Gaby Amarantos coleciona hits que reverberam a potência do tecnobrega. A exuberância da sua musicalidade desembarca em Natal com um show que reflete sobre uma Amazônia futurista, em que a artista enfatiza toda sua força e representatividade como mulher e cantora brasileira.
A paraense vai dividir o palco com Margareth Menezes, Matuê, Marina Lima e Fernanda Abreu, Karol Conká, Marina Sena, Luedji Luna, Baco Exu do Blues, Liniker, BaianaSystem e outros artistas nacionais e locais na edição de 25 anos do Festival MADA, que acontecerá nos próximos dias 13 e 14 na Arena das Dunas.

Em entrevista ao AGORA RN, a cantora reconheceu a importância da representatividade das regiões Norte e Nordeste na música popular brasileira: “Eu gosto muito de usar uma expressão que é ‘Nortestino’. Representamos uma brasilidade tão potente desse país que é só inteiro se tiver a presença de todas essas regiões. Então essa visão ‘sudeste-cêntrica’ está começando a ser questionada”, ressaltou.
Ela também comemorou a recente indicação ao Grammy Latino com o álbum “TecnoShow”. Para Gaby, a coletânea veio para ajudar a “regularizar” o estilo, que já foi associado à pirataria. “A gente pegava as versões das músicas em inglês e gravava sem autorização. Agora, como artista nacional, era importante ter essas músicas nas minhas plataformas digitais, mas legalizadas”, disse.
Confira a entrevista completa com Gaby Amarantos:
AGORA RN – Gaby, se me recordo bem, você já veio a Natal em 2015 para cantar no Carnaval. Agora, retorna com repertório e vivência maiores. Você está animada para tocar na capital potiguar novamente? O que podemos esperar do novo show?
Gaby Amarantos – Eu estava morrendo de saudade, estou muito feliz, agora com três álbuns lançados, voltar para trazer a cultura do tecnobrega mais forte com um show muito potente, para marcar essa volta. As pessoas podem esperar muito som da Amazônia, muita conexão com a floresta, muito pancadão de som e muita cultura de aparelhagem.
AGORA RN – O Festival MADA tem a característica de unir, no mesmo palco, artistas locais e artistas de destaque nacional, como você. Você vê importância nessa iniciativa? Por quê?
Gaby Amarantos – Eu acho extremamente necessário porque quando eu ainda era uma artista local, que fazia shows somente no Pará, eu ficava muito feliz com qualquer oportunidade de dividir o palco com algum artista nacional ou de abrir shows. Agora eu sou essa artista que traz um som da Amazônia, do Norte, para o Brasil inteiro, e podendo também conhecer novos artistas que estão na estrada. Essa possibilidade que o MADA dá para nós é incrível, a música é sobre essa interação e sobre contemplar a diversidade da música brasileira.
AGORA RN – Você é defensora ferrenha da sua região Norte e da arte produzida por lá. Em algumas oportunidades, já falou sobre o apagamento local e o desestímulo que isso causa. O Nordeste, por vezes, também enfrenta preconceito em relação ao eixo Rio-SP. Na sua visão, como acabar com isso?
Gaby Amarantos – Eu gosto muito de usar uma expressão que é “Nortestino”, que é a união do povo do Norte e do Nordeste. Representamos uma brasilidade tão potente desse país que é só inteiro se tiver a presença de todas essas regiões. Então essa visão “sudeste-cêntrica” está começando a ser questionada, não dá para ver o Brasil só pelo ponto de vista da região que está no centro. De todas as brasilidades, a nortista é a mais negligenciada. O Nordeste me inspira porque o povo nordestino se une e reivindica seu espaço, e a gente enquanto nortista está começando essa primavera. Então fico muito feliz de poder ver a gente se unindo, porque o Brasil só tem a ganhar.
AGORA RN – Você virou paixão nacional com “ex mai love”. O que mudou de lá para cá, musicalmente falando? As sonoridades do Pará ficaram mais fortes? Que outras influências você também incorpora ao seu trabalho?
Gaby Amarantos – Sinto que desde o “Treme”, desde o “boom” desse álbum, que trouxe esses hits, a gente vê o quanto o pop bebe na fonte da Amazônia. E agora esse tecnobrega vem num novo momento, podendo desfilar e mostrar para as pessoas que a gente ainda tem muito o que aprender uns com os outros, e ainda tem muito para valorizar enquanto cultura. Um pop nortista amazônico que está maduro agora para cada vez mais fincar seu lugar na música popular brasileira.
AGORA RN – Aliás, recentemente, vimos que você foi indicada ao Grammy Latino 2023. Por quais motivos é relevante para você aparecer na categoria “Melhor Álbum de Música de Raízes em Língua Portuguesa”?
Gaby Amarantos – É justamente para chancelar toda essa representatividade e luta para que, através desta nomeação, que para mim já é uma grande vitória para os estilos musicais que são periféricos, e que são as grandes pulsações desse coração brasileiro. Para mim essa nomeação vem para fazer o brasileiro ter cada vez mais orgulho. Sinto que a gente está vivendo uma primavera de valorização da nossa cultura e de um Brasil que quer falar português do Brasil.
AGORA RN – O álbum indicado é o “TecnoShow”, lançado no fim do ano passado, que celebra a banda que você foi vocalista por anos, e tem versões para hits de artistas internacionais como Roxette, Bee Gees e Cyndi Lauper. O objetivo foi homenagear a cultura e estética do tecnobrega do Pará?
Gaby Amarantos – Para mim, o objetivo era regularizar esse estilo. Há pesquisas da Fundação Getúlio Vargas que comprovam que foi o tecnobrega o primeiro estilo a trabalhar com o mercado informal, associado à pirataria. Para furar a bolha das gravadoras, das rádios que não tocavam, a gente usou esse elemento da pirataria para aparecer, para fazer com que o mercado nos notasse. Mas esse movimento era ilegal, porque a gente pegava as versões das músicas em inglês e gravava sem autorização. Agora, como artista nacional, era importante ter essas músicas nas minhas plataformas digitais, mas legalizadas. Então isso é a legalização e a validação de um estilo que deixa de ser marginal e vira potência, que sempre foi mas que agora tem esse reconhecimento.