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Série

Netflix revisita a conquista do tricampeonato na série “Brasil 70 – A Saga do Tri”

Série da Netflix mistura ficção e fatos históricos para recontar a campanha que levou o Brasil ao terceiro título mundial e à posse definitiva da Taça Jules Rimet
Por O Correio de Hoje
29/05/2026 | 13:06

A poucos dias da estreia da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2026, a Netflix aposta em uma produção que resgata um dos momentos mais marcantes da história do futebol nacional. Lançada nesta sexta-feira, a minissérie “Brasil 70 – A Saga do Tri” revisita a trajetória da equipe que conquistou o tricampeonato mundial no México, em 1970, quatro anos após uma das maiores decepções da seleção em Copas do Mundo.

Com cinco episódios, a produção acompanha o caminho percorrido pelo Brasil desde a eliminação ainda na fase de grupos do Mundial de 1966, na Inglaterra, até a campanha vitoriosa que garantiu a posse definitiva da Taça Jules Rimet. Mais do que uma narrativa esportiva, a série explora o contexto político e social do período, marcado pela consolidação da ditadura militar e pela tentativa do governo de associar o sucesso da seleção à imagem do país.

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Produção mistura ficção e fatos históricos para retratar personagens como Pelé e Zagallo - Foto: divulgação / netflix

Dirigida por Paulo Morelli, Pedro Morelli e Quico Meirelles, a obra não se apresenta como documentário. Os realizadores fazem questão de definir o projeto como uma ficção inspirada em acontecimentos reais. A série traz atores interpretando figuras históricas como Pelé, Carlos Alberto Torres, Tostão, Zagallo e João Saldanha, recriando momentos decisivos da trajetória da seleção brasileira.

Ao abordar a construção dramática da narrativa, Paulo Morelli reconhece que parte dos diálogos foi criada para a adaptação audiovisual. “A gente não sabe qual era o diálogo original, né?”, afirmou um dos fundadores da O2 Filmes. “A gente recriou diálogos, imaginou cenas, mas sempre respeitando a realidade, para chegar o mais perto possível do real.”

Pedro Morelli reforça que a produção foi construída a partir de ampla pesquisa histórica, baseada em reportagens, livros e registros da época. Segundo ele, a ficcionalização foi utilizada para ampliar a força dramática da narrativa sem se afastar dos fatos conhecidos. “Você precisa ficcionalizar, você precisa criar, mas dentro de bases pesquisadas”, ele acrescenta.

O resultado é uma série que dialoga tanto com os espectadores que acompanharam ou conhecem a história da conquista do tricampeonato quanto com as novas gerações. A trama vai além dos gramados e mostra como o futebol se entrelaçou com a conjuntura política do fim dos anos 1960 e início dos anos 1970.

A narrativa destaca a forma como o governo do presidente Emílio Garrastazu Médici buscou utilizar a imagem da seleção brasileira como símbolo do chamado “Brasil que dá certo”, em um período marcado por repressão política, censura e violência de Estado durante os chamados anos de chumbo. O pano de fundo político aparece de forma constante ao longo dos episódios.

Entre os personagens centrais está João Saldanha, interpretado por Rodrigo Santoro. Jornalista, comentarista esportivo e militante comunista, Saldanha assumiu o comando da seleção em meio a uma crise de resultados e liderou uma campanha impecável nas Eliminatórias para a Copa de 1970. Na série, ele surge como uma figura combativa e crítica ao regime militar.

Em uma das passagens da produção, o treinador ironiza o contexto político da época ao afirmar ser “melhor 100 mil no estádio do que 100 mil nas ruas”. A frase sintetiza o clima de tensão vivido naquele período e a tentativa de transformar o futebol em instrumento de mobilização popular.

A presença de um comunista no comando da seleção durante a ditadura é apresentada como uma das contradições mais marcantes da história do futebol brasileiro. Existem diferentes interpretações para sua nomeação, incluindo a hipótese de que sua presença ajudaria a reduzir críticas da imprensa e da opinião pública contra uma equipe que ainda buscava reconstruir sua imagem após o fracasso de 1966.

