Cinco décadas após a morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) concluiu que JK foi assassinado durante o regime militar. O parecer, elaborado pelo relator e pesquisador Henrique Costa, será analisado pela comissão nos próximos meses e representa uma das revisões históricas mais importantes sobre mortes ocorridas no período da ditadura.
Juscelino morreu em 22 de agosto de 1976, aos 73 anos, quando o Opala em que viajava colidiu com um ônibus da Viação Cometa na Via Dutra, na altura do município de Resende. Desde então, a versão oficial sustentava que o acidente teria sido provocado por uma perda de controle do motorista Geraldo Ribeiro, que também morreu na colisão.

A nova investigação, no entanto, aponta elementos que indicariam a existência de uma ação criminosa articulada pelo aparato repressivo do regime militar. O relatório afirma que não há evidências técnicas suficientes para sustentar a tese de acidente simples e aponta contradições em laudos periciais produzidos ao longo das últimas décadas.
Segundo o documento, análises recentes reforçam dúvidas sobre a dinâmica da colisão. Estudos técnicos realizados em diferentes momentos indicaram incompatibilidades entre danos observados nos veículos e a narrativa oficial apresentada na época.
Uma das principais divergências envolve a hipótese de que o Opala teria atravessado o canteiro central antes de atingir o ônibus. Perícias posteriores sugeriram que a sequência dos impactos não corresponderia totalmente à versão original do acidente.
A investigação também revisitou depoimentos, documentos militares, reportagens da época e laudos produzidos em diferentes períodos. A comissão sustenta que o contexto político vivido pelo país em 1976 não pode ser ignorado na análise da morte de JK.
Cassado pela ditadura após o golpe de 1964, Juscelino permanecia como uma das figuras políticas mais influentes do País, mesmo fora do poder. Seu nome era constantemente associado a articulações políticas que defendiam a redemocratização do Brasil e a reorganização das forças de oposição ao regime militar.
Na avaliação da comissão, o ex-presidente era visto com desconfiança por setores da linha dura das Forças Armadas, que monitoravam líderes civis considerados capazes de ameaçar a estabilidade política do regime.
O relatório também menciona o contexto da chamada Operação Condor, aliança repressiva entre ditaduras sul-americanas durante as décadas de 1970 e 1980. Investigações anteriores já haviam levantado suspeitas sobre a possibilidade de lideranças políticas latino-americanas terem sido alvo de operações clandestinas coordenadas entre diferentes governos militares.
Embora a comissão não apresente prova material definitiva de execução planejada, o parecer conclui que o conjunto de evidências reunidas ao longo dos anos aponta para responsabilidade do Estado brasileiro na morte do ex-presidente.
O documento destaca ainda que outras mortes de figuras políticas ocorridas durante a ditadura também passaram por revisões históricas semelhantes nas últimas décadas, à medida que novos documentos foram surgindo e investigações independentes avançaram.
A morte de JK sempre esteve cercada de dúvidas. Desde os anos seguintes ao acidente, familiares, aliados políticos e pesquisadores questionavam inconsistências da investigação original. Entre os principais pontos levantados estavam divergências em perícias, ausência de aprofundamento em determinadas linhas investigativas e suspeitas de interferência política na condução do caso.
Nos anos 1990 e 2000, diferentes estudos técnicos passaram a contestar aspectos da versão oficial. Em algumas análises, especialistas apontaram ausência de elementos que comprovassem determinadas conclusões apresentadas nas primeiras investigações.
O novo parecer da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos reforça esse entendimento ao afirmar que o Estado brasileiro falhou em esclarecer adequadamente as circunstâncias da morte do ex-presidente.