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Política

É legítima preocupação de empresários com o fim da escala 6×1, diz Mineiro

Parlamentar defendeu que isso não pode impedir o avanço do debate
Por O Correio de Hoje
17/04/2026 | 17:27

O deputado federal Fernando Mineiro (PT-RN) afirmou que é “legítima” a preocupação de pequenos e médios empresários com os impactos do possível fim da escala 6×1. Por outro lado, o parlamentar defendeu que isso não pode impedir o avanço do debate sobre a redução da jornada de trabalho no Brasil. Segundo ele, a discussão precisa ser enfrentada com equilíbrio, dados concretos e medidas compensatórias.

“Há preocupação legítima de pequenos e médios empresários em relação a como é o impacto disso. Então, quais são os estudos concretos para o impacto na folha? Vamos fazer esse debate”, declarou, em entrevista à rádio Cidade de Natal. Ao mesmo tempo, o parlamentar reforçou que o tema não pode ser travado: “Isso não pode ser impeditivo para discutir a questão da jornada. São coisas diferentes.”

Mineiro foto Bruno Spada Câmara
Deputado do PT afirma que debate sobre redução da jornada deve avançar - Foto: Bruno Spada / Câmara

Mineiro destacou que o Brasil enfrenta um cenário de endividamento que atinge tanto trabalhadores quanto empregadores, especialmente os de menor porte. “Então, quais são as medidas necessárias para equilibrar isso?”, questionou.

A proposta de fim da escala 6×1 — seis dias de trabalho para um de descanso — não é recente. Segundo o deputado, há projetos tramitando há mais de 20 anos no Congresso Nacional, além de uma reivindicação histórica das centrais sindicais desde a Constituição de 1988, que já apontava para a redução da jornada semanal. “Foi empurrada com a barriga por muito tempo”, afirmou.

Mineiro registrou que a jornada 6×1 atinge principalmente trabalhadores do comércio e do setor de serviços, com impacto mais intenso sobre as mulheres. “É uma jornada muito exaustiva. Trabalham seis por um, chegam em casa e têm jornada tripla”, disse. Ele citou ainda que entre 13% e 15% da força de trabalho brasileira já operam em regime 5×2, enquanto setores como indústria, construção e parte do serviço já adotaram modelos menos rígidos.

Outro dado destacado pelo parlamentar diz respeito ao tempo gasto no deslocamento urbano. Segundo ele, trabalhadores chegam a perder entre três e quatro horas por dia apenas no trajeto casa-trabalho. “Qual o tempo que sobra? Qual o tempo que a juventude tem para estudar, se atualizar? O Brasil pede mais tempo para viver”, afirmou.

Apesar das resistências, Mineiro argumenta que a redução da jornada não representa necessariamente prejuízo econômico. Ele citou experiências internacionais em países como França, Inglaterra e setores dos Estados Unidos, onde modelos de trabalho mais equilibrados convivem com altos níveis de produtividade. “Tem estudos que mostram o contrário: a redução da jornada pode estimular produtividade”, disse.

O deputado também fez um paralelo histórico para rebater críticas. Segundo ele, argumentos contrários à mudança se repetem ao longo do tempo. “No fim da escravidão, diziam que ia quebrar a economia. No salário mínimo, nas férias, no décimo terceiro, diziam a mesma coisa. Esse discurso é centenário”, afirmou, atribuindo a resistência a setores mais conservadores da economia.

No Congresso, o tema ganhou novo impulso com o envio, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), de um projeto de lei com regime de urgência. Mineiro defendeu a medida como necessária diante da demora na tramitação. “O projeto tem mais de 20 anos e estava sendo protelado. Quem está sendo atropelado é o direito do trabalhador”, declarou. Pela regra, propostas em regime de urgência precisam ser analisadas em até 45 dias.

Ele também negou que a iniciativa tenha caráter eleitoral. “O presidente respeitou o ritmo da Câmara. Mas, ao perceber a demora, encaminhou. Não houve atropelo”, disse.

Mesmo reconhecendo a necessidade de diálogo com o setor produtivo, Mineiro insistiu que o debate sobre a jornada deve avançar. “Precisamos ouvir pequenos e médios empresários, discutir compensações, mas isso não pode travar a discussão central”, afirmou.

Para o parlamentar, a mudança na escala de trabalho está ligada a uma questão mais ampla de qualidade de vida e organização social. “O Brasil precisa de mais tempo para viver, não apenas trabalhar”, concluiu.