Brincadeiras e comentários de cunho sexual dirigidos a crianças podem comprometer o desenvolvimento emocional, reforçar padrões machistas e aumentar a vulnerabilidade ao abuso sexual infantil. A avaliação é da psicóloga infantil Paloma Nunes, especialista em terapias com crianças.
Segundo a psicóloga, comportamentos desse tipo são frequentemente reproduzidos por influência da educação recebida dentro da própria família, mas precisam ser revistos. Para Paloma, associar uma criança a conteúdos de natureza sexual transmite uma mensagem equivocada sobre reconhecimento e aceitação.

“Você está erotizando a criança, ensinando para aquela criança que ela só é validada se tiver cunho sexual.”
Ela explica que a validação por parte das figuras de referência influencia diretamente a construção da identidade infantil e pode repercutir nos relacionamentos futuros.
“A criança vai aprendendo que ela é valorizada se ela fizer aquilo. E a longo prazo, isso vai sim repercutir na dinâmica dessa criança, na forma que ela vai se relacionar com as meninas e com ela mesma.”
A psicóloga afirmou que esse tipo de construção pode gerar conflitos na adolescência e na vida adulta ao vincular o próprio valor a experiências de natureza sexual. Paloma ressaltou que muitas práticas ainda são vistas como comuns porque foram transmitidas entre gerações.
Ela também chamou atenção para a objetificação precoce de meninas, frequentemente estimulada por comentários sobre aparência física.
“Não se comenta nada de cunho sexual para criança em idade nenhuma.”
Segundo a especialista, discutir o tema é importante justamente porque essas condutas permanecem enraizadas na cultura.
Outro ponto abordado foi a expectativa de que meninos demonstrem masculinidade por meio da sexualidade, incluindo casos em que adolescentes são levados por familiares a prostíbulos.
Paloma afirmou que esse tipo de prática prioriza uma ideia de virilidade em detrimento do desenvolvimento afetivo.
“Será que ser homem é ser viril? E essa virilidade, será que é só um ato sexual?”
Ela defende que crianças e adolescentes sejam orientados sobre respeito ao próprio corpo e às relações afetivas.
“O ato sexual é um ato maravilhoso, saudável, lindo. Porém, a gente precisa ter cuidado, porque é algo que só deve acontecer quando adulto.”
Ao orientar pais e responsáveis, Paloma afirmou que é importante esclarecer às crianças que relacionamentos amorosos pertencem a outra etapa do desenvolvimento.
“É importante a gente esclarecer pra criança que criança não namora. Que criança tem afeto, que tem amigos. E que isso vai acontecer no período da adolescência.”
Segundo ela, preservar a infância significa estimular brincadeiras, esportes, convivência social e o desenvolvimento próprio de cada fase.
A psicóloga também afirmou que a erotização precoce pode facilitar situações de abuso sexual infantil. Segundo ela, na maioria dos casos o agressor faz parte do convívio da criança e inicia a aproximação de maneira gradual.
“Os abusos, geralmente, começam assim.”
Para Paloma, quando a criança cresce acreditando que esse tipo de comportamento é aceito pelas pessoas em quem confia, tende a reconhecer com mais dificuldade situações abusivas.
A psicóloga defendeu que o acompanhamento psicológico infantil seja encarado como ferramenta de prevenção e orientação familiar.