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Pandemia
O coronavírus mata os visons, portanto, eles também podem receber a vacina
A pandemia é um potente lembrete de que não existe uma barreira clara entre os vírus que afetam os animais e os que atacam os seres humanos
The New York Times
24/02/2021 | 09:27

Pelo menos duas empresas americanas e pesquisadores russos estão trabalhando em vacinas contra o coronavírus para visons. Em alguns países, estes animais adoeceram e morreram em quantidades enormes por causa do vírus, que também passaram de volta para os seres humanos em uma mutação.

A Zoetis, uma grande empresa farmacêutica veterinária de Nova Jersey com um faturamento superior a US$ 6 bilhões em 2019, e a Medgene Labs, uma pequena companhia com cerca de 35 funcionários do Dakota do Sul, começaram a testar vacinas em visons.

Elas já solicitaram a licença ao Departamento da Agricultura dos EUA. Ambas as empresas informaram que as tecnologias usadas em suas vacinas em geral são semelhantes àquela usada pela Novovax para uma vacina humana, que se encontra nos estágios finais dos testes.

Esse sistema faz com que as células de insetos produzam a proteína “spike”, ou de pico, no coronavírus, que então é introduzida em um vírus inócuo, o qual penetra nas células do corpo e treina o seu sistema imunológico a preparar-se para o verdadeiro inimigo. O visons são conhecidos por terem sido infectados pelo SARS-CoV-2, o vírus da pandemia, em meia dúzia de países em todo o mundo.

Todos os membros da família da doninha são suscetíveis à infecção, a desenvolver alguns sintomas, e a passar o vírus, pelo menos para outros da sua espécie. Isto acontece em parte por causa das proteínas que estão na superfície das suas células e por causa da estrutura dos seus sistemas respiratórios. Os cientistas não sabem por que o visão em particular parece adoecer com gravidade; entretanto, as condições de superpopulação nas gaiolas das fazendas podem favorecer uma exposição a quantidades maiores do vírus.

O surto mais grave ocorreu na Dinamarca, que determinou o fechamento das fazendas de criação de visons até pelo menos 2022 por causa das mutações do vírus que apareceram nos visons infectados. No final do ano passado, a Dinamarca ordenou a eliminação de 17 milhões destes pequenos animais. Não foi permitido que a pele da maioria dos visons mortos fosse retirada para o comércio.

Em anos normais, o país vende até 17 milhões de peles, mas a decisão do ano passado acabou também com estes animais de raça para reprodução, a ponto de se temer que o setor não consiga recuperar-se. Nos Estados Unidos, por outro lado, cerca de 275 fazendas de visons, na maior parte de pequenas dimensões, produzem cerca de 3 milhões de peles ao ano, segundo um grupo do setor, a Fur Commission USA.

Milhares de visons americanos foram infectados e morreram, mas os estados resolveram o problema decretando a quarentena em algumas fazendas. O Departamento da Agricultura não interveio, e não foram emitidas ordens para matar as populações de visons, como na Dinamarca. No entanto, as infecções de visons nos Estados Unidos representam uma ameaça para a saúde pública. Pelo menos dois destes animais que escaparam das fazendas testaram positivo. E também um visão selvagem.

Os cientistas temem que se o vírus se espalhar para outros visons selvagens ou para outros animais, possa se estabelecr em populações naturais e formar um reservatório do qual poderá surgir, talvez na forma de uma mutação, para, em outro momento, voltar a infectar os seres humanos. Até o momento, as mutações observadas nos visons da Dinamarca não se revelaram um problema grave. Mas as mutações do vírus em seres humanos infectados produziram pelo menos duas variantes que são mais infecciosas.

Permitir que uma segunda espécie, o visão, sirva como outro terreno de criação para o vírus aumenta as chances de mutação, bem como de escape para outros animais. Consequentemente, uma vacina destinada aos visons poderia ter um valor além do valor que ele tem para o setor.

E embora o Departamento da Agricultura dos EUA não esteja considerando a aplicação de vacinas em gatos e cachorros, esta é uma possibilidade que as empresas estão estudando. A Zoetis produz muitas vacinas para gado, cachorros e gatos. Para os animais de estimação, ela produz vacinas contra doenças respiratórias infecciosas, o vírus da leucemia felina e outras.

A companhia começou a trabalhar em uma vacina animal já em fevereiro do ano passado, no início da pandemia. “Quando vimos o primeiro caso de um cachorro infectado em Hong Kong, imediatamente pusemos em ação os nossos procedimentos para o desenvolvimento de uma vacina contra uma doença infecciosa”, disse Mahesh Kuar, vice-presidente sênior de biologias globais da Zoetis. “Decidimos produzir uma vacina para gatos e cachorros”.

Entretanto, assim que saiu a notícia das infecções nos visons, a companhia entrou em contato com o Departamento da Agricultura dos EUA e recebeu a permissão para testar a vacina nestes animais. No passado, o caminho dos testes até a licença para outras vacinas levava vários meses. Kumas assinalou que as vacinas veterinárias contra o coronavírus são comuns, como as usadas contra a bronquite infecciosa das aves.

A doença foi identificada pela primeira vez nos anos 1930, hoje várias empresas produzem vacinas. A Medgene, uma pequena companhia em seus estágios iniciais, começou a trabalhar em uma tecnologia para vacinas contra o coronavírus para animais em resposta a uma doença devastadora que atacou os suínos na China, em 2013, o vírus da diarreia epidêmica suína. Mark Luecke, o diretor executivo da empresa, disse que quando a notícia da pandemia se espalhou no ano passado, o coronavírus foi identificado e a sua sequência genética pôde ser descrita, uma equipe “começou imediatamente a trabalhar em uma vacina específica para animais”.

Como a empresa não sabia quais as espécies que seriam mais sensíveis, como os desenvolvedores de vacinas humanas costumam fazer, começou a testá-la nas cobaias de laboratório.

Quando foi constatado que os visons eram particularmente sensíveis, a companhia entrou em contato com pessoas deste setor e passou a testar o vírus. Segundo Luecke, deveria ser viável produzi-la nos próximos meses, após a concessão da licença. Fora dos Estados Unidos, outros pesquisadores também trabalham em vacinas para visons. Pesquisadores da Rússia e da Finlândia buscam vacinas animais que possam ser usadas nos visons e em outros animais.

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