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Economia

Indústria de transformação recua e reacende alerta de desaceleração

Com juros elevados e avanço das importações, setor registra quinta queda em sete anos; no Rio Grande do Norte, dependência da indústria extrativa reforça fragilidade da base manufatureira
Redação
07/03/2026 | 05:11

A retração de 0,2% no Produto Interno Bruto (PIB) da indústria de transformação em 2025 reforça o processo de desindustrialização da economia brasileira, segundo avaliação da Confederação Nacional da Indústria (CNI). O setor registrou sua quinta queda nos últimos sete anos e, caso não haja mudança nas condições macroeconômicas, tende a perder ainda mais espaço na atividade econômica em 2026.

Após crescimento de 3,9% em 2024, a indústria de transformação não conseguiu sustentar o ritmo. No ano passado, o segmento foi pressionado por juros elevados e pela ampliação da presença de produtos estrangeiros no mercado doméstico.

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Processo de desindustrialização está atingindo diversos setores no Estado - Foto: José Aldenir/Agora RN

“A Selic desestimulou o investimento, encareceu o crédito aos consumidores e restringiu a demanda por bens industriais. Essa situação é agravada pela expansão das importações, que cresceram de forma generalizada e em ritmo muito superior ao da demanda”, afirma o superintendente de Economia da CNI, Marcio Guerra.

A política monetária contracionista teve reflexos ao longo de toda a cadeia produtiva. A construção civil, por exemplo, avançou apenas 0,5% em 2025. Como resultado, o PIB industrial total registrou alta de 1,4%, menos da metade da expansão observada em 2024.

O desempenho agregado só não foi mais fraco devido à indústria extrativa, que cresceu 8,6% impulsionada pela produção de petróleo e gás natural.

Esse padrão também se observa em economias regionais como a do Rio Grande do Norte. No Estado, a atividade industrial é fortemente sustentada pela extração de petróleo em terra e pela produção de sal marinho, além de cadeias mais recentes ligadas à energia eólica. A indústria de transformação, por sua vez, tem peso relativamente menor e enfrenta dificuldades estruturais, especialmente em segmentos como alimentos, têxteis e beneficiamento mineral, que sofrem com custos elevados de crédito, logística e concorrência de importados.

A fragilidade do setor manufatureiro regional reflete uma tendência nacional de redução relativa da indústria de transformação no PIB, ao mesmo tempo em que atividades extrativas e de serviços ganham maior participação.

Outro indicador que preocupa é a taxa de investimento. Em 2025, o indicador fechou em 16,8% do PIB, abaixo dos cerca de 20% observados entre 2010 e 2013 e distante do patamar considerado necessário para sustentar um ciclo de crescimento mais robusto.

“O cenário preocupa, mas não é novo: desindustrialização e baixo investimento. As medidas para reverter esse quadro precisam ser tomadas de forma imediata; do contrário, o desempenho do PIB em 2026 será ainda mais modesto”, afirma Guerra.

No debate sobre políticas públicas, a CNI também critica a falta de pragmatismo nas discussões sobre a redução da jornada de trabalho. Para a entidade, a imposição de novos custos às empresas, no atual momento de fragilidade econômica, poderia agravar a situação financeira do setor produtivo.

A indústria, argumenta a confederação, utiliza proporcionalmente mais mão de obra qualificada que a média do setor privado e ocupa posição central nas cadeias produtivas, o que a torna particularmente sensível ao aumento de custos. Além disso, o setor está mais exposto à concorrência internacional, ampliando o impacto de mudanças regulatórias sobre produção e emprego.

Há ainda atividades industriais nas quais a compensação de horas de trabalho é inviável ou envolve custos elevados de reorganização produtiva.

Nesse contexto, a entidade avalia que a discussão sobre redução da jornada deveria ser precedida por medidas voltadas ao aumento da produtividade. A incerteza em torno do tema, segundo a CNI, acaba afetando decisões de investimento que poderiam modernizar a indústria e elevar sua competitividade no longo prazo.