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Desabafo
“Evito até respirar perto da minha filha”, relata médico que atua em UTIs de Natal
Firmino Barreto, de 35 anos, atua como médico intensivista no atendimento de casos graves de Covid-19 na capital potiguar; profissional fala ao Agora RN os dramas no ambiente de trabalho e o distanciamento familiar imposto pelo novo coronavírus
Ana Lourdes Bal
03/06/2020 | 05:00

“Quando tive o primeiro contato com os pacientes com Covid-19, a sensação era de impotência, pela falta de protocolos bem estabelecidos que norteassem uma conduta terapêutica efetiva”, diz o médico Firmino Barreto, de 35 anos. Ele é natural de Lapão (BA), reside em Natal há 18 anos. Há quatro anos ele se formou, atua em salas vermelhas de Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs).

A intubação dos pacientes Covid-19 exige muitos cuidados, por conta do risco de contaminação. Os profissionais obrigatoriamente que tem estar utilizando todos os equipamentos de proteção individual (EPIs) – gorro, óculos, protetor facial, máscara cirúrgica, máscara Nº 95, capote, propés e luvas. Fora isso, os respiradores também precisam de dispositivos como filtros e circuitos fechados para não colocar a equipe em risco.

O médico diz que, com o avanço da doença, novos estudos foram e vão surgindo, tendo condutas aprimoradas com o tempo. “Isso trouxe ânimo e hoje em dia, está melhor de manejar do que no início, porque estamos obtendo sucesso e conquistando altas em pacientes muito graves e com várias comorbidades. É claro que ainda falta muito, mas estamos trabalhando com o que temos. A medicina se faz com a associação das práticas médicas e dos estudos científicos”, explica.

Firmino conta que nos pacientes mais graves, onde a doença acabou evoluindo de forma mais rápida, as características notadas foram obesidade, hipertensão, diabetes, idade avançada ou comprometimento imunológico. Dessas, a obesidade acaba tendo um destaque, pois os pacientes tem uma resposta inflamatória mais intensa que as outras comorbidades.

Distanciamento familiar

O médico Firmino mora com sua esposa, que também é médica, mas ela estava afastada por uma razão maior: “Tivemos nosso maior presente, nossa filha Maria Helena. Ela vai completar 5 meses no dia 6 de junho”, conta Firmino. Além delas, também moram suas duas cunhadas e a secretária deles. “Não estou isolado da minha família, porque acredito que preciso ter a presença delas pra viver esse momento tão cansativo e estressante. Mas não é fácil sair de casa todos os dias sem saber como você vai voltar, ainda mais quando você tem uma filha de quase cinco meses”, desabafa.

O médico é da cidade de Lapão, no estado da Bahia. A mãe dele mora na cidade de Irecê e, diariamente, pede para que ele largue sua profissão. “Ela até usa uma frase: Meu filho, largue tudo e venha embora, vamos ficar aqui na fazenda nem que seja pra comer pão puro, mas vamos ficar juntos”, conta. “Mas eu não posso. Eu tenho que assumir minha função e sou feliz no que faço. Sinto orgulho de estar fazendo isso. Não podemos nos afugentar, temos que enfrentar. Por que, se não houverem médicos, como seria essa situação?”, indaga.

O médico define o período como “muito complicado”, porque não está conseguindo ser o marido e pai que quer ser. “Não posso beijar minha esposa e evito até respirar perto pra minha filha. Estou sempre de máscara dentro de casa e evito o contato direto. Quando estou saindo do trabalho, tenho que tomar um banho no hospital e outro assim que chegar em casa. Pra mim, o pior é abdicar desses momentos em detrimento de cuidar das pessoas que nem conheço… mas a medicina é isso. Eu me formei pra isso”, desabafa.

“Eu acredito que a pandemia veio para mostrar o quanto somos vulneráveis, está bem visível o que esse vírus foi capaz de fazer”, fala em relação a desestabilização de países de primeiro mundo, colapso universal de sistemas de saúde, economia, cultura e o lazer. “Essa experiência me fez ver o mundo como ele sempre deveria ser. Hoje, conseguimos ver pessoas se ajudando, a fé aflorando, as pessoas convivendo mais com seus familiares e esquecendo as coisas fúteis, que muitas vezes, antes, ocupavam a maior parte do seu tempo”, opina.

Em um tom positivo, Firmino diz vislumbrar dias melhores. “Acima de qualquer ser humano e qualquer doença, tem um Deus. E pra esse Deus, não existe o impossível. Não existe medicina sem fé. E, de certa forma, a pandemia veio mostrar o quanto os profissionais da saúde precisam de valorização, porque enquanto muitos estão resguardados no conforto da sua casa, estamos batalhando contra um inimigo invisível e letal”, encerra o médico.

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