O número de internações e mortes relacionadas à doença hepática associada ao consumo de álcool aumentou no Brasil nas últimas duas décadas, segundo levantamento realizado por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O estudo analisou dados do Sistema Único de Saúde (SUS) entre os anos de 2000 e 2022 e identificou crescimento mais acelerado nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
A pesquisa avaliou casos de hepatite alcoólica, esteatose hepática relacionada ao álcool, fibrose e cirrose hepática. No período analisado, o país registrou 344.039 internações e 214.642 mortes associadas às doenças hepáticas provocadas pelo consumo excessivo de bebidas alcoólicas.

Os dados apontam que a taxa média nacional de internações chegou a 7,8 casos por 100 mil habitantes. Já a mortalidade atingiu média de 4,9 óbitos por 100 mil habitantes no período analisado.
Segundo os pesquisadores, o Norte apresentou o maior crescimento proporcional das internações, com alta de 65,7% ao longo da série histórica. No Nordeste, o avanço foi de 54%. Em relação à mortalidade, o Sul liderou o aumento percentual de óbitos, com crescimento de 5,6 por cem mil habitantes, enquanto o Nordeste registrou 4,9 mortes por cem mil habitantes.
Os pesquisadores observaram que o perfil mais afetado pela doença é composto principalmente por homens de meia-idade, pessoas negras e indivíduos com menor escolaridade. O estudo também identificou maior concentração de casos em regiões economicamente mais vulneráveis.
A hepatologista Geisa Gomide, professora e coordenadora do departamento clínico da UFMG, afirmou que o crescimento anual das mortes acima da média mundial acende um alerta sobre a dimensão do problema no País. “É aumento real, melhora no diagnóstico ou sistemas de informação mais bem alimentados?”.
Para a especialista, o cenário pode estar relacionado tanto à ampliação da identificação dos casos quanto ao aumento do consumo abusivo de álcool no Brasil. O hepatologista José de Carvalho Filho, professor-adjunto da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), afirmou que o alcoolismo ainda é frequentemente negligenciado pela sociedade.
“O Brasil não bebe necessariamente mais do que a média mundial, mas quem bebe, bebe muito. O consumo episódico excessivo é muito frequente”. Segundo ele, aproximadamente 15% da população brasileira apresenta padrão de consumo abusivo de álcool.
“Não é uma condição rara. Existe um lobby muito forte da indústria de bebidas para manter essa aceitação social do álcool”, afirmou. O estudo também identificou desigualdades importantes no acesso aos serviços de saúde. Para Gomide, fatores sociais e regionais ajudam a explicar parte do crescimento observado nas regiões Norte e Nordeste.
“No Sul, o consumo de álcool historicamente já é maior, com influência cultural, inclusive desde a infância em algumas comunidades. Já no Norte e Nordeste, pode haver melhora recente na notificação e no diagnóstico”, explicou. Os pesquisadores destacam que a doença hepática associada ao álcool costuma evoluir de forma silenciosa durante anos. Em muitos casos, os sintomas só aparecem quando o comprometimento do fígado já está avançado.
Entre os homens, os dados mostram maior concentração de mortes entre 40 e 59 anos. Já entre as mulheres, embora a incidência seja menor, especialistas alertam que elas podem desenvolver danos hepáticos mais rapidamente, mesmo consumindo quantidades menores de álcool.
Ainda segundo os pesquisadores, fatores sociais e econômicos influenciam diretamente no agravamento da doença. No Norte, Nordeste e Centro-Oeste, pretos e pardos predominam entre os casos e mortes. No Sul e Sudeste, a maioria dos pacientes registrados é branca, acompanhando o perfil demográfico regional.
De acordo com Carvalho Filho, cerca de 90% das pessoas que desenvolvem algum grau de gordura no fígado relacionado ao álcool podem evoluir para quadros mais graves se o consumo persistir.
“Quando o paciente interna, geralmente já é muito grave”, afirmou Gomide. A médica reforçou que a principal forma de prevenção continua sendo a redução ou interrupção do consumo de álcool.
“Existe preconceito e demora no tratamento. O paciente com dependência alcoólica ainda é visto como alguém sem força de vontade, quando na verdade estamos falando de uma dependência química”, disse.
Especialistas ressaltam que o alcoolismo é reconhecido como doença e necessita de acompanhamento médico, psicológico e social. O tratamento inclui controle da dependência, mudanças alimentares, acompanhamento clínico contínuo e, em alguns casos, necessidade de transplante hepático.
O estudo também chama atenção para o impacto global da doença hepática associada ao álcool. Segundo os pesquisadores, o problema responde por cerca de 65% dos casos de cirrose hepática registrados em diferentes países.
Entre os entrevistados da pesquisa está Luiz Cláudio da Silva Cardoso, de 57 anos, que relatou ter convivido durante décadas com o alcoolismo antes de iniciar tratamento. “Eu comecei a beber muito cedo, aos 14 anos, e desde então já sofri muitas perdas devido ao alcoolismo. A maior delas foi perder o amor pelos filhos e a minha mulher.” Ele afirmou que ainda enfrenta recaídas, mas segue em tratamento para tentar abandonar definitivamente o consumo de álcool.