A estratégia, no entanto, não surtiu o efeito esperado. As críticas continuaram e Saldanha acabou demitido apenas três meses antes do início da Copa do Mundo. Em seu lugar, assumiu Zagallo, responsável por conduzir a equipe ao título mundial no México.

Para Marcelo Adnet, que interpreta o narrador fictício Eusébio Teixeira, Rodrigo Santoro conseguiu reproduzir de forma convincente a personalidade de João Saldanha. “Não era o Rodrigo Santoro. O Rodrigo incorporou o João Saldanha, virou o João Saldanha, um dos meus ídolos. E eu estive ao lado dele de verdade. Narrei a Copa de 70 de verdade”, afirmou o humorista e ator.

Na trama, Eusébio Teixeira atua como narrador das partidas disputadas pela seleção durante a Copa de 1970, enquanto Saldanha participa das transmissões como comentarista. Adnet relatou que um dos maiores desafios do trabalho foi reproduzir a emoção de uma narração sem ter as imagens dos jogos acontecendo diante dele.

“Eu tinha que narrar sem ter um jogo na minha frente. Então, eu decorava a jogada na minha cabeça e olhava para onde eu tinha que olhar, com aquela jogada passando na minha cabeça”, conta o intérprete.

As sequências esportivas aparecem entre os pontos mais elogiados da produção. Gravada no Brasil e no México, a série utiliza recursos tecnológicos para aproximar o espectador do campo de jogo. Com câmeras posicionadas próximas aos atletas, efeitos de câmera lenta e desenho de som detalhado, a proposta é oferecer uma perspectiva inédita das partidas.

“A gente colocou a câmera dentro do campo, ao lado do jogador, correndo com ele e sentindo a respiração dele, sentindo o diálogo do jogador dentro do campo”, diz Paulo Morelli.

Momentos históricos ganham nova dimensão na série, como os famosos lances de Pelé contra Tchecoslováquia, Inglaterra e Uruguai, além da construção da jogada que terminou com o gol de Carlos Alberto Torres na final diante da Itália, considerada uma das mais emblemáticas da história das Copas do Mundo.

Apesar de revisitar um feito consolidado na memória nacional, a produção também busca estabelecer conexões com o presente. Os integrantes do elenco e da equipe criativa afirmam esperar que a atual geração de jogadores encontre inspiração na trajetória da equipe de 1970.

Bruno Mazzeo, que interpreta Zagallo, acredita que a produção resgata aspectos fundamentais da relação do brasileiro com o futebol. “A série traz uma coisa da essência do futebol, da alma do futebol e do prazer de jogar futebol. É o que aqueles caras tinham”, diz o ator.

Pedro Morelli também vê a obra como uma oportunidade para ampliar o sentimento de pertencimento em torno da seleção brasileira. Segundo ele, a Copa do Mundo pode funcionar como um momento de reencontro entre o torcedor e símbolos historicamente ligados ao futebol nacional.

“A camisa amarela, de oito anos para cá, vem sendo usada por um grupo e perdeu o seu significado. Essa Copa é o momento, provavelmente, que o Brasil inteiro, todas as pessoas, independentemente de posição política, vão se reapropriar da camiseta, ter orgulho de vestir essa camiseta. Acho que a série está fazendo parte dessa história”, ele diz.

Ao revisitar uma das campanhas mais importantes da história do esporte brasileiro, “Brasil 70 – A Saga do Tri” procura combinar memória, emoção e reflexão histórica. O resultado é uma narrativa que recupera não apenas a conquista do tricampeonato mundial, mas também os conflitos políticos, as disputas de bastidores e os personagens que ajudaram a transformar a seleção de 1970 em um dos maiores símbolos do futebol mundial.

Onde assistir: Netflix.