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Economia

Ex-executiva da Meta lança ONG para incentivar denúncias contra big techs no Brasil

Ctrl+Z cria plataforma anônima e aposta em articulação com jornalismo e Justiça para enfrentar poder das empresas de tecnologia
Por O Correio de Hoje
27/04/2026 | 15:04

A saída de Daniela da Silva da Meta, em janeiro de 2025, marcou o início de uma nova frente de atuação contra o poder das grandes plataformas digitais. Pouco mais de um ano depois, a ex-chefe de Políticas Públicas do WhatsApp no Brasil lançou a ONG Ctrl+Z, iniciativa que busca criar mecanismos de denúncia e ampliar o escrutínio sobre práticas de big techs no país.

A decisão de deixar a companhia ocorreu após o anúncio público de Mark Zuckerberg sobre o fim de programas de moderação e checagem de conteúdo, em um contexto de reposicionamento político nos Estados Unidos. Daniela optou por tornar pública sua discordância e, segundo relatou, transformar a saída em um “movimento político”, diante do que considera uma mudança estrutural no papel das plataformas digitais.

Daniela da Silva Copia
Daniela Silva mudou quando percebeu que não havia checagem de conteúdo - Foto: reprodução / redes sociais

A Ctrl+Z foi criada em parceria com a jornalista Tatiana Dias e o advogado Luã Cruz, com três eixos principais de atuação: jornalismo investigativo, acesso à Justiça com litigância estratégica e mobilização social. A principal ferramenta inicial será uma plataforma de denúncias anônimas, prevista para entrar em operação na próxima terça-feira (28), voltada especialmente a funcionários e prestadores de serviços ligados ao ecossistema das grandes empresas de tecnologia.

Segundo as fundadoras, o sistema foi desenvolvido com suporte de iniciativas internacionais de vazamento de dados e utiliza mecanismos de anonimização, como acesso via rede TOR, para garantir segurança aos denunciantes. O material recebido passará por curadoria jornalística antes de eventual publicação, com foco em conteúdos de interesse público e problemas sistêmicos das plataformas.

A proposta é estimular no Brasil um ambiente semelhante ao que possibilitou casos como o de Frances Haugen, responsável por revelar documentos internos da empresa nos Estados Unidos. Daniela avalia que, no país, há barreiras culturais e jurídicas para o surgimento de denunciantes, além de contratos de confidencialidade amplos e práticas corporativas que desencorajam a exposição de informações internas.

As fundadoras também apontam a existência de um ecossistema amplo que envolve terceirizadas e cadeias globais de moderação de conteúdo, especialmente em países do Sul global, o que ampliaria o potencial de denúncias relevantes a partir do Brasil. Para elas, o desafio é criar um ambiente que legitime e valorize o papel do denunciante, hoje frequentemente associado a estigmas sociais.

Além da plataforma, a organização pretende atuar na articulação com veículos de imprensa e entidades jurídicas, buscando ampliar o alcance das informações reveladas. Tatiana Dias afirma que a iniciativa pretende funcionar como um elo entre redações, pesquisadores e organizações da sociedade civil, em um cenário de limitações estruturais do jornalismo tradicional.

A criação da Ctrl+Z ocorre em um contexto de crescente debate sobre o poder das big techs e sua influência política e econômica. Segundo Daniela, essas empresas operam hoje com capacidade de influência que ultrapassa fronteiras nacionais, apoiadas por redes de lobby, financiamento indireto a pesquisas e dependência estrutural de governos e instituições.

Para viabilizar as atividades, a ONG recebeu financiamento inicial da organização filantrópica Luminate e planeja diversificar receitas, incluindo doações individuais e novos projetos. A avaliação das fundadoras é que há demanda social por maior transparência e responsabilização das plataformas digitais, em meio a um cenário de mudanças no papel dessas empresas no debate público global.