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Pandemia
Negação da 2ª onda da Covid-19 faz casos aumentarem no RN, dizem especialistas
Professor da UFRN classifica a reabertura do comércio em meio aos novos registros do coronavírus como um dos fatores para o fortalecimento da crise sanitária
Pedro Trindade
12/01/2021 | 06:59

A ciência avisou, o poder público ignorou e os números de casos e mortes pela Covid-19 aumentaram no Rio Grande do Norte. Assim analisa o professor José Dias do Nascimento, astrofísico do Departamento de Física Teórica e Experimental (DFTE), da Universidade Federal do RN (UFRN) que projetou no mês de dezembro passado o comportamento de segunda onda do coronavírus.

“No dia 14 de dezembro, terminamos de rodar os modelos físicos e matemáticos, conhecidos como modelos compartimentais, que fazem uma projeção para os próximos 15 dias ou um mês do que nos aguarda baseado no conjunto de medidas a partir dos dados de óbitos e casos. Esses modelos mostravam nitidamente que haveria sim uma segunda onda em todos os estados do Nordeste”, comenta, ao relembrar que o caso foi repercutido à época pelo Agora RN.

O pesquisador usa o Modelo Epidemiológico Susceptível, Exposto, Infectado e Recuperado (SEIR, na sigla em inglês) para chegar à sua conclusão. Em artigo, explica ainda que os cálculos e projeções são feitos a partir das séries temporais do número de casos confirmados e número de óbitos. “Infelizmente, está acontecendo exatamente como previsto: há uma segunda onda muito clara no Rio Grande do Norte, nos demais estados do Nordeste e em muitos lugares do Brasil”, garante.

“O que estamos vivenciando agora é exatamente a confirmação dos modelos que foram apresentados lá em dezembro, onde eu falava que em janeiro nós teríamos essa subida (de casos e óbitos) se a vacina não chegasse”, destaca, evidenciando que o cenário deve ser ainda mais crítico quando for finalizado o processo de contagem de casos durante o réveillon. As compras do período natalino também contribuíram para que o novo coronavírus conseguisse se proliferar com maior facilidade entre a população natalense, segundo ele.

Analisando informações divulgadas pela Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap), dezembro conseguiu bater junho e passou a ser o mês com o maior número de casos confirmados de Covid-19 no Rio Grande do Norte. O recorde foi batido no último dia do ano, com o acréscimo de 1.179 testes positivos em 24 horas. Ao todo, foram 22.960 casos registrados em dezembro, contra 22.608 em junho, considerado o mês de pico da pandemia no estado.

O professor lamenta que tal conjuntura tenha se instalado no estado potiguar, uma vez que, segundo ele, os poderes públicos e órgãos responsáveis foram procurados para que estratégias fossem adotadas a fim de diminuir a taxa de transmissibilidade, já que a segunda onda foi observada em outros países antes de acontecer no Brasil.

“Os países tiveram duas ondas. Cada uma das localidades possuem dinâmicas próprias, dinâmicas locais de contágio”, pontua, revelando que a importância de entender como o vírus se comporta em cada região demográfica delimita.

Nesse sentido, José Dias exemplifica que a Covid-19 teve um resultado epidemiológico em Natal diferente de Recife, quando essas capitais são comparadas. As condições de transporte público, por exemplo, alteram todo o contexto. Ele relembra, ainda, que o Rio Grande do Norte e Pernambuco, além do Ceará e da Paraíba, tiveram “momentos” em que lideraram a incidência de casos e óbitos no Nordeste brasileiro.

O professor acredita que um dos principais fatores para que a região vivenciasse o fortalecimento da pandemia foi a abertura “prematura” – assim considerada por ele – das atividades econômicas, especialmente no RN. “Quando nós passamos pelo pico no RN, as atividades econômicas foram reabertas. Ao meu ver, de forma prematura, pois ainda tem muitos indivíduos contaminados contaminando”, justifica.

