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Carnaval

Entre bilros e memórias, Rendeiras da Vila puxam bloco cultural em Ponta Negra

Bloco protagonizado por rendeiras chega ao terceiro ano com programação gratuita e homenagens a mestres da tradição
Redação
10/02/2026 | 06:00

Enquanto trabalham com os bilros, as Rendeiras da Vila passam o ano trocando histórias e relembrando tradições da Vila de Ponta Negra, território marcado pela pesca artesanal, pela renda de bilro e por práticas culturais como o extrativismo de frutas nativas. Foi nesse ambiente de memória viva que nasceu a ideia de resgatar o bloco A Burrinha Pintadinha e o Jaraguá, protagonizado pelas artesãs e que chega ao terceiro ano consecutivo no próximo domingo de Carnaval 15.

A concentração acontece às 16h, no Ponto de Cultura Tapiocaria da Vó, no Largo da Paróquia de São João Batista, na Vila de Ponta Negra, Zona Sul de Natal. Após a reunião dos brincantes, o cordão sai pelas ruas da comunidade, reunindo grupos folclóricos, blocos carnavalescos e moradores em uma celebração coletiva da cultura popular.

A Burrinha e o Jaragua Rendeiras da Vila Viviane Nobe
Batucada será conduzida pelo mestre percussionista Jorge Negão, fundador e lider do grupo Folia de Rua Potiguar, com paradas para homenagear os mestres e as mestras da cultura popular do RN - Foto: Viviane Nobre

A iniciativa é das Rendeiras da Vila, grupo beneficiário do programa Registro do Patrimônio Vivo (RPV), ação permanente do Governo do Rio Grande do Norte executada pela Fundação José Augusto (FJA). O projeto dialoga com diferentes manifestações tradicionais e mobiliza a população da Vila em torno de uma brincadeira que mistura nostalgia, pertencimento e convivência intergeracional.

A batucada será conduzida pelo mestre percussionista Jorge Negão, fundador do grupo Folia de Rua Potiguar. Durante o percurso, haverá paradas para homenagear mestres e mestras da cultura popular, como Vó Maria (Rendeiras da Vila) e Pedro Correia (Congos de Calçola), além de reverenciar, em memória, Joka Lima (Cafurico/Tapiocaria da Vó) e Sebastião Matias (Bambelô Maçariquinho da Praia). O encerramento da festa acontece no Figa Bar, nas proximidades do Ponto de Memória Tapiocaria da Vó.

No centro da Burrinha está Dona Zefinha (Josefa Henrique de Lima, 79), que puxa o mote tradicional – “Minha burrinha come milho, come palha de arroz…” – e dá o tom do cortejo, reunindo senhoras idosas, filhas, netas, sobrinhas e toda uma comunidade em uma experiência marcada por memória e afeto. Rendeira desde os sete anos, a mestra dos bilros lembra que também é preciso reservar tempo para celebrar. “Tem que tirar uma folguinha no ano para se divertir”, ensina.

A artesã e mestra de dança do Bambelô da comunidade pesqueira, Darlene de Morais, 51, também se prepara para a folia. Rendeira há 16 anos, ela aprendeu o ofício com Vó Maria. “Sou filha, neta e bisneta de rendeiras, mas foi com nossa mestra que aprendi”, conta, reforçando o convite para que a população da cidade participe do cortejo.

Representando outros grupos do desfile, Lucimar Ferreira, 72, líder e fundadora da Lapinha do Menino Deus, destaca o papel da cultura na formação dos jovens. Paraibana de origem, ela vive na Vila de Ponta Negra há mais de quatro décadas e coordena a participação do projeto Protagonistas da Vila. “Essas manifestações que agregam a juventude funcionam como prevenção e incentivo à formação humana”, afirma.

A programação do Carnavila 2026 – A Burrinha e o Jaraguá inclui concurso de fantasia infantil, chuva de confeitos, feirinha de artesanato, comidas típicas, apresentações de cultura popular e show de encerramento.

Entre os blocos e grupos confirmados estão Folia de Rua Potiguar, Encosta Que Ele Cresce, Bode Expiatório, Dragonas da Folia, O Rabo do Jumento, Protagonistas da Folia, Vila Jovem, Turma do Mar, Dança da Peneira, Boi Careca da Casa da Vila, Boi Pintadinho da Vila de Ponta Negra, Capoeira Engenho Velho, Batuque Resistência, Bambelô Maçariquinho da Praia, Pavão Misterioso da Casa do Cordel, Bonecos Gigantes do Cores da Vila, Conguinhos de Calçola, Pastoril Jardim das Flores e AFF Marias.

Coordenado pela produtora cultural Maria Mahé, o bloco conta com recursos do Governo Federal, por meio do Ministério da Cultura e da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), além de apoio do Governo do RN, via Fundação José Augusto e Secretaria de Estado da Cultura.

Criado para preservar saberes e modos de fazer da cultura tradicional potiguar, o Registro do Patrimônio Vivo concede bolsas a mestres e grupos reconhecidos, como as Rendeiras da Vila.

Liderado por Maria de Lourdes de Lima, o coletivo reúne cerca de 90 associadas que se revezam diariamente na “zoada dos bilros”, na calçada da casa de Vó Maria, hoje reconhecida como Ponto de Memória Tapiocaria da Vó e Rendeiras da Vila. De herança portuguesa, a técnica chegou ao RN há mais de quatro séculos e segue viva em Ponta Negra, onde são produzidas peças de vestuário e decoração.l