O candidato ao Governo do Rio Grande do Norte Cadu Xavier (PT) afirmou que, se for eleito, pretende construir uma gestão com características próprias, apesar da proximidade política com a governadora Fátima Bezerra (PT). O ex-secretário estadual da Fazenda reconheceu Fátima como sua principal referência política, mas sustentou que sua candidatura não representa uma simples continuidade do governo atual.
Diante dos índices de desaprovação enfrentados pela petista, ele disse que buscará apresentar as entregas realizadas nos últimos anos e, ao mesmo tempo, defender um projeto voltado à ampliação dos investimentos, ao desenvolvimento econômico e à melhoria dos serviços públicos.

“Eu tenho uma trajetória diferente da de Fátima. Eu sou uma pessoa diferente. Apesar de ela ser minha grande líder política, minha inspiração na política, eu tenho uma trajetória diferente da dela”, declarou. Segundo Cadu, essa distinção deverá aparecer nas prioridades e no modo de conduzir o Estado. “O nosso projeto é um projeto de avanço. Não é um projeto simplesmente de continuidade, de a gente continuar fazendo as mesmas coisas”, acrescentou.
Questionado sobre como pretende se apresentar como uma alternativa de avanço diante da rejeição acumulada pela governadora, Cadu afirmou que levará ao debate eleitoral as ações executadas em diferentes regiões. Ele citou obras e serviços nas regiões do Mato Grande, Oeste, Seridó e Agreste, além do programa de recuperação da malha rodoviária. Para o candidato, a avaliação do governo deverá ser confrontada com a situação encontrada por Fátima ao assumir o Estado, especialmente nas áreas financeira, administrativa e de segurança pública.
Auditor fiscal de carreira, Cadu afirmou que seu programa manterá compromissos associados à atual gestão, como a valorização dos servidores, mas terá maior concentração em infraestrutura, capacidade de investimento e desenvolvimento. “O nosso governo vai ter o mesmo compromisso com a probidade, no zelo dos recursos públicos, mas a gente vai caminhar com as nossas ideias”, disse. O candidato acrescentou que possui “uma ideia de desenvolvimento para o Rio Grande do Norte muito firme” e pretende preparar o Estado para gerar emprego, renda e novas oportunidades econômicas.
Entre as prioridades mencionadas, estão a conclusão do programa de recuperação das rodovias estaduais, a duplicação da BR-304 em parceria com o Governo Federal e a melhoria da estrutura portuária. Cadu classificou a deficiência dos portos como “talvez o maior gargalo para o desenvolvimento do Rio Grande do Norte hoje” e defendeu uma atuação mais ampla para aumentar a competitividade do Estado e atrair investimentos.
O turismo também aparece como um dos eixos do projeto. O petista defendeu o aproveitamento da posição geográfica do RN e a retomada de uma presença mais expressiva no mercado europeu, sem abandonar o fluxo de visitantes argentinos. Uma das propostas citadas foi o “Experiência Rio Grande do Norte”, que prevê qualificação em inglês para profissionais de toda a cadeia turística, desde trabalhadores do aeroporto e bugueiros até policiais responsáveis pelo atendimento de visitantes estrangeiros.
“Acho que a gente tem um grande potencial no turismo do Rio Grande do Norte, pela posição geográfica, pelo potencial das nossas praias, de virar um grande polo internacional de turismo”, afirmou. Para isso, segundo ele, será necessário reforçar a segurança e melhorar os acessos rodoviários às praias, serras e demais atrações do Estado. Cadu também defendeu que saúde, educação e segurança sejam tratadas como instrumentos de desenvolvimento e planejadas a partir da perspectiva de quem utiliza os serviços públicos.
Saúde
Na saúde, o candidato propôs aumentar a participação do setor no orçamento estadual. Atualmente, o governo aplica o mínimo constitucional de 12%, percentual que ele considera insuficiente diante da expansão da rede. “Eu tenho compromisso de aumentar o financiamento da saúde. Isso, para mim, é uma coisa que está muito clara. A gente precisa ter no orçamento público uma participação maior dos recursos para a saúde. Os 12% não são suficientes”, declarou.
Cadu defendeu elevar a aplicação para algo entre 15% e 16%, reduzir o impacto da judicialização sobre o orçamento e fortalecer os hospitais regionais. Segundo ele, ampliar apenas as unidades da capital potiguar não resolverá os problemas enquanto pacientes do interior continuarem sendo levados ao Walfredo Gurgel, em Natal, e ao Tarcísio Maia, em Mossoró. O candidato também revelou que considera necessário discutir uma nova unidade de trauma para substituir a atual estrutura do Walfredo.
