Em uma rua tranquila e sem saída na comuna de Caluire-et-Cuire, na região metropolitana de Lyon, Endrick passou os últimos meses distante dos holofotes que costumam acompanhar uma das maiores promessas do futebol mundial. Enquanto tentava recuperar espaço na Seleção Brasileira e garantir presença na Copa do Mundo, o atacante do Real Madrid escolheu viver em uma residência discreta, marcada mais pela funcionalidade do que pelo luxo frequentemente associado aos grandes astros do esporte.
A casa, composta por sala integrada, cozinha, quartos no segundo andar e uma academia no subsolo, está longe do padrão extravagante adotado por muitos atletas de elite. Não há piscina, cinema particular, quadra esportiva, área de festas ou outros espaços de entretenimento.

Segundo Thiago Freitas, responsável pela gestão da carreira do jogador, a escolha reflete a personalidade do atacante.
“A maior parte dos atletas de futebol opta por mansões voltadas para o luxo e até extravagâncias. Endrick procurou um lugar para dormir bem e ter seus cachorros por perto, até porque a rotina dele é quase monótona. Só precisava de conforto, privacidade e silêncio, nada mais”, afirmou.
A vida reservada em território francês fez parte de um plano maior. Em meio à disputa por uma vaga na lista final de Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo, o jogador adotou uma rotina que pessoas próximas descrevem como quase militar.
Mesmo vivendo em uma das regiões gastronômicas mais prestigiadas da França, berço de chefs estrelados e da tradição culinária de Paul Bocuse, Endrick praticamente ignorou os atrativos locais. As exceções foram alguns crepes e raras visitas a restaurantes brasileiros ao lado da esposa, Gabriely Miranda, com quem é casado desde setembro de 2024.
“Ele tem disposição ao sacrifício. É um jovem que poderia ter acesso a prazeres diversos, mas o valor que atribui ao prazer no domingo, o dia dos jogos, é superior às regalias que poderia ter de segunda a sábado. Então, ele não desfruta, não conhece muito as cidades em que vive. Tem uma rotina que por vezes parece até militar”, relatou Freitas.
O esforço teve resultado. Após cinco meses vivendo na França e focado exclusivamente na recuperação física e técnica, Endrick voltou a ser convocado para a Seleção Brasileira e integra o grupo de 26 jogadores que disputará a Copa do Mundo.
O atacante vê a trajetória recente como consequência natural de uma filosofia inspirada em Cristiano Ronaldo, sua principal referência esportiva.
“Vai custar, sempre vai custar. É a lei do futebol. Se você está no meio de uma temporada, não pode fazer coisas que vão prejudicá-lo. Querer trabalhar muito, desde cedo, é uma coisa em comum com Cristiano Ronaldo, mas não o admiro só pelo trabalho. Ele tem muito talento e uma história de superação quando era jovem”, afirmou.
As semelhanças com o craque português, segundo o próprio jogador, vão além da dedicação profissional. Assim como Cristiano Ronaldo deixou uma infância marcada por dificuldades financeiras na Ilha da Madeira antes de alcançar projeção internacional, Endrick também saiu cedo de Valparaíso de Goiás para buscar oportunidades em São Paulo ao lado da família.
Apesar da rotina austera, o atacante mantém interesse pelo universo da moda. Nos últimos anos, participou de campanhas publicitárias, posou para revistas especializadas e passou a atrair atenção de marcas de luxo. No guarda-roupa, reúne peças de grifes como Louis Vuitton, Gucci, Prada, Boss, Balenciaga e Off-White, além de uma coleção de relógios Rolex.
Em apresentações recentes à Seleção, chamou atenção pelos figurinos de alto valor utilizados na chegada à concentração.
Ainda assim, pessoas próximas garantem que a moda ocupa espaço secundário em sua vida. Segundo Thiago Freitas, o atleta tem demonstrado interesse crescente em reduzir compromissos comerciais para priorizar exclusivamente a carreira esportiva.
“Agora, ele me pediu para reduzir o contato com patrocinadores, para que organizássemos os seus compromissos e cuidássemos da logística da família. Não quer se envolver com nada, prefere se concentrar exclusivamente no trabalho”, explicou.
A postura reforça a imagem de um personagem incomum no futebol contemporâneo. Sem tatuagens, brincos, vida noturna ou consumo de bebidas alcoólicas, Endrick ganhou entre companheiros e treinadores o apelido de “jovem velho”. Também é chamado de Bobby, referência ao ídolo inglês Bobby Charlton, uma das inspirações que menciona com frequência.
O próprio atacante rejeita a ideia de que sua rotina seja extraordinária. Para ele, trata-se apenas de cumprir as exigências da profissão da melhor forma possível.
“Não sou um fora da caixa ou fora da curva. É somente fazer o meu trabalho bem feito, aquilo que precisa ser feito. Agora, nas férias, é o momento para fazer o que quiser”, afirmou.
Com apenas 19 anos e entre os mais jovens do elenco brasileiro, Endrick demonstra discurso de veterano ao projetar a participação no Mundial. Sem apontar favoritos ou assumir o papel de principal estrela da equipe, aposta no esforço coletivo como caminho para encerrar o jejum brasileiro na competição.
“Vou voltar como lateral, desarmar como volante, e ir para disputas de bola como se fosse um zagueiro lá na frente”, prometeu.
Após meses de isolamento voluntário, disciplina rigorosa e foco absoluto no futebol, Endrick chega à Copa do Mundo convencido de que os sacrifícios realizados longe dos holofotes podem se transformar em vantagem dentro de campo. A partir de agora, o desafio é converter essa preparação em protagonismo com a camisa da Seleção Brasileira.