O Banco Digimais, ligado ao líder da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo, realizou aportes em fundos de investimento ligados a empreendimentos de alto risco, incluindo um projeto imobiliário sem licença em Pernambuco e uma área de preservação ambiental em Paraty marcada por conflitos fundiários históricos.
Segundo reportagem do Estadão, os fundos possuem patrimônio somado de R$ 526 milhões. O banco e a Igreja Universal foram procurados, mas não comentaram o caso.

Um dos investimentos envolve o fundo Cajaíba, com patrimônio estimado em R$ 419 milhões, criado para aplicar recursos na Cajaíba Participações, empresa proprietária de terras na Praia Grande da Cajaíba, em Paraty. A região é considerada área de proteção ambiental e social, ocupada historicamente por comunidades caiçaras e alvo de disputas judiciais há décadas.
As terras pertencem à família de Cristiano Tannus Notari, neto de Gibrail Tannus Notari, que adquiriu a área nos anos 1950. A ocupação do local sempre foi cercada de controvérsias. Documentos históricos citam acusações de grilagem e intimidação de moradores tradicionais, embora não exista condenação judicial por esse crime.
Nos últimos anos, projetos para construção de resort de luxo no local não avançaram após dificuldades para obtenção de licenças ambientais. Atualmente, segundo representantes da empresa, a proposta seria transformar a área em um projeto de preservação ambiental ligado à geração de créditos de biodiversidade, modelo semelhante ao mercado de crédito de carbono. A certificação, porém, só teria previsão para 2028.
Outro fundo citado é o ID Goiana, voltado para um empreendimento imobiliário em Goiana, no litoral norte pernambucano. O projeto prevê a construção de um condomínio em uma área de aproximadamente 700 hectares pertencente a um antigo engenho.
Imagens de satélite mostram que o terreno permanece coberto por vegetação e sem qualquer obra iniciada. Segundo a reportagem, a Prefeitura de Goiana ainda não concedeu licença para construção no local. O fundo possui patrimônio estimado em R$ 107 milhões e teria o Digimais como único cotista.
Os investimentos ocorreram em meio à crise financeira enfrentada pelo banco. Auditorias independentes apontaram dificuldades para rastrear cerca de 75% dos R$ 4 bilhões aplicados pela instituição em fundos de investimento, devido à falta de documentação considerada suficiente para análise.
O Digimais também é investigado pela Polícia Federal por suspeitas de fraudes financeiras. Segundo reportagens anteriores do Estadão, o banco teria transferido carteiras de crédito com alta inadimplência para fundos de investimento, o que dificultaria a visualização dos prejuízos nas demonstrações financeiras.
Nos últimos meses, o banco passou por mudanças na direção. O ex-presidente da instituição, João Urbaneja, ligado à Igreja Universal, foi substituído por Aldemir Bendine, que teve condenações da Operação Lava Jato anuladas pelo STJ.
O BTG Pactual confirmou que negocia uma possível aquisição do Digimais, operação que ainda depende de leilão e de mecanismos de suporte financeiro envolvendo o Fundo Garantidor de Créditos (FGC).