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Prisão

Bolsonaro completa um mês em prisão domiciliar com rotina restrita em Brasília

Ex-presidente cumpre pena em casa após decisão do STF e Michelle Bolsonaro assume papel central na assistência diária
Por O Correio de Hoje
27/04/2026 | 16:16

Jair Bolsonaro (PL) completa nesta segunda-feira 27 um mês em prisão domiciliar, período marcado por uma rotina mais leve em comparação à vivida na Papudinha, mas ainda cercada por restrições rígidas. Em sua residência, em Brasília, o ex-presidente tem passado os dias entre a televisão e interações pontuais com os cachorros, enquanto recebe cuidados diretos da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), que reduziu significativamente sua atuação política.

Condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado, Bolsonaro iniciou o cumprimento da pena em novembro. Já em março, o ministro Alexandre de Moraes autorizou a conversão para prisão domiciliar por três meses, em razão do estado de saúde do ex-presidente, que havia sido internado com pneumonia associada a crises de soluço.

Bolsonaro foto Ton Molina STF
Ex-presidente Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos e 3 meses por trama golpista - Foto: Ton Molina / STF

Embora aliados considerem a permanência em casa uma condição menos severa, avaliam que as regras impostas pela decisão judicial ampliaram o isolamento do ex-presidente e impactaram diretamente a rotina de Michelle, que passou a priorizar os cuidados com o marido em detrimento das atividades partidárias.

As restrições de acesso permanecem semelhantes às da unidade prisional: apenas médicos e advogados têm entrada livre, enquanto os filhos podem visitá-lo às quartas-feiras e aos sábados, por até duas horas. Diferentemente do que ocorria anteriormente, visitas de amigos e políticos — que antes eram autorizadas mediante agendamento — passaram a ser proibidas no ambiente domiciliar.

Pessoas próximas relatam que o último mês foi marcado por um contraste: ao mesmo tempo em que houve melhora significativa no quadro de saúde, o isolamento social teve efeitos negativos. “Os cuidados melhoraram, e isso é real e importante. Mas o isolamento piorou, e isso também é real. É uma limitação que vai além do razoável e que o afeta profundamente, assim como afeta toda a família. O sentimento de injustiça não é retórica. É o que se vive na prática, semana a semana. E esse peso, infelizmente, não está sendo pequeno”, afirmou o advogado João Henrique de Freitas, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo.

Entre aliados, há também a percepção de que Michelle vive uma situação semelhante à do ex-presidente. Responsável pela maior parte da rotina doméstica, ela se afastou da liderança do PL Mulher, deixou de viajar para articulações políticas nos estados e interrompeu a movimentação em torno de sua própria pré-candidatura ao Senado pelo Distrito Federal.

Antes com presença ativa no partido, Michelle tem feito apenas visitas rápidas e esporádicas à sede nacional da sigla, mantendo apoio às pré-candidatas por meio das redes sociais. No cotidiano, ela administra a medicação do ex-presidente em seis horários distintos, com o auxílio da filha Letícia Firmo.

Na tentativa de aliviar a sobrecarga, a defesa solicitou a Moraes autorização para que Eduardo Torres, irmão de Michelle, pudesse frequentar a residência. Ele já havia colaborado em outros momentos, inclusive durante o período na Papudinha, quando auxiliava na entrega de refeições e no acompanhamento médico. O pedido, no entanto, foi negado.

Ao justificar a decisão, Moraes destacou que as visitas “foram restringidas por motivos de saúde” e afirmou que “as dificuldades de rotina familiar, embora compreensíveis, não constituem fundamento jurídico para ampliar o rol de pessoas autorizadas”.

Em entrevista ao podcast Capital Política, Torres criticou a negativa. “Eu não sou enfermeiro ou cuidador de idosos, sou alguém de dentro de casa que já fazia essa relação com os médicos e cuidava da medicação. Seria importante para a ausência da Michelle quando ela tivesse agendas do partido”, disse.

No campo político, interlocutores apontam que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem atuado como principal porta-voz do ex-presidente. Pré-candidatos do partido, que antes mantinham contato direto com Bolsonaro durante visitas frequentes à Papudinha, agora enfrentam dificuldades de interlocução, o que, segundo relatos, pode gerar impactos eleitorais.

O próprio Flávio tem reduzido o tempo de permanência nas visitas, devido à agenda de viagens pelo país. Registros da Polícia Militar do Distrito Federal indicam que os encontros costumam durar menos de uma hora. Carlos Bolsonaro (PL), por sua vez, tem concentrado suas atividades em Santa Catarina, onde pretende disputar uma vaga no Senado.

Como consta formalmente como advogado, Flávio possui maior flexibilidade de acesso e já esteve com o pai oito vezes até a última quarta-feira 22. Carlos e Jair Renan, que não residem em Brasília, realizaram duas e uma visita, respectivamente.

Até a mesma data, Bolsonaro havia recebido 44 visitas: 19 de médicos, 11 de filhos, 10 de advogados e 4 de fisioterapeutas.

A mudança para a prisão domiciliar também interrompeu agendas políticas previamente organizadas. Diversos pré-candidatos ao governo e ao Senado tinham visitas marcadas para abril, ainda no período em que Bolsonaro estava na Papudinha.

Entre eles, o vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello Araújo (PL), que chegou a adquirir passagens para o encontro. Ele considera a restrição uma interferência no processo eleitoral e aponta prejuízos na articulação política.

“Não existe regime domiciliar em que as pessoas não possam visitar. O que aconteceu comigo deve ter acontecido com vários, o que é ruim para a democracia”, afirmou à Folha.

Sem acesso à internet ou plataformas de streaming, Bolsonaro tem ocupado o tempo assistindo a filmes de guerra, partidas de futebol e programas esportivos. Relatório da Polícia Militar indica que ele não realizou leituras durante o período, embora essa prática pudesse contribuir para a remição de pena.

No ambiente familiar, o ex-presidente também auxilia a filha Laura, de 15 anos, em atividades escolares e dedica atenção aos cachorros, o que, segundo relatos, tem ajudado a melhorar seu humor. Ainda assim, há preocupação com a exposição a animais e ambientes não esterilizados, diante do risco de novas infecções.

A manutenção da casa tem demandado grande parte do tempo de Michelle, que conta com o apoio de dois funcionários — sendo um responsável pela área externa — além de um ajudante para compras. Ela também tem conduzido a alimentação do ex-presidente, escolhendo os ingredientes e preparando as refeições, rotina que costuma compartilhar nas redes sociais.

Do ponto de vista clínico, médicos relatam evolução positiva no quadro de saúde. Bolsonaro tem seguido de forma rigorosa o tratamento medicamentoso e as sessões de fisioterapia. As crises de soluço, que motivaram internações anteriores, tornaram-se menos frequentes, embora tenham surgido queixas mais intensas de dores no ombro direito.

Na última quarta-feira, a defesa solicitou ao STF autorização para a realização de uma cirurgia. Até o momento, não houve manifestação da Corte sobre o pedido.