Ainda sob o clima do Carnaval, o projeto “Adobe Borogodó” chega ao Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo entre esta terça-feira 3 e domingo 8, reunindo registros visuais feitos durante a festa em diferentes cidades do País. Entre os colaboradores convidados está a artista potiguar Amanda Lopes, que integra o grupo de criadores selecionados para retratar o Carnaval a partir de olhares autorais e próximos da vivência nas ruas.
A mostra é uma iniciativa da Adobe e apresenta fotografias capturadas em meio às celebrações em cidades como Belo Horizonte, Curitiba, Joinville, Natal, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. A proposta é valorizar registros espontâneos e perspectivas diversas sobre a festa, indo além das imagens tradicionais dos desfiles e grandes eventos.

A curadoria convidada é assinada pelo coletivo Batekoo, com acompanhamento do curador do MIS. A parceria busca aproximar diferentes espaços de criação — da rua às plataformas digitais e ao museu — reforçando a importância do olhar humano e da experiência coletiva na construção de narrativas sobre o Carnaval.
Entre os nomes participantes estão artistas e fotógrafos de diferentes regiões do País, reunidos em torno da proposta de documentar não apenas o espetáculo, mas também os processos e bastidores da folia. Além dos colaboradores convidados, o projeto também abre espaço para registros enviados pelo público, ampliando o mosaico de perspectivas sobre a celebração.
Olhar local
Natural de Natal, Amanda Lopes construiu sua trajetória artística valorizando referências locais. A ilustradora publica trabalhos nas redes sociais desde 2012, sempre com o objetivo de retratar o cotidiano e a cultura da capital potiguar. Para ela, a identificação com o território é parte essencial do processo criativo e da construção de pertencimento cultural.
Um dos trabalhos que ganharam repercussão nas redes sociais mostra a artista drag potiguar Potyguara Bardo descansando em uma rede, com o Morro do Careca ao fundo e elementos do cotidiano natalense espalhados pela cena. A obra sintetiza a proposta da artista de traduzir, em ilustrações, a vida e a diversidade cultural do lugar de onde vem.

Inspirada desde a infância por quadrinhos como Turma da Mônica, Amanda migrou do desenho em papel para a ilustração digital, incorporando cores vibrantes e referências da cultura pop contemporânea. Seu perfil nas redes sociais, “Amandrafts”, reúne seguidores que acompanham e compartilham os trabalhos que retratam a cena cultural local.
O alcance das criações da artista já ultrapassou fronteiras digitais. Uma de suas obras chegou a aparecer nos créditos do último episódio da série espanhola As Telefonistas, da Netflix, episódio que contou com participação da cantora Anitta. Agora, com a presença no projeto “Adobe Borogodó”, o olhar potiguar também passa a integrar um panorama nacional sobre o Carnaval brasileiro.
Em entrevista a O Correio de Hoje, Amanda falou sobre o convite para participar da exposição. Confira:
O Correio de Hoje – Como aconteceu o convite para participar do projeto Adobe Borogodó?
Amanda Lopes – Recebi o convite no final da tarde do dia 7. Eu estava terminando um trabalho para poder ir visitar minha irmã quando a mensagem chegou. Fiquei incrédula. A Adobe faz parte do dia a dia de qualquer criativo que trabalha com digital. Então ser convidada para integrar o Adobe Borogodó foi muito simbólico pra mim. O projeto é uma iniciativa da Adobe Brasil que valoriza a identidade cultural brasileira por meio da arte. E isso conversa diretamente com o que venho construindo ao longo dos anos: um trabalho voltado para memória, território e cultura popular. Receber esse reconhecimento de uma empresa tão importante me faz perceber que estou no caminho certo. Saber que uma obra minha estaria exposta no Museu da Imagem e do Som teve um peso enorme. Eu só fui uma vez a São Paulo e nem cheguei a visitar o MIS. Então, imaginar meu trabalho ocupando aquele espaço foi como atravessar distâncias e levar o Carnaval de Natal para um lugar de renome nacional.
O Correio de Hoje – Você é de Natal e costuma valorizar muito referências locais no seu trabalho. O que do Carnaval da cidade você quis destacar nas imagens?
Amanda Lopes – Participei intensamente do Carnaval, de sexta a terça. Vivi os blocos de rua, no meio das pessoas. Entre os mais marcantes pra mim estiveram o Bloco dos Poetas, Carecas, Bruxas e Lobisomens, que saíram juntos com a Burrinha Pintadinha e Jaraguá, e com o Folia de Rua potiguar. Muito bonito de assistir, é um bloco repleto de manifestações do nosso folclore e cultura. E também gostei muito do nosso clássico Os Cão, da Redinha. A proposta do Adobe Borogodó era registrar o Carnaval sob o meu olhar, mostrar o que prende a minha atenção e como isso se transforma em processo criativo e depois em ilustração. Então eu quis destacar justamente o que torna o Carnaval de Natal único: a identidade, os costumes e tradições.
O Correio de Hoje – O que você acha que mais representa essa identidade do Carnaval?
Amanda Lopes – A espontaneidade dos festejos. Antes de começar as captações eu fiz uma grande pesquisa de blocos que sairiam durante o Carnaval. E ali tinham blocos grandes e blocos pequenos, mas uma coisa era comum: as pessoas que querem fazer aquilo acontecer. Natal não é um grande polo turístico de Carnaval, como Recife. Por isso, o que se faz nos blocos de rua por aqui é uma coisa do povo para o povo. Sobre o corpo que brinca, o riso, a alegria. Existe uma força muito bonita na maneira como as pessoas ocupam a cidade. No bloco Os Cão, da Redinha, por exemplo, a alegria coletiva me atravessou profundamente. A lama do mangue, os galhos, os chifres, tudo cria uma estética própria, quase ritualística, mas ao mesmo tempo extremamente popular.
O Correio de Hoje – Como é dividir o projeto com artistas e fotógrafos de diferentes cidades do Brasil
Amanda Lopes – É muito potente. O projeto busca reforçar que a identidade cultural brasileira é múltipla. Cada artista traz o Carnaval de um lugar diferente, suas cores, seus símbolos, suas narrativas. Poder representar Natal dentro desse conjunto é uma honra e também um reconhecimento de uma trajetória construída com pesquisa, afeto e consistência. Meu trabalho dialoga muito com cultura popular e memória urbana, então estar nesse projeto é sentir que essa escolha estética e conceitual faz sentido.
O Correio de Hoje – Você começou publicando ilustrações nas redes sociais com referências bem locais. Como percebe a evolução do seu trabalho?
Amanda Lopes – Queria desenhar o que me formou. Com o tempo, percebi que existe uma necessidade de se reconhecer nas imagens. Muitas paisagens que ilustrei anos atrás já passaram por intervenções, mudaram, desapareceram. Hoje, essas obras funcionam como arquivos visuais da cidade. O público cresceu junto.
Adobe Borogodó
Data: De 3 a 8 de março
Horário: terças a sextas, das 10h às 19h; sábados, das 10h às 20h; domingos e feriados, das 10h às 18h
*Permanência até 1h após o último horário
Ingresso gratuito
Classificação indicativa: Livre
Local: Foyer auditório MIS, em São Paulo

