Selecionar imagens do japonês Shintaro Kago para ilustrar uma reportagem costuma ser uma tarefa complicada. O artista é conhecido por produzir histórias ligadas ao ero-guro, gênero que mistura erotismo, grotesco, horror corporal e violência psicológica em narrativas visualmente perturbadoras.
Mesmo assim, o mangaká se tornou um dos autores japoneses mais disputados do mercado editorial brasileiro. Em poucos anos, diferentes editoras passaram a investir em suas obras, ampliando o espaço para publicações mais experimentais dentro do segmento de mangás no país.

Atualmente, sete editoras brasileiras já publicaram ou anunciaram títulos de Shintaro Kago. A lista segue crescendo e inclui obras como “Dementia 21”, “A Grande Invasão Mongol”, “Parasitic City”, “A Princesa do Castelo Sem Fim”, “Pedacinhos” e “Dia da Cabeça Voadora”. O caso chama atenção porque o autor trabalha justamente em um nicho considerado extremo dentro da produção japonesa contemporânea.
“Ele é um fenômeno editorial porque é fácil licenciar seus mangás”, afirma Bruno Zago, diretor responsável pelos selos quadrinhos japoneses da Pipoca & Nanquim, editora que publicou “A Princesa do Castelo Sem Fim”, em 2024, e lançará “Harem End” em junho.
Segundo Zago, o sucesso do artista no Brasil também está relacionado à forma como o autor é visto pelas editoras japonesas. “Ao contrário de muitos licenciantes japoneses, os responsáveis pelo catálogo de Shintaro Kago são bem mais acessíveis.”
A popularização do artista acompanha uma mudança no perfil do mercado brasileiro de quadrinhos orientais. Antes restrito a leitores mais especializados, o horror grotesco passou a conquistar um público maior nos últimos anos, especialmente entre jovens adultos interessados em produções consideradas mais ousadas ou experimentais. Shintaro Kago se tornou um dos principais representantes dessa expansão.
As obras do autor misturam humor absurdo, horror corporal, violência gráfica, erotismo e surrealismo, frequentemente utilizando deformações extremas do corpo humano e situações desconfortáveis como ferramenta narrativa. Apesar da estranheza visual, o trabalho do mangaká também desperta curiosidade justamente por ultrapassar limites considerados tradicionais dentro do mercado editorial.
Segundo Bruno Zago, o nome de Kago deixou de circular apenas em nichos underground e passou a alcançar leitores mais amplos. “O nicho virou ‘mainstream’”, afirma o editor ao comentar o crescimento do interesse pelo autor no Brasil.
A chegada definitiva de Shintaro Kago ao mercado brasileiro também teve participação importante do editor André Conti, da editora Todavia, responsável pela publicação de “Dementia 21”, primeiro título do artista lançado no país, em 2020. Conti conta que conheceu o trabalho do mangaká durante o Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême, na França, em 2016.
Na ocasião, ele participava de rodadas de negócios quando recebeu uma recomendação do editor e pesquisador Gary Groth, fundador da revista Comics Journal e uma das figuras mais influentes dos quadrinhos independentes. “Acabei me sentando, por acaso, ao lado de Gary Groth”, relembra Conti.
Segundo ele, durante o evento, o editor americano mencionou o nome de Shintaro Kago de maneira entusiasmada. “Ele me olhou apaixonado, que achou incrível, mas novo, mais tudo, é o Shintaro Kago!” A partir daquele encontro, Conti decidiu procurar obras do artista japonês para publicação no Brasil. O editor afirma que teve contato com “Dementia 21” ainda durante a viagem e imediatamente percebeu o potencial da obra.
“Como meu gosto para quadrinhos foi um pouco moldado por ele, peguei o livro emprestado ali naquela mesma noite, no hotel. Achei incrível, engraçado, inusitado… muito diferente, repulsivo e, ao mesmo tempo, um pouco convidativo. Amei. Enfim, foi ‘apenas’ uma recomendação de Gary Groth.”
“Dementia 21” apresenta histórias centradas em uma cuidadora de idosos que enfrenta situações absurdas e perturbadoras em um universo surrealista. O título rapidamente chamou atenção entre leitores brasileiros interessados em mangás fora do circuito tradicional.