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Cestas, uma tradição do Natal que ganhou força com a pandemia
Tradição natalina tão poderosa como comer pipoca no cinema, o produto mostrou sua popularidade no ano marcado pelo isolamento social
Redação
24/12/2020 | 07:03

Às vésperas do Natal, falar com João Santana, dono da cinquentenária Cestas São Cristóvão, e ainda por telefone, é ganhar sozinho na loteria. Não que ele não seja uma pessoa afável, é que o homem não pára um minuto. E este ano por um motivo surpreendente: a empresa fundada por seu pai e o tio, em 1949, bateu recordes de vendas em pleno Natal da pandemia.

“Raramente os números foram tão bons”, diz João, enquanto é obrigado a interromper a ligação várias vezes para responder a perguntas de colaboradores ou cumprimentar clientes.

Nos poucos minutos em que vai durar a ligação, ele se desdobra para responder tudo, menos quantas cestas a empresa vende nessa época e muito menos quanto ela fatura. “Dessas coisas eu não falo”, diz o empresário de 70 anos, com muito chão andado e uma simplicidade capaz de colocar no mesmo site na internet, lado a lado, uma cesta que custa R$ 79,90 e outra de R$ 5.590,00, apelidada carinhosamente pelos clientes de “alvará de soltura” tão variado e pródigo é o conteúdo.

Mas, ao voltar àquela história de que ele nunca fala de números, João conta que abandonou esse hábito depois de ter sido sequestrado 10 anos atrás por quatro homens que levaram dele uma soma em dinheiro e o carro, que também nunca devolveram.

Apesar disso, diz que não guarda mágoa e quase ficou “amigo” dos sujeitos, que o devolveram são e salvo. “Não tenho rancor, me trataram bem e eu só tenho a agradecer por tudo ter ido bem”, afirma o natalense da gema, que a partir do ano que vem pretende agregar ao Natal outras datas como Páscoa, Dia das Mães, Dia dos Pais e Namorados.

“Chegou a hora de diversificar”, anuncia ele num momento em que a pandemia jogou na lona muitos setores varejistas e de serviços. E não porque falte trabalho a este negócio sazonal, cujo garoto propaganda nos últimos muitos anos é o cantor potiguar Gilliard, que teve como antecessor igualmente longevo nada menos do que Wilson Simonal, falecido prematuramente aos 62 anos em junho de 2000.

Santana conheceu Simonal quando tinha 14 anos e ficaram amigos. O cantor, que marcou época na música brasileira, representou a marca com o mesmo brilhantismo de Gilliard, mas foi do empresário Marcelo Alecrim, fundador da ALE Distribuidora de Combustíveis, que veio um grande empurrão.

“Foi ele, ao comprar nossas cestas para seus eventos corporativos, que promoveu muito a marca”, afirma Santana. Seja como for, a ideia de um produto popular, para todos os bolsos, parece ser a pedra de toque do negócio. E é com certo orgulho que Santana fala de duas cestas vendidas para este Natal. A primeira foi a um homem que acabara de descer do ônibus para comprar com o dinheirinho contado uma cesta de R$ 79,90. Ela vem com uma garrafa de vinho tinto seco, um panetone de 400 gramas, vários pacotes de biscoitos doces e salgados, azeitonas, castanha de caju, tudo embalado numa cesta de vime.

O cliente seguinte literalmente desceu do céu, a bordo de um jatinho de R$ 38 milhões e, é claro, arrematou aquela apelidada de “alvará de soltura”, no valor de R$ 5.590,00. Encerrada num baú parecido com o tesouro pirata, está recheado com whisky de primeira linha, bourbon, garrafas de champagne francês, espumante espanhol e vinho português, além de uma grande linha de delícias para acompanhar.

João Santana tem consciência de sua clientela; tanto que diz serem suas cestas dignas de um secretário de Estado do RN, mas ainda distantes das vendidas para certo público paulistano, habituado a consumir similares na faixa dos R$ 15 mil. E aí o céu é o limite, já que há vinhos que, sozinhos, custam esse valor por uma única garrafa e daí para cima.

“Para nós isso não tem a menor importância, já que é secundária diante do que realmente representa o papai Noel: emoção”, diz o dono da mais tradicional fornecedora de cestas natalinas do estado que tem como capital uma cidade chamada Natal.

História

As cestas São Cristóvão são a cara do Natal e também um símbolo afetivo das festas de fim de ano na capital do Rio Grande do Norte, com alcance por outras praças inclusive. Tudo começou em 16 de janeiro de 1949, quando foi inaugurado um espaço no Mercado Público da Cidade Alta para atender natalenses e pessoas que aqui chegavam atraídas pelas oportunidades durante e após a Segunda Guerra.

Anos depois, uma cesta natalina comprada na tradicional Confeitaria Colombo, do Rio de Janeiro, deu a inspiração para vender algo fora do trivial. Nascia a primeira São Cristóvão.

Após o incêndio que destruiu o Mercado, a empresa se mudou para a rua Vigário Bartolomeu. Já faz tempo que a empresa virou marca e a cada Natal garante o lugar na mesa das famílias e empresas. Inovou nas embalagens, que agora podem ser encontradas em formatos tanto tradicionais em cestas de vime, como baús trançados ou em madeira rústica. Também renovou os itens, mantendo a qualidade das marcas e produtos parceiros sempre presentes.

A relação do natalense com as cestas natalinas está tão arraigada que logo vem em mente a imagem de Wilson Simonal ou Gilliard cantarolando o slogan “Dê um presente que você gostaria de ganhar…”João Santana é tradicionalista neste sentido: “Como mudar uma coisa tão verdadeira? Uma cesta natalina é um ato de carinho, faz bem para quem presenteia e quem a recebe”, reforça o empresário e proprietário da marca.

João Santana conta que o segredo de manter a longevidade da marca é oferecer produtos de qualidade em todos os modelos de cestas. Algumas marcas estão em todas as cestas, da mais compacta à mais completa. “A marca de azeitonas é a mesma da cesta de 49 ou do baú de 5 mil”.

Perguntado sobre quais produtos não podem faltar numa cesta natalina: “Azeitonas, panetone, uvas-passas e queijo do reino”, lista. Produtos potiguares de qualidade também agregam valor. Castanhas de caju e balas da Sam’s, por exemplo. “O que eu puder valorizar do Rio Grande do Norte eu coloco na minha cesta”, diz. “Eu ouço muito o meu cliente. Se sugere que o item da cesta não é gostoso, eu substituo no ano seguinte”, conclui.

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