“A gente talvez esteja num momento aqui no Rio Grande do Norte de pensar um novo Walfredo Gurgel. O Walfredo é uma estrutura que tem lá 60 anos. É uma estrutura que já está bem arcaica”, afirmou. Uma das alternativas apresentadas seria estudar uma permuta envolvendo o terreno ocupado pelo hospital, no bairro do Tirol, área valorizada da capital, para viabilizar a construção de uma nova unidade em outra região com maior capacidade de atendimento.
Avaliação de Fátima
Ao falar das diferenças em relação à governadora, Cadu evitou apontar o que considera o maior erro da gestão. Em vez disso, afirmou que Fátima foi coerente com sua origem no movimento sindical e priorizou a recuperação das condições dos servidores públicos, sobretudo professores, policiais e profissionais da saúde. Segundo ele, essa situação foi equacionada, permitindo que o próximo governo preserve a valorização funcional, mas amplie o foco sobre o desenvolvimento e a prestação dos serviços.
“Fátima foi fiel à trajetória dela. Fátima foi forjada no movimento sindical. Ela vem ao Governo do Estado com o propósito muito claro de tirar os servidores públicos de uma situação de muita dificuldade que viviam antes do governo dela, principalmente aqueles que ganham menos”, declarou. “O nosso compromisso com o servidor é manter o servidor como uma prioridade, mas também olhar para outras áreas de desenvolvimento, outras áreas de prestação de serviço público. Essa talvez seja a grande diferença”, completou.
O candidato também criticou adversários que defendem a adoção de “medidas amargas” sem detalhar quais decisões tomariam. Para Cadu, o debate eleitoral deve esclarecer se essas propostas envolveriam retirada de direitos, redução de investimentos ou mudanças em instituições estaduais.
“Vamos falar para a sociedade que medidas amargas são essas. Ninguém fala, fala na generalidade”, cobrou. Ele acrescentou: “Tem gente pensando em federalizar a Uern, em vender a Uern. É bom dizer e não ficar usando essa expressão genérica para esconder as suas verdadeiras intenções”.
Probidade da atual gestão
Cadu também associou sua tentativa de se diferenciar de Fátima à preservação de princípios que considera positivos no atual governo, especialmente a probidade administrativa e o zelo com o dinheiro público. Ex-secretário da área econômica do governo durante sete anos — primeiro como secretário de Tributação e depois como titular da Fazenda —, ele afirmou que a gestão não registrou escândalos de corrupção no núcleo central e declarou que pretende manter o mesmo padrão de conduta caso seja eleito.
“A gente ficou sete anos e quatro meses no governo. Nunca houve um escândalo de corrupção nesse governo. Nunca, nunca houve”, afirmou. Em outro momento, acrescentou: “Fátima anda do mesmo jeito que ela andava antes de ser governadora. Eu cuidei dos recursos do Estado por sete anos”.
Ao ser questionado sobre a compra frustrada de respiradores pelo Consórcio Nordeste durante a pandemia de Covid-19, Cadu negou que tenha ocorrido corrupção dentro do Governo do RN. Segundo ele, a operação era coletiva, não foi administrada diretamente pelo Estado e ocorreu em um momento de urgência, quando havia pacientes esperando por atendimento. O Rio Grande do Norte, afirmou, limitou-se a transferir os recursos para a aquisição conjunta. O Estado acabou prejudicado em R$ 5 milhões.
“Não houve corrupção naquilo ali. A gente estava vivendo uma guerra mundial. Não foi só o RN, foi o Consórcio Nordeste junto”, declarou. Cadu reconheceu que os equipamentos não foram entregues, mas disse que o governo tentou recuperar os valores, obteve o ressarcimento de parte do dinheiro e bloqueou outros recursos. Também ressaltou que uma Comissão Parlamentar de Inquérito da Assembleia Legislativa analisou as contratações realizadas durante a pandemia.
“A Assembleia Legislativa abriu uma CPI, virou de cima para baixo, não acharam nada”, disse. O candidato afirmou que o episódio o marcou pela urgência da crise sanitária e pelos riscos de empresas tentarem obter vantagens em meio à necessidade de aquisição imediata de equipamentos. Ainda assim, voltou a sustentar que não houve envolvimento do núcleo estadual em práticas ilícitas.
“Processo de corrupção dentro do núcleo central do governo, principalmente durante a pandemia, que era uma verdadeira guerra mundial, a gente não teve. E eu tenho muito orgulho disso”, afirmou.
Cadu disse que pretende levar esse debate para a campanha e confrontar os adversários sobre a gestão dos recursos públicos. Para ele, o próximo governo deverá combinar a manutenção da responsabilidade administrativa com uma agenda de maior investimento e expansão dos serviços.
“É um projeto de pegar o Estado que era antes, o Estado que nós temos hoje, e seguir avançando com um olhar no desenvolvimento do Rio Grande do Norte e na melhoria da prestação de serviços públicos para a população”, resumiu.