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Economia

Agro potiguar tem condições de manter seu ciclo de expansão, afirma secretário

Podcast da TV Agora RN entrevista o secretário de Agricultura, Pecuária e Pesca do RN, que detalha os efeitos do tarifaço, as perspectivas da fruticultura, da pecuária leiteira, da carcinicultura e os investimentos impulsionados pela transposição do Rio São Francisco
Redação
21/07/2026 | 05:41

O avanço do agronegócio do Rio Grande do Norte, os impactos das mudanças no comércio internacional e as perspectivas de crescimento do setor foram os principais temas da entrevista concedida pelo secretário estadual de Agricultura, Pecuária e Pesca, Guilherme Saldanha, ao podcast Economia & Negócios, apresentado pelo jornalista Elias Luz, da TV Agora RN. Ao longo da conversa, o secretário fez um balanço das principais cadeias produtivas do Estado, analisou os efeitos das tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros e apontou investimentos que, segundo ele, podem alterar o perfil econômico do campo potiguar nos próximos anos.

Saldanha afirmou que o cenário internacional exige atenção, mas avaliou que parte importante da pauta exportadora do Rio Grande do Norte foi preservada das novas tarifas anunciadas pelo presidente norte-americano Donald Trump. Segundo ele, frutas e pescado ficaram fora das sobretaxas, enquanto o sal permaneceu incluído, situação que considera passível de revisão diante da dependência norte-americana do produto para o degelo de rodovias e aeroportos durante o inverno. Na avaliação do secretário, sobretaxar alimentos tende a pressionar a inflação nos Estados Unidos, tornando politicamente difícil a manutenção dessas medidas por um período prolongado.

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Secretário Estadual de Agricultura, Pecuária e Pesca, Guilherme Saldanha, e o jornalista Elias Luz durante o podcast - Foto: Reprodução/TV Agora RN

Tarifaço e exportações

Ao comentar o chamado “tarifaço”, Guilherme Saldanha afirmou que a principal preocupação do governo norte-americano passa pelos efeitos internos da medida. Segundo ele, diferentemente de produtos industriais, alimentos impactam diretamente o custo de vida da população.

“O americano pode adiar a compra de um carro. Mas não deixa de comprar comida. Quando você sobretaxa frutas, pescado ou outros alimentos, isso chega diretamente ao supermercado e aumenta a inflação”, afirmou.

Sobre o sal, o secretário acredita que ainda existe margem para negociação diplomática. Segundo ele, cerca de 92% do sal produzido no Brasil é originário do Rio Grande do Norte e possui importância estratégica para o mercado americano, especialmente durante o inverno rigoroso.

Fruticultura amplia mercados

A fruticultura foi apontada como uma das atividades que mais cresceram na última década. Segundo Guilherme Saldanha, as exportações de frutas passaram de aproximadamente US$ 126 milhões para cerca de US$ 352 milhões anuais, crescimento superior a 250%.

O secretário destacou que o Rio Grande do Norte consolidou-se como o maior exportador brasileiro de frutas frescas em volume, tendo como principais produtos o melão, a melancia, o mamão e, em menor escala, a manga.

Ele também ressaltou o surgimento de novas culturas voltadas ao mercado externo, como o limão, além do crescimento das exportações de polpas de frutas, acerola e água de coco processada por empresas instaladas em Estados vizinhos.

Segundo Saldanha, fatores como clima favorável, localização geográfica e segurança hídrica tornam o Estado mais competitivo para receber novos investimentos nacionais e estrangeiros.

Água do São Francisco muda cenário

Durante a entrevista, o secretário classificou a transposição do Rio São Francisco como o principal divisor de águas para a agricultura irrigada potiguar.

Segundo ele, a chegada das águas ao Vale do Açu e, futuramente, ao Vale do Apodi, cria um ambiente semelhante ao encontrado no Vale do São Francisco, principal polo irrigado do País.

Na avaliação do secretário, essa segurança hídrica permitirá ampliar áreas irrigadas e atrair novos empreendimentos voltados à produção de frutas de maior valor agregado, como uvas e mangas.
Ele revelou que já existem projetos privados em desenvolvimento para implantação de cerca de mil hectares de uva na Chapada do Apodi, investimento que, segundo ele, não seria viável anteriormente pela limitação de água.

Outro diferencial citado foi a logística. Enquanto um contêiner de frutas produzido no Vale do São Francisco percorre cerca de 900 quilômetros até os portos de exportação, no Rio Grande do Norte essa distância pode ser reduzida para aproximadamente 200 quilômetros, diminuindo significativamente o custo do frete.

Pecuária leiteira amplia produção

Outro tema abordado foi a expansão da pecuária leiteira.

Segundo Guilherme Saldanha, a produção estadual saltou de aproximadamente 400 mil litros por dia para cerca de um milhão de litros diários ao longo da última década.

O secretário atribuiu esse crescimento à profissionalização da atividade, ao fortalecimento dos laticínios e à criação de instrumentos legais como a Lei dos Queijos Artesanais e o Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Sisbi), que