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Política

Álvaro Dias e as obras pela metade

Obras inauguradas sem funcionar, investimentos deixados inacabados e uma herança fiscal frágil marcaram o fim da gestão de Álvaro Dias e impuseram ao prefeito Paulinho Freire o desafio de concluir o que ficou pela metade em Natal
O Correio de Hoje
23/12/2025 | 16:46

Ao assumir a Prefeitura do Natal em janeiro deste ano, o prefeito Paulinho Freire (União) herdou uma cidade marcada por obras entregues sem operação plena, investimentos inconclusos e uma situação fiscal frágil, que impôs à nova gestão o desafio de concluir de fato aquilo que foi anunciado, inaugurado ou prometido pela administração anterior do ex-prefeito Álvaro Dias (Republicanos).

A crítica de que Álvaro governou “pela metade” não surge apenas da oposição local ou de análises técnicas. Ela ganhou corpo nos últimos dias quando passou a ser vocalizada por um adversário direto na disputa pelo Governo do Estado em 2026: o prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra (União).

Álvaro Dias prevê que Allyson Bezerra pode ficar fora do segundo tuRio Grande do Norteo em 2026
Ex-prefeito Álvaro Dias na inauguração do Mercado da Redinha: equipamento nunca abriu em definitivo - Foto: José Aldenir/Agora RN

Durante entrevista à rádio 98 FM, ao comparar a obra do Hospital Municipal de Mossoró com a situação do Hospital Municipal de Natal, Allyson fez questão de estabelecer um divisor claro entre dois estilos de gestão. Sem citar Álvaro Dias nominalmente em um primeiro momento, deixou explícita a crítica ao modelo adotado na capital potiguar.

“Em cinco anos de gestão, eu nunca entreguei uma obra sem estar finalizada. Eu não entrego só paredes. Eu entrego obra em Mossoró, pode ir atrás. (…) Eu não entrego obra pela metade. Então, o Hospital Municipal de Mossoró, quando você ouvir que foi inaugurado, você pode ir lá que estará funcionando. Eu não entrego pela metade”, afirmou Allyson.

A fala atingiu em cheio um dos símbolos mais controversos do fim da gestão Álvaro Dias: o Hospital Municipal de Natal.

Nos últimos dias de seu mandato, em 2024, Álvaro Dias promoveu uma solenidade para marcar a inauguração do Hospital Municipal de Natal. O ato teve discurso, placa e registro oficial. O atendimento à população, porém, nunca começou.

O novo hospital municipal está sendo construído na Avenida Omar O’Grady, no prolongamento da Avenida Prudente de Morais, altura do conjunto Cidade Satélite (Zona Sul). A inauguração da primeira fase aconteceu em 30 de dezembro de 2024, no penúltimo dia da gestão de Álvaro Dias como prefeito. Como a obra estava incompleta, o hospital nunca recebeu pacientes.

Álvaro Dias tem atribuído a demora na abertura do hospital a outras questões não relacionadas à obra, apesar de haver operários atuando no local. Ele citou que a gestão de Paulinho Freire tem interesse em terceirizar a gestão do hospital para a iniciativa privada – o que está em estudo e pode ter atrasado, segundo ele, o início do funcionamento da unidade.

Quase um ano depois de “inaugurado”, o hospital segue sem realizar consultas, exames ou procedimentos. A estrutura não está concluída, equipamentos ainda estão sendo instalados e a nova gestão reconhece que os serviços continuam em execução. O equipamento, que deveria ser um marco da política de saúde do município, tornou-se símbolo de uma entrega mais política do que funcional.

O contraste com Mossoró foi explorado por Allyson também em nova entrevista, desta vez à rádio Cidade. Mesmo evitando citar diretamente o ex-prefeito de Natal, o recado foi reiterado: “A gestão dele cabe à população aqui avaliar. Não sou eu que tenho que avaliar a gestão dele. É a minha forma de fazer gestão. Eu só entrego obra finalizada, construída, equipada e com gente trabalhando.”

Em reunião com deputados federais e senadores em novembro, a vice-prefeita de Natal, Joanna Guerra (Republicanos), fez uma série de pedidos de recursos para a cidade. Entre as principais demandas, estão a destinação de R$ 110 milhões para a segunda etapa do Hospital Municipal de Natal.

A primeira etapa do hospital funcionará com “portas fechadas”, recebendo apenas pacientes encaminhados de outras unidades de saúde da capital. Serão 100 leitos, sendo 90 de enfermaria e 10 de UTI, além de salas de procedimentos, centro de diagnóstico por imagem, farmácia, cozinha e lavanderia.

