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Irã

Cripto amplia risco e tensão em Ormuz

Uso de moedas digitais no Irã impulsiona fraudes, dribla sanções e reforça controle sobre rota estratégica do petróleo
Por O Correio de Hoje
24/04/2026 | 15:03

Um alerta recente da empresa de risco marítimo Marisks acendeu sinal de atenção no transporte global ao apontar a atuação de golpistas que exigem pagamentos em criptomoedas para liberar embarcações no Estreito de Ormuz. A prática, embora ainda sem confirmação de vítimas, se apoia em um ambiente já marcado pelo uso crescente de ativos digitais pelo Irã para contornar sanções e financiar operações fora do sistema financeiro tradicional.

A tentativa de fraude ocorre em um dos principais corredores energéticos do mundo, por onde passa cerca de um quinto do petróleo global. A estratégia dos criminosos se baseia em mecanismos já adotados por autoridades iranianas, que ampliaram o uso de criptomoedas em transações paralelas, incluindo cobranças de pedágio para travessia na região.

Irã centro
so crescente de ativos digitais no Irã levanta alertas sobre segurança marítima e impacto em uma das principais rotas do petróleo mundial Foto: Reprodução

Dados da empresa de análise Chainalysis indicam que o ecossistema cripto iraniano alcançou US$ 7,78 bilhões ao final do último ano, com crescimento contínuo. Parte relevante dessa estrutura é centralizada e vinculada à Guarda Revolucionária, que desempenha papel estratégico na economia digital do país.

Um dos pilares desse sistema é a mineração de Bitcoin, legalizada em 2019. Operadores contam com incentivos como energia subsidiada, mas são obrigados a transferir os ativos ao banco central iraniano. O modelo permite ao governo financiar importações, inclusive de bens sujeitos a sanções, além de mitigar pressões inflacionárias sem recorrer ao sistema bancário internacional.

Além disso, há indícios de ampliação do uso de criptomoedas em operações sensíveis. A agência de exportações do setor de Defesa, Mindex, já aceita pagamentos digitais para itens como sistemas militares, enquanto relatórios apontam que a Guarda Revolucionária controla bilhões de dólares em carteiras digitais.

No contexto geopolítico, o Irã também estuda formalizar a cobrança de pedágio no Estreito de Ormuz, com tarifas que podem chegar a US$ 2 milhões por embarcação, pagas em moedas locais, iuanes ou criptomoedas. Estimativas indicam que a medida poderia gerar até US$ 800 milhões mensais, ampliando receitas fora do alcance de sanções internacionais.

Apesar de esforços de fiscalização, como sanções a corretoras e bloqueio de contas digitais, especialistas apontam limitações no rastreamento dessas operações. A dinâmica descentralizada e a rapidez das transações tornam o controle um desafio para autoridades globais, que enfrentam dificuldades para conter fluxos financeiros ilícitos.

Paralelamente, o uso de criptomoedas também se expandiu entre a população iraniana. Plataformas locais como a Nobitex reúnem milhões de usuários que buscam proteção contra a desvalorização da moeda nacional e restrições ao acesso a divisas estrangeiras.

O avanço das moedas digitais no país reflete tanto uma estratégia estatal para driblar sanções quanto uma adaptação da sociedade a um ambiente econômico restritivo. Em meio a esse cenário, o risco de fraudes e o impacto sobre rotas estratégicas como Ormuz reforçam a complexidade da relação entre tecnologia, finanças e geopolítica.