O orçamento familiar é o primeiro passo para quem deseja sair das dívidas, retomar o controle do dinheiro e construir uma vida financeira mais segura. A avaliação é do consultor e educador financeiro Romero Souza, autor do livro “O Meu Poderoso Orçamento, do Caos ao Poder”, lançado com a proposta de traduzir em linguagem simples os princípios básicos da organização financeira.
Em entrevista ao programa Entrevista Coletiva, da Band RN, Romero afirmou que o endividamento dos brasileiros chegou a níveis preocupantes e não será resolvido apenas com programas de renegociação. Segundo ele, iniciativas como o Desenrola podem aliviar parte do problema, reduzindo dívidas e dando fôlego temporário às famílias, mas não atacam a origem da crise financeira.

“O problema do brasileiro na questão das dívidas não é a dívida em si, é a questão do comportamento, da mudança de atitude”, afirmou. Para Romero, cada pessoa carrega uma história financeira construída pela família, pela criação, pela cultura, pelo trabalho e pelas escolhas do dia a dia. Essa bagagem influencia diretamente a forma como o dinheiro é usado.
O consultor defende que a educação financeira deveria fazer parte da escola desde o ensino fundamental. Na avaliação dele, crianças a partir de 7 ou 8 anos já deveriam aprender a diferença entre custo e valor, para não crescerem reféns de uma lógica de consumo baseada apenas em marcas, desejos imediatos e compras por impulso.
Romero afirmou que a sociedade brasileira está “doente” pelo consumo. Segundo ele, muitas crianças são estimuladas desde cedo a comprar e a desejar produtos, mas não aprendem a planejar, poupar ou compreender o valor real das coisas. Em 2025, ele desenvolveu um projeto em uma escola particular de Natal justamente para trabalhar esses conceitos com estudantes.
Na entrevista, o educador financeiro apontou o desequilíbrio entre renda e gasto como o erro mais comum das famílias. Ele disse atender pessoas com renda alta, de R$ 30 mil, R$ 50 mil ou R$ 60 mil, que ainda assim gastam mais do que ganham. “Recebe um salário mínimo, recebe R$ 2 mil, R$ 3 mil, mas gasta R$ 4 mil, não vai resolver”, comparou.
É por isso que o orçamento, segundo ele, deve ser tratado como base de qualquer estratégia financeira. No livro, Romero propõe uma organização em quatro colunas: receitas, despesas, dívidas e investimentos. Para ele, não basta saber quanto entra e quanto sai. É preciso enxergar também o peso das dívidas e reservar espaço para investir.
O investimento, na avaliação do consultor, deve ser encarado como um “boleto obrigatório”. Ele compara a aplicação mensal a compromissos que as famílias não deixam de pagar, como plano de saúde. A diferença é que esse “boleto” ajuda a garantir tranquilidade no futuro.
Mesmo quem ganha pouco, segundo Romero, pode começar. Ele afirmou que hoje há alternativas de investimento a partir de R$ 1. O valor, isoladamente, não muda a vida de ninguém, mas cria hábito. Para ele, o importante é começar com o que for possível, seja R$ 1, R$ 5, R$ 10, R$ 20 ou R$ 30.
Para quem já está endividado, o caminho é mais difícil, mas também começa pelo orçamento. Romero explicou que um controle bem feito mostra para onde o dinheiro está indo, quais despesas precisam ser cortadas, que dívidas devem ser priorizadas e quais ajustes são necessários para evitar que o mês termine antes do salário.
Outro alerta feito pelo consultor foi para o avanço das bets e jogos de aposta. Segundo ele, em 25 anos de atuação na área financeira, nunca viu um quadro tão grave. Romero disse que famílias, trabalhadores e até empresas estão preocupados com o impacto das apostas no orçamento doméstico. Há casos, afirmou, de pessoas chegando à beira do colapso, com ansiedade, depressão e até relatos extremos envolvendo pensamentos suicidas.
Para ele, o dinheiro que deveria ir para a família tem sido desviado para apostas, muitas vezes sob a ilusão de ganho rápido. “Com certeza vai perder, porque o jogo é feito para isso. Quem ganha é a banca, e não quem está jogando”, alertou.
O livro de Romero tem 136 páginas e, segundo ele, pode ser lido em cerca de 40 minutos. A obra é voltada principalmente para quem nunca teve contato com educação financeira, nunca fez orçamento e não costuma controlar entrada e saída de dinheiro. Uma segunda edição, mais técnica, já está em desenvolvimento.
Romero defende que orçamento não é algo feito uma única vez. O controle precisa ser atualizado todos os meses, principalmente por quem está endividado. Além do planejamento mensal, ele recomenda que as famílias pensem em horizontes maiores: seis meses, cinco anos, dez anos e o futuro de longo prazo.
A mensagem central do educador financeiro é direta: não há saída sólida contra as dívidas sem mudança de comportamento. Renegociar pode ajudar, mas organizar o orçamento é o que permite sair do caos, recuperar o controle, construir reserva, investir e transformar a relação com o dinheiro.