Mais de cinco milhões de pessoas estão em condição de extrema pobreza nas regiões metropolitanas brasileiras. É o que aponta a nona edição do Boletim Desigualdade nas Metrópoles, produzido em parceria pelo Observatório das Metrópoles, a PUC do Rio Grande do Sul e a Rede de Observatórios da Dívida Social na América Latina (RedODSAL). Na região metropolitana de Natal, isto não é diferente. No entanto, as estatísticas mostram um crescimento significativo da extrema pobreza no período de 2012 a 2021: 56,75% na capital do RN, afirma o Boletim.
Em 2021, de acordo com a publicação, 135.799 pessoas na Grande Natal eram consideradas extremamente pobres, número bem maior que os 86.633 registrados em 2012. “De fato, o que a gente vê é um aumento muito grande da pobreza e da extrema pobreza, que já vinha ocorrendo há alguns anos, mas houve um salto entre 2019 e 2021, passando por 2020, que é um período interessante porque está no meio da crise e ainda assim tem uma melhora de alguns indicadores, em função daquele Auxílio Emergencial de R$ 600 para mais de 65 milhões de famílias durante a pandemia de Covid-19”, explica um dos coordenadores do estudo e professor da PUCRS, Andre Salata.

No ano passado, após a interrupção do pagamento do auxílio no primeiro trimestre e depois a redução tanto da cobertura, como do valor dele, ocasionou um salto dos indicadores sociais. Principalmente o de pobreza. Isso explica a situação da pobreza em Natal. Em 2012 eram 32,9%; dez anos depois o índice diminuiu para 31%; curiosamente, um ano antes, em 2020, este índice foi o menor registrado desde 2012: 22,6%. “A explicação é o que vinha acontecendo com a renda do trabalho, mas junto com isso teve a decisão do governo de interromper por três meses o pagamento do auxílio, em 2021. Isso foi gravíssimo e fez a pobreza explodir”, ressalta Salata.
RENDIMENTO
De acordo com o boletim, a média de rendimentos dos 40% mais pobres, calculada a partir da renda domiciliar per capita – tudo baseado na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE) – em Natal, o valor era de R$ 325,50 no ano passado, pouca coisa maior que os R$ 318,80 de 2012. Ambos os valores estão abaixo da média nacional em 2021 (R$ 338,60) e também em 2012 (R$ 317,30).
Em 2020, entretanto, o valor chegou aos R$ 420,10, maior inclusive que a média nacional das regiões metropolitanas, cujo valor era de R$ 407,90. Das nove capitais analisadas na região Nordeste, a renda média da capital do RN, no ano passado, foi a segunda maior da região, ficando atrás apenas de Fortaleza (R$ 327,60). João Pessoa (R$ 266,70) , a capital mais próxima do RN, teve uma diferença de R$ 60,90.
COEFICIENTE
Um dos métodos de cálculo da publicação foi o coeficiente de Gini. Quanto maior este índice, maiores as desigualdades de rendimentos. Para o conjunto das regiões metropolitanas brasileiras, este índice chegou a 0,538 em 2014. Em 2019, ele havia subido para 0,562. E em 2021, já no período de pandemia, alcançava 0,565. Em Natal, o Gini variou de 0,525 (2012) para 0,588 (2021), ficando acima da média geral; mas melhor que na vizinha João Pessoa (PB), que saltou de 0,548 para 0,589 no mesmo período. A diferença é menor, mas mostra que a região metropolitana da capital paraibana continua com índice de desigualdade superior à maior cidade do RN.
“Estas são as desigualdades que vemos no dia a dia, em nosso cotidiano. São verdadeiros abismos sociais que podem se revelar num trajeto de menos de 15 minutos em muitas de nossas cidades, e que se tornaram ainda mais graves ao longo dos últimos anos, como mostram os dados”, defende o professor da PUCRS.
EFEITO DA PANDEMIA
Recentemente o Novo Mapa da Pobreza, publicado pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV/CPS) apontou que, das 27 unidades da federação, o RN encerrou o ano de 2021 como o 14º no ranking da proporção de pobres. São 13 estados em situação pior que o RN e outros 13 com conjunturas econômicas melhores.
O estudo feito a partir de microdados da Pnad Contínua, considera a renda per capita de R$ 497 por mês a preços do quarto trimestre de 2021 que corresponde a linha internacional de U$S 5,50 dia ajustada por Paridade de Poder de Compra (PPC) que é a linha mais alta usada na prática no Brasil. Segundo a pesquisa, pelo menos 42,86% dos potiguares poderiam ser considerados pobres em 2021.
“A circulação de dinheiro diminuiu, pessoas perderam emprego, governo federal teve talvez uma demora em relação a algumas atitudes que deveria ter sido mais enérgico, mais rápido. Faltou mais diálogo e união da classe política. A classe perdeu muito tempo com questões políticas, questões menores e acabou tendo consequências. [No RN] Teve um momento em que era guerra de decretos. Governo decretava uma coisa, município decretava outra. E a gente no meio de um problema de saúde mundial”, avaliou o cientista político Bruno Oliveira.
O estudo também analisou a mudança da pobreza de 2019 a 2021, período que compreende o início da pandemia do coronavírus, cujo estado de alerta foi declarado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em março de 2020. Entre os estados impactados, o Rio Grande do Norte ficou na 9ª colocação. Neste período, o crescimento de potiguares com renda per capita de até R$ 497 por mês cresceu 3,77%, sendo o quarto mais afetado da região Nordeste. Pernambuco (8,14%), Bahia (4,9%) e Maranhão (3,89%) tiveram impacto maior por conta da covid-19.