A declaração da presença de contaminados pode ser confirmada ao analisar os dados epidemiológicos dos meses de julho, agosto, setembro e outubro, os quais registraram entre 5 e 10 óbitos diários, sem baixar. “Houve uma campanha violenta para voltar à normalidade ainda com a presença do vírus. Isso foi uma atitude obviamente perigosa e, como se sabia, através dos modelos, a abertura da economia iria trazer um momento de recontagem”, desabafa.

O conhecimento de como enfrentar o novo coronavírus faz com que a urgência e o tratamento médicos estejam mais preparadas, de acordo com José, já que a população sabe quais protocolos deve seguir para não ser infectado. Porém, o sinal de alerta ainda deve permanecer aceso, pois “isso diminui a letalidade. Mas o vírus tem muitos agravamentos e mata”.

O cenário, contudo, poderia ter sido evitado, conforme afirmação do professor, caso o poder público tivesse se antecipado ao problema ao invés de “negar” a segunda onda. “Nós fizemos o alerta aos comitês científicos que assessoram os municípios e eles simplesmente ignoraram o aviso”, realça, além de apontar o isolamento das redes de contágio, a publicação de decretos minimizando as aglomerações e rigidez nas fiscalizações para ter evitado “esse cenário extremamente preocupante”.

A vacina, então, é apontada como a solução mais assertiva para sair desse cenário, segundo o professor. Ele explica que o imunizante é capaz de “quebrar” as chamas “redes de contágio”. Ou, diante do impasse do governo federal, por meio do Ministério da Saúde, em definir o calendário de vacinação contra a Covid-19, isolar pessoas para que tivesse uma circulação mínima do vírus.

José Dias mostra, através dos modelos, que entre 65% e 80% da população “talvez já tenha tido contato” com o novo coronavírus. Ele, no entanto, reconhece que para ter esse dado com segurança é necessário realizar o teste sorológico em toda a população. Nesse aspecto, o professor critica o processo de testagem da população, bem como a postura dos poderes públicos diante do processo de imunização da população.

“O que nós temos hoje, na verdade, é uma compra ineficiente, uma falta de estratégia para aplicação (da vacina) e o próprio RN ainda tem algumas questões em aberto, como a entrada tardia na compra (dos imunizantes). Afinal, vamos comprar as vacinas, mas toda a estratégia, a engenharia de distribuição e a própria vacinação requer tempo, e a segunda onda não vai esperar por ninguém. Era para, daqui a um mês, ter todas as pessoas vacinas”, opina, evidenciando o imunizante como único caminho possível para erradicação do vírus.

O Governo do Rio Grande do Norte confirmou, em reportagem exclusiva do Agora RN, que há 900 mil seringas em estoque, armazenadas na Unidade Central de Agentes Terapêuticos (Unicat), em Natal. Há, ainda, 2,15 milhões de seringas em fase de aquisição.

Cientista afirma que Brasil precisa de bloqueio total imediatamente

O professor da Universidade Duke, nos Estados Unidos, Miguel Nicolelis foi um dos criadores do Projeto Mandacaru, grupo formado por voluntários das mais diversas áreas que dá orientação sobre o enfrentamento da pandemia aos estados do Nordeste.

No último dia 4, o pesquisador mundialmente famoso por seus estudos sobre a interface entre cérebros e máquinas, escreveu em sua conta oficial no Twitter que o isolamento total com bloqueio que impeça o movimento de pessoas ou cargas é de urgente necessidade em virtude do aumento de casos da Covid-19.

“Acabou. A equação brasileira é a seguinte: ou o país entra num lockdown nacional imediatamente, ou não daremos conta de enterrar os nossos mortos em 2021”, publicou, gerando bastante engajamento com comentários de pessoas favoráveis.

O Rio Grande do Norte é um dos Estado que tem apresentado esse crescimento. Procurada pela reportagem para repercutir o comentário, já que as recomendações por ele apresentada englobam o RN, a Sesap informou que “não vai se pronunciar, pois segue todos os protocolos e orientações em diálogo com o comitê de especialistas”.

Álvaro Dias (PSDB), prefeito de Natal – cidade do Rio Grande do Norte com o maior número de casos e óbitos pelo novo coronavírus – também foi contatado, mas não retornou até a publicação desta reportagem.

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