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Economia

Inclusão de camarão em lista de “espécies exóticas” seria um “desastre”, alerta setor

Associação teme que medida abra caminho para futuras restrições ou aumento da burocracia na concessão de licenças ambientais, o que afetaria diretamente a produção e o comércio
Nathallya Macedo
12/11/2025 | 05:07

O camarão Vannamei, principal espécie criada no Rio Grande do Norte, poderá ser incluído em breve na lista de “espécies exóticas invasoras”. Uma espécie recebe essa classificação quando começa a aparecer em lugares em que não é nativa, afetando a biodiversidade local.

A entidade que organiza essa lista é o Conselho Nacional de Biodiversidade (Conabio), vinculado ao Ministério de Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). Uma versão preliminar da lista foi divulgada em outubro, incluindo camarão e tilápia e até frutas como manga, goiaba e jaca. A decisão final será tomada em 8 de dezembro. Entidades do setor produtivo pedem mais debate sobre o assunto e o adiamento da decisão.

Inclusão de camarão em lista de “espécies exóticas” seria um “desastre”, alerta setor
Camarão vannamei é uma das principais espécies criadas no RN; Estado produz 35 mil toneladas do produto por ano - Foto: Rita Comini / Sebrae

Presidente da Associação Norte-Rio-Grandense de Criadores de Camarão (ANCC), Origenes Monte alerta que a medida pode afetar a atividade no Estado. “Não é só no Rio Grande do Norte, é no Brasil todo. Um setor do meio ambiente está querendo colocar a espécie Vannamei, juntamente com a tilápia e outros peixes, numa relação chamada de exótica, invasora e predadora. Ou seja, basicamente proíbe ou dificulta enormemente o cultivo desse tipo de animal”, afirmou, em entrevista ao AGORA RN. No caso da tilápia, ela tem aparecido em rios fora das áreas de produção, o que causa desequilíbrios ambientais.

Segundo o presidente da ANCC, a possível inclusão representaria uma ameaça direta ao setor. Isso porque espécies exóticas devem ser criadas ou cultivadas com maior rigor.

Origenes Monte destacou que a ANCC tem atuado politicamente para impedir a aprovação da medida. Ele considera que, caso a proposta avance, o impacto seria devastador: “Seria um desastre econômico para o Brasil.”

Atualmente, o RN produz cerca de 35 mil toneladas de camarão Vannamei por ano e gera aproximadamente 30 mil empregos diretos no setor. A associação teme que a medida abra caminho para futuras restrições ou aumento da burocracia na concessão de licenças ambientais, o que poderia afetar diretamente a produção e o comércio. “Pode aumentar os custos, porque vai exigir cuidados especiais na criação, e o licenciamento para espécies exóticas poderá ser mais burocrático”, explica Origenes.

José Vieira, presidente da Federação da Agricultura, Pecuária e Pesca do RN (Faern), lamentou o que classificou como “ações contrárias” ao setor produtivo. “Medidas como essa enfraquecem o setor rural, comprometem a geração de emprego e renda e ignoram o papel das espécies que já estão consolidadas na produção nacional. Não é com decisões baseadas em ideologia ou perseguição ao produtor que o País vai crescer e se desenvolver”, frisou.

O secretário estadual de Agricultura, Pecuária e Pesca, Guilherme Saldanha, confia que o camarão ficará fora da lista. Em entrevista ao AGORA RN na tarde desta terça-feira, ele afirmou que trataria do assunto com o ministro da Pesca, André de Paula, que tinha previsão de chegar ao RN durante a noite, para participar da 21ª Feira Nacional do Camarão (Fenacam).

“O próprio governo federal já se pronunciou contrário a essa questão”, declarou, citando posicionamento do Ministério da Pesca, que publicou nota no fim de outubro manifestando preocupação com a medida.

Abipesca repudia proposta: “Equívoco em forma e conteúdo”

A Associação Brasileira das Indústrias de Pescado (Abipesca) manifestou-se contra a proposta do Conabio. Para a entidade, a medida é “tecnicamente imprecisa, economicamente desastrosa e juridicamente temerária”, por ignorar o papel das cadeias produtivas legalmente licenciadas, que seguem padrões sanitários e ambientais rigorosos e são funsdzalimentar e geração de empregos no país.

Segundo a Abipesca, a reclassificação dessas espécies criaria insegurança regulatória e poderia provocar retração de investimentos e crédito, impactando diretamente milhares de trabalhadores e o preço dos alimentos. A associação defende que qualquer mudança dessa natureza precisa ser baseada em dados científicos robustos, diálogo interministerial e participação efetiva do setor produtivo.

A entidade solicita a retirada imediata da tilápia e do camarão vannamei da lista proposta e pede que o Ministério do Meio Ambiente reabra o debate com base em evidências técnicas e coordenação com os ministérios da Pesca e da Agricultura. “A conservação da biodiversidade é um valor inegociável, mas precisa caminhar com ciência, dados atualizados e regulação proporcional”, reforça a nota.

Impactos econômicos

O presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado Pedro Lupion (PP-PR), já criticou a proposta e afirmou que ela demonstra “desconexão com a realidade da agropecuária brasileira”. Ele destacou que a inclusão da tilápia na lista é “um absurdo” e “trabalhar contra o próprio país”, lembrando que o Paraná responde por 70% da produção nacional.

Ele citou ainda outras espécies contempladas na minuta. “A lista inclui também o camarão vannamei, muito cultivado no Ceará e no Rio Grande do Norte, além de espécies agrícolas fundamentais como goiaba, jaca, manga, e até eucalipto e pinus – bases da indústria de papel, madeira e celulose”.

Pedro Lupion alertou que a medida pode inviabilizar toda a cadeia produtiva, já que a Portaria do Ibama nº 145-N/1998 proíbe a reintrodução de espécies aquáticas classificadas como invasoras. A FPA defende a suspensão da votação prevista para 8 de dezembro e a criação de um grupo técnico interministerial para reavaliar o tema.

O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) também manifestou preocupação com a proposta, apontando falta de base científica e de diálogo interinstitucional. O Ministério do Meio Ambiente, por sua vez, informou que a classificação de uma espécie como exótica invasora “não implica em banimento do uso ou cultivo” e que o Ibama continuará responsável por autorizar a criação da tilápia, permitindo seu cultivo legal no País.