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Ventos Fortes

Energia eólica enfrenta desafios de transmissão e demanda no RN

Papel da energia eólica na segurança do sistema é limitado por gargalos estruturais, aponta especialista
Fernando Azevêdo
05/09/2025 | 04:57

A energia eólica, principal fonte elétrica gerada no Rio Grande do Norte, atua na segurança elétrica do Brasil por meio do Sistema Interligado Nacional, mas enfrenta desafios estruturais que limitam seu potencial. A principal contribuição da fonte eólica para a estabilidade do sistema elétrico ocorre no segundo semestre, quando a geração das hidrelétricas diminui e acontece a “safra dos ventos” no Nordeste.

Quem explica essa contribuição é Francisco Silva, diretor Técnico Regulatório da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica). Esse cenário, que colocou o RN como segundo maior gerador de energia eólica em 2024, ajuda a garantir o fornecimento de energia ao país. Contudo, dois desafios macro afetam o setor: problemas nas linhas de transmissão e baixa demanda.

Usina Eolica de Vale dos Ventos Energia eólica
Parque eólico localizado próximo à divisa entre o RN e a PB: Nordeste é destaque na produção de energia eólica - Foto: Abeeólica / Reprodução

A rápida expansão das fontes renováveis no Brasil não foi acompanhada pelo planejamento da rede de transmissão, diz o gestor. Essa situação faz com que o operador do sistema – no caso, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) – tome ações para manter a segurança do sistema, resultando nos cortes de geração, conhecidos como “curtailment”.

Silva explica que a baixa demanda ocorre quando o volume de energia gerado é maior do que o sistema consegue absorver. Já o problema com as linhas de transmissão está ligado a restrições físicas na infraestrutura. Ela cita o exemplo de João Câmara (RN): mesmo que haja demanda local, “aquela linha de transmissão não está mais comportando” o escoamento. Assim, o ONS pede o desligamento ou a redução de potência das usinas locais.

O setor eólico estima que esses cortes significaram um prejuízo de R$ 2,3 bilhões em 2024. Até o mês de agosto de 2025, os geradores de energia eólica já perderam cerca de R$ 3 bilhões. “Esse ano é um ano de desperdícios para o Brasil. Talvez seja o ano em que o Brasil mais vai desperdiçar a energia renovável em toda a sua história”, frisa Silva.

Crise do crescimento e melhorias

A adesão da MMGD, a micro e mini geração distribuída, também foi um desafio para o setor. Francisco Silva diz que essa fonte de geração tem muitos subsídios implícitos: “Não temos absolutamente nada contra, porque a tecnologia solar e micro eólica é também sustentável. No entanto, a forma de inserção dessa fonte acabou sendo de um jeito extremamente subsidiado”. “Como houve a inserção muito grande das MMGD com subsídios enormes, também houve um baixo crescimento da fonte eólica”, avalia.

A situação exige melhorias para garantir a segurança no fornecimento de energia elétrica. O ressarcimento aos geradores por cortes decorrentes de problemas de transmissão e por falta de demanda é um dos pontos de atenção. Em 2024, apenas 2% do prejuízo total foi ressarcido. Para mitigar essa situação, o diretor técnico da ABEEólica sugere medidas de curto, médio e longo prazo.

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Francisco Silva, diretor Técnico Regulatório da Associação Brasileira de Energia Eólica – Foto: Abeeólica / Reprodução

“O operador só teria direito para receber naqueles cortes que ocorrem em menor quantidade, o corte elétrico quando você tem, por exemplo, um problema físico numa linha de transmissão. Por conta de um efeito climático, por exemplo, quando tem uma chuva muito forte e uma linha de transmissão cai. Nesses casos muito específicos, o operador tem direito a receber ressarcimento”, explica o diretor.

No curto prazo, Silva sugere a revisão da regra de ressarcimento e a inclusão da micro e minigeração distribuída no rateio dos cortes. “Por questão de segurança do sistema, se você precisa fazer o corte em parques maiores centralizados, esses parques também precisariam ser cortados”.

A longo prazo, a solução seria a instalação de baterias para armazenar a energia excedente. “A bateria é a única forma que temos de pegar essa energia sobrando, colocar no lugar e poder usar na hora que precisarmos dela”, conclui Silva, citando a previsão de um leilão para a tecnologia no próximo ano.

Além disso, há um trabalho técnico contínuo com o Operador Nacional do Sistema (ONS) para melhorar a distribuição dos cortes, evitando que se concentrem excessivamente em uma única empresa ou região, buscando um balanceamento mais eficaz.

Silva define que segurança elétrica consiste em evitar ações ou incidentes como o apagão de 15 de agosto de 2023, último evento de abrangência nacional de queda de energia. O apagão começou com o desligamento de uma linha de transmissão no Ceará e se espalhou por mais 24 estados e o Distrito Federal.

Números

De acordo com o boletim “Balanço do Setor Elétrico do RN 2024”, divulgado pela Sedec-RN (Secretaria do Desenvolvimento Econômico, da Ciência, da Tecnologia e da Inovação), as usinas eólicas representam 77,9% dos empreendimentos de geração em operação no estado. A fonte solar responde por 12,6%, mas lidera em projetos já comercializados e com construção não iniciada, com 77,6% do total.

Segundo dados da Associação Brasileira de Energia Eólica, em 2024, a geração eólica no Brasil foi de 107,58 TWh, um aumento de 12% em relação a 2023, e respondeu por 16,7% da energia injetada no Sistema Interligado Nacional. Já no período de melhores ventos, que ocorre no segundo semestre, a geração eólica do SIN aumentou e teve seu ápice em agosto, com 22,6% de participação.

A Associação Brasileira de Energia Eólica ainda afirma que, em 2024, considerando todas as fontes de geração de energia elétrica, foram instalados 3,3 GW de potência. A eólica foi a segunda fonte que mais cresceu, representando 10,8% da nova capacidade instalada no ano. A nova capacidade eólica instalada em 2024 fez a fonte eólica atingir uma participação de 16,1% da matriz elétrica brasileira.