O professor, fotógrafo e escritor Mardone França lança nesta quinta-feira 23, no Temis Clube Balcão Bar, em Natal, o livro A Tecla A, obra que reúne crônicas memorialistas inspiradas em episódios da infância, da vida familiar, da carreira acadêmica e dos anos de aposentadoria. O novo trabalho sucede História de Menino, mas, segundo o autor, não se trata de uma continuação.
Mardone explicou que o livro amplia o recorte temporal da obra anterior e passa a abordar acontecimentos da adolescência e da vida adulta.

Natural de Coreaú, no Ceará, o escritor relembra a trajetória que percorreu até se estabelecer no Rio Grande do Norte. Depois de viver em Sobral e Fortaleza, graduou-se na Universidade Federal do Ceará (UFC), trabalhou durante quatro anos em Teresina, ingressou na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) por concurso público e, em 1980, mudou-se para Ribeirão Preto (SP), onde cursou o mestrado.
As mudanças de cidade e os acontecimentos vividos em cada etapa serviram de base para as histórias reunidas no livro. Em vez de uma autobiografia tradicional, Mardone optou por construir uma narrativa formada por episódios independentes, mas conectados entre si. “São retalhos, mas todos eles têm uma conexão.”
Entre as lembranças está um episódio vivido ainda na adolescência, quando precisou correr até a casa de um médico para socorrer a mãe durante o nascimento do 16º filho da família. Na época, segundo ele, não havia meios de transporte disponíveis em Sobral, e a única alternativa foi atravessar a cidade correndo para buscar atendimento.
A família ocupa parte central da obra. O escritor dedica textos à mãe, Joaquina, conhecida como Dona Quinoca, e ao pai, recordando o cotidiano no sertão cearense, a criação dos 16 filhos e as dificuldades financeiras enfrentadas pela família. Ele também relembra que conseguiu lançar o primeiro livro ainda com a mãe viva, poucos meses antes de ela morrer, aos 99 anos.
Outro capítulo é dedicado ao cantor e compositor Belchior, cuja família mantinha amizade com os pais de Mardone. O autor relata que conheceu o artista ainda na infância, em Coreaú, e voltou a encontrá-lo décadas depois, durante um show realizado em Natal, em 2003, nas comemorações do centenário do Teatro Alberto Maranhão.
Na ocasião, perguntou ao cantor se a música “Galos, Noites e Quintais” tinha relação com as lembranças da infância no interior cearense. “Todo o meu trabalho tem uma raiz biográfica”, respondeu Belchior. O livro também reúne recordações da época em que Belchior era seminarista em Sobral e costumava seguir, junto com outros estudantes, para um açude da região durante o verão.
Após encerrar a carreira profissional e deixar a direção do Instituto Certus, em 2020, Mardone passou a dedicar mais tempo à literatura e à fotografia. Segundo ele, a aposentadoria representou a oportunidade de investir em atividades que sempre despertaram seu interesse. Desde então, passou a estudar gramática, fazer cursos de fotografia e viajar pelo interior registrando paisagens e personagens.
O título A Tecla A surgiu de uma lembrança da infância. Ainda menino, tentou usar escondido uma máquina de escrever comprada pelo pai para um dos irmãos estudar para um concurso público. Na primeira tentativa, pressionou a tecla “A”, que se soltou do equipamento. A máquina, segundo ele, permanece guardada até hoje.