BUSCAR
BUSCAR
Cultura

“Cansei de ser nerd” aposta na cultura geek

Ator afirma que cultura nerd faz parte de sua identidade e interpreta personagem marcado por trauma e referências da cultura pop
Por O Correio de Hoje
28/05/2026 | 13:34

Fernando Caruso sempre carregou o universo nerd como parte central da própria identidade. Apaixonado por quadrinhos, filmes de super-heróis, séries de fantasia e ficção científica, o ator e humorista afirma que viver intensamente esse universo é ao mesmo tempo privilégio e peso. “Ser nerd é uma bênção e uma maldição”, resume o artista antes de completar: “é muito conhecimento acumulado que não sei para que serve”.

Agora, toda essa relação pessoal com a cultura geek chega às telas de cinema em “Cansei de ser nerd”, filme dirigido por Gualter Pupo que estreia nesta semana. No longa, Caruso interpreta Aírton, um homem que carrega há duas décadas o trauma de ter sido acusado pelo assassinato de uma colega durante os tempos de faculdade. Preso por dez dias na época do crime, ele nunca conseguiu se desvincular completamente da suspeita.

nerd Copia
Fernando Caruso estreia nos cinemas como protagonista do filme “Cansei de ser nerd” - Foto: Reprodução

A história começa a ganhar novos rumos quando Aírton decide participar de uma festa de reencontro da antiga escola ao lado do melhor amigo, Ulisses, personagem de Pedro Benevides. O reencontro faz ressurgirem lembranças, conflitos e situações mal resolvidas do passado. Ao mesmo tempo, o protagonista passa a enxergar a possibilidade de finalmente provar sua inocência. Para Fernando Caruso, o projeto tem ligação direta com sua trajetória pessoal. O ator conta que se identifica profundamente com o personagem e com o retrato do universo nerd apresentado pelo filme.

“Sou nerd desde os 10 anos de idade. E acho que quem é nerd é como se levasse uma vida dupla, como se tivesse uma identidade secreta. Nós temos nossos interesses específicos, grupos de amigos e gírias próprias que corre em paralelo da nossa vida civil. Nem sempre conseguimos misturar essas duas coisas. E foi o que me encantou neste filme”, diz Caruso, de 45 anos. “O filme traz muitas referências a esse universo geek e a gêneros que namoram com a cultura pop.”

A produção aposta justamente nessa mistura de referências. “Cansei de ser nerd” reúne elementos de ficção científica, filmes de zumbi, artes marciais, aventura, super-heróis, humor e romance. Segundo Caruso, ainda existe certa resistência do cinema brasileiro em investir em produções ligadas a gêneros considerados de nicho, embora ele perceba mudanças nesse cenário.

“O cinema nacional muitas vezes não está disposto a arriscar em gêneros que são considerados mais de nicho, mas sinto que isso está mudando”. O ator lembra que começou a trabalhar no projeto em 2015. Desde então, o longa enfrentou interrupções, reformulações e atrasos até finalmente chegar às filmagens, realizadas em 2023. Nesse período, segundo Caruso, a percepção pública sobre o universo nerd também mudou de forma significativa.

“Hoje vemos o nerd sendo celebrado com orgulho. As pessoas vibram quando sai um filme, uma série nova. Ninguém mais tem vergonha de vestir a camiseta e dizer que gosta de super-herói ou de ficção científica”, afirma o ator. “Mas acho que ainda existe aquele sentimentozinho de inadequação dentro de todos nós. Especialmente quando os interesses são muito de nicho, ainda carregamos essa sensação de peixe fora d’água.”

Ao refletir sobre o que define alguém como nerd, Caruso afirma que a característica vai além dos temas consumidos. Para ele, o principal traço está na intensidade da relação com aquilo que desperta interesse.

“Existe uma paixão muito grande. Não queremos só assistir e acabou. Queremos assistir, ler e conversar sobre, queremos ouvir o podcast e consumir o conteúdo com avidez muito grande. Eu sou sacaneado por meus colegas atores que, quando eu começo a falar, fingem estar roncando”, conta o ator, que possui uma coleção com mais de cinco mil quadrinhos.

As histórias em quadrinhos ocupam posição central na vida do artista. Filho do cartunista Chico Caruso, Fernando cresceu cercado pelo universo da ilustração e das HQs. O contato começou ainda na infância, principalmente com títulos brasileiros.

As primeiras leituras foram obras como “Turma da Mônica”, criada por Mauricio de Sousa, e “Menino Maluquinho”, de Ziraldo. A paixão ganhou nova dimensão aos 10 anos, quando descobriu os quadrinhos do “Homem-Aranha”. “Minha área de atuação no nerdismo são as revistas em quadrinho. Sou um leitor problemático, porque eu compro numa vazão maior do que consigo ler. Estou sempre vivendo o drama de tentar não comprar nada antes de terminar a pilha de leitura. Mas aí aparece um lançamento especial que você precisa adquirir ou vai ficar sofrendo pelo quadrinho perdido.”