

“Meu filho é estudante da rede pública norte-americana e é atendido por meio de um Plano Educacional Individualizado (Individualized Education Program – IEP). Ao acompanhar de perto esse processo, passei a observar como funcionam as avaliações, o planejamento educacional, a participação da família e a oferta dos serviços de apoio. Essa vivência despertou em mim o interesse de aprofundar uma análise comparativa entre os sistemas de educação inclusiva do Brasil e dos Estados Unidos, unindo minha experiência como pesquisadora à experiência como mãe”, relatou.

Durante o intercâmbio, Júlia ampliou a pesquisa por meio de visitas a escolas, análise dos principais documentos que regulamentam a educação especial nos Estados Unidos e diálogo com pesquisadores internacionais. O estudo passou a comparar a forma como a legislação e as políticas públicas são implementadas nos dois países.

Entre as diferenças identificadas, uma das mais evidentes está na organização dos serviços de apoio ao estudante com deficiência. “Uma das principais diferenças observadas foi o nível de institucionalização dos serviços de apoio ao estudante com deficiência nos Estados Unidos, onde há maior integração entre adaptações acadêmicas, tecnologias assistivas, equipes multidisciplinares e acompanhamento especializado”, explicou.

Outro aspecto apontado pela pesquisadora é a participação da família no processo educacional. Nos Estados Unidos, segundo ela, os responsáveis integram oficialmente a equipe responsável pela elaboração do Plano Educacional Individualizado. Eles participam das reuniões, ajudam a definir metas e precisam aprovar o documento antes de sua implementação.

“Nos Estados Unidos, a participação dos pais ou responsáveis não é apenas incentivada, mas constitui uma etapa obrigatória do processo educacional. A família integra a equipe responsável pela elaboração do Plano Educacional Individualizado, participa das reuniões, contribui para a definição das metas e precisa aprovar o plano antes de sua implementação. Dessa forma, escola e família compartilham formalmente a responsabilidade pelo desenvolvimento do estudante”, afirmou.

No Brasil, embora a legislação reconheça a importância da participação familiar, a pesquisadora avalia que essa atuação ainda ocorre de forma desigual entre as instituições. “No Brasil, embora a participação da família seja prevista e reconhecida como importante, ela ainda ocorre de forma bastante desigual entre as instituições e, em muitos casos, não possui o mesmo caráter sistemático e decisório observado no modelo norte-americano”, disse.

A comparação também levou Júlia a avaliar a legislação brasileira. dessas políticas.

“Também identifiquei que, apesar de o Brasil possuir uma legislação bastante avançada na garantia dos direitos das pessoas com deficiência, ainda existem desafios relacionados à implementação dessas políticas, à disponibilidade de recursos e à articulação entre os diferentes serviços de apoio. Por outro lado, a experiência norte-americana demonstra que a efetividade da inclusão depende não apenas da legislação, mas também da organização dos serviços, do trabalho colaborativo entre os profissionais e do protagonismo da família em todo o processo educacional”, afirmou.

Para a pesquisadora, a experiência internacional reforçou a necessidade de construir mecanismos que promovam uma atuação integrada entre escola, famílias e poder público.

“Essa experiência ampliou significativamente a minha visão sobre a educação inclusiva e reforçou a importância do fortalecimento de mecanismos que promovam uma atuação cada vez mais integrada entre escola, família e políticas públicas, em benefício dos estudantes com deficiência”, declarou.

A tese encontra-se na fase final de elaboração. Segundo Júlia, todas as etapas de coleta e análise dos dados já foram concluídas, restando apenas a redação final do trabalho. A previsão é que a defesa ocorra ainda este ano.

Após a conclusão, a pesquisadora pretende disponibilizar os resultados à comunidade acadêmica para contribuir com o aperfeiçoamento das políticas públicas voltadas à inclusão escolar, especialmente na educação profissional e tecnológica, ampliando o debate sobre práticas que favoreçam a permanência e o sucesso de estudantes com deficiência intelectual.