Uma auditoria solicitada pelo Partido Liberal (PL) a uma empresa contratada apontou possíveis irregularidades e violação de dados na campanha de filiação realizada pelo partido no ano passado, com inserções na TV, no rádio e na internet. O relatório alerta para um eventual desgaste na imagem de bolsonaristas que participaram da iniciativa.
A campanha contou com a participação de Flávio Bolsonaro, Michelle Bolsonaro, Nikolas Ferreira e Gustavo Gayer. O PL informou ter recebido 200 mil pedidos de filiação em novembro, número que representa mais de um quinto dos 904 mil filiados do partido.

Segundo relatório interno da Datavence, de 16 de dezembro, ao qual o Estadão teve acesso, os dados inseridos no site “queromefiliaraopl.com.br” são captados, extraídos e gerenciados pela empresa F.A.R.O. Propaganda e Publicidade Ltda, do marqueteiro do partido, Duda Lima. O PL e o profissional negam irregularidades.
A auditoria identificou que o formulário de captação de dados não assegura a verificação da identidade do solicitante. De acordo com o documento, “bastando a inserção de alguns dados pessoais para resultar em pedido de filiação, o que é um grande facilitador de fraudes, falsidades e simulações”. Em teste realizado em dezembro, foi possível dar andamento à filiação apenas com a inserção de CPF e telefone e a aceitação da opção “Concordo em receber atualizações e comunicações do PL pelo WhatsApp”. Em seguida, um robô entrou em contato pelo aplicativo com a mensagem “clique no Portal do Filiado para finalizar sua filiação”. Ao acessar o site, campos como zona eleitoral e número do título de eleitor já apareciam preenchidos.
O relatório afirma ainda que o sistema realiza comunicação via WhatsApp por uma “API não oficial”. “Como se sabe, o uso de APIs não oficiais representa uma violação direta aos termos e condições de uso do WhatsApp, bem como potencialmente pode representar violação dos direitos autorais e de titularidade da Meta”, diz o documento.
No experimento feito pela Datavence, a empresa identificou “total falta de filtro e controle na entrada dos dados”, ao registrar que a página de reconhecimento facial do formulário entregava dados aleatórios de brasileiros mesmo quando eram inseridas imagens diversas, como cadernos escolares, frutas, caixas de pizza e paisagens.
“Além disso, a operação não atende a padrões razoáveis de segurança da informação, e aparenta violar preceitos da Lei Geral de Proteção de Dados. Isso porque os dados pessoais inseridos são compartilhados e enriquecidos através de aquisição de dados pessoais adicionais associados àquele CPF identificador perante empresa terceira”, afirma o relatório.
O documento alerta que lideranças do PL convocaram cidadãos a acessar o site e inserir dados pessoais, o que pode associar eventuais fraudes à imagem dessas figuras públicas. “Como é público e notório, lideranças nacionais do PL têm convocado cidadãos brasileiros a acessarem o website em questão e inserirem seus dados ali. Assim, quaisquer elementos de fraude, disponibilização indevida de dados pessoais ou outras irregularidades correlatas podem ser relacionados, ainda que indevidamente, à imagem dessas lideranças”, diz o texto.
A Datavence recomenda que a operação seja comunicada ao encarregado pelo tratamento de dados do PL, que o partido verifique se os contratos firmados pela F.A.R.O. Propaganda e Publicidade possuem “todos os elementos de governança contratual necessários à salvaguarda dos interesses do PL” e a suspensão temporária da campanha de filiação pelo site analisado.
Procurado, o CEO da Datavence, Thiago Moura, afirmou que a empresa não é responsável pela concepção, desenvolvimento ou operação da plataforma. “Essa plataforma é conduzida sob coordenação do Duda Lima, responsável pelo desenho, execução e operação dessa iniciativa específica”, disse.
Em nota, o PL negou irregularidades. “O que ocorre é um volume expressivo de brasileiros interessados em se filiar ao PL e, paralelamente, tentativas pontuais de burlar o processo por parte de pessoas mal-intencionadas. Justamente por isso, o partido adota procedimentos rigorosos de conferência e checagem individual de cada pedido de filiação”, informou. O partido afirmou ainda que todos os pedidos passam por validações internas antes da confirmação, que tentativas de fraude são identificadas e bloqueadas e que isso reforça a “legalidade e a seriedade” do processo.
“O que causa estranheza é a divulgação indevida de um relatório interno de checagem, sem autorização e fora de seu contexto técnico. Esse fato será analisado pelas instâncias competentes. O Partido Liberal tornou-se o maior partido do Brasil justamente por representar milhões de brasileiros que agora têm a oportunidade de participar ativamente da vida partidária, dentro de um processo sério, seguro e responsável”, declarou a legenda.