Um padrão que se repete

O Hospital Municipal não é um caso isolado. Ao longo da gestão Álvaro Dias, uma série de obras e investimentos foi entregue sem funcionamento pleno ou concluída apenas no aspecto formal, ficando para a administração seguinte a responsabilidade de finalizar, corrigir ou colocar em operação.

Entre os principais exemplos está a engorda da Praia de Ponta Negra. A obra principal foi executada, mas etapas fundamentais ficaram pendentes: especialmente a drenagem definitiva e a urbanização completa.

O resultado foram episódios recentes de alagamentos na faixa de areia, que expuseram a ausência das intervenções complementares prometidas.

Outro caso emblemático é o Complexo Turístico da Redinha, que engloba o Mercado da Redinha e seu entorno. A reforma física do mercado foi concluída, mas o equipamento não entrou em operação regular.

O modelo de concessão fracassou, houve impasses com permissionários e o complexo segue sem cumprir a função econômica e turística anunciada à população.

A gestão de Paulinho Freire teve de contratar estudos para definir a modelagem da operação, e a expectativa é que o edital de concessão seja divulgado em breve.

No campo cultural, dois símbolos reforçam a tese das entregas pela metade. O Teatro Sandoval Wanderley foi “inaugurado” em 2024, mas só abriu efetivamente ao público neste ano, já fora da gestão Álvaro. Durante meses, o equipamento permaneceu sem programação regular, caracterizando uma inauguração simbólica, sem uso social real.

Situação semelhante ocorre com o Mirante da Ladeira do Sol, na orla da Zona Leste. O mirante foi inaugurado, mas permanece fechado ao público até hoje, sem acesso regular ou operação turística.

O peso da herança financeira

Além das obras inconclusas, a nova gestão enfrenta um cenário fiscal adverso. Allyson Bezerra fez questão de destacar a diferença entre as situações financeiras de Mossoró e Natal ao abordar a Capacidade de Pagamento (Capag), índice do Tesouro Nacional que avalia a saúde fiscal dos entes federativos.

Mossoró ostenta nota A. Natal, por sua vez, tem nota C. “Se for pesquisar Natal lá na Capag, você vai encontrar a nota de Natal. É um desafio para o prefeito Paulinho. Não é culpa dele, acabou de assumir a gestão”, afirmou Allyson, em entrevista à TV Agora RN.

A situação fiscal é tão difícil que Natal precisou aderir, neste ano, já sob a gestão Paulinho, ao Programa de Promoção do Equilíbrio Fiscal (PEF). A iniciativa é voltada para estados e municípios com dificuldades financeiras. Aderindo ao PEF, prefeituras e governos estaduais obtêm aval da União para acessar novos empréstimos no mercado e, em troca, assumem compromisso de fazer ajustes fiscais.

No caso de Natal, a expectativa é que a Prefeitura acesse algo em torno de R$ 1 bilhão em crédito aderindo ao PEF. Em troca, a gestão planeja realizar ajustes fiscais e contábeis para melhorar a nota de capacidade de pagamento junto ao Tesouro Nacional.

Segundo o secretário de Planejamento, Vagner Araújo, Natal tem perdido espaço para outras capitais do Nordeste por falta de condições de financiamento. “Natal tem perdido posição na disputa, na competição com outras capitais do Nordeste, como Fortaleza, Recife, Salvador e até João Pessoa. Isso nos dá uma sensação de que Natal parou no tempo, ao longo das últimas décadas, enquanto essas outras cidades avançaram”, disse.

Situação fiscal e contábil de Natal

Vagner lembrou que, há mais de dez anos, Natal está classificada na pior nota da Capacidade de Pagamento (Capag), indicador medido pelo Tesouro Nacional. Na prática, a classificação em Capag C impede o município de contratar novos empréstimos e buscar financiamentos internacionais.

“É também uma espécie de SPC, um Serasa. Isso impede a contratação de novos investimentos, de novos empréstimos”, comparou.

De acordo com o secretário, a má avaliação não reflete exatamente a realidade das contas, mas problemas de registro contábil acumulados ao longo dos anos. “O problema real não é tão sério. O mais sério é o problema registrado, apresentado, demonstrado, refletido na contabilidade”, explicou.

Ele citou como exemplo dívidas renegociadas que continuaram constando integralmente nos balanços. “É como se a dívida continuasse”, detalhou. Situação semelhante ocorre com receitas a pagar antigas, que nunca foram baixadas da contabilidade. “Tem receita a pagar de 2012, que nunca foi cancelada”, relatou.

Vagner afirmou que a atual gestão vem tentando corrigir essas distorções, mesmo que isso envolva balanços antigos. Ele acrescentou que o prefeito Paulinho Freire (União) já havia colocado a situação fiscal como prioridade antes mesmo de assumir o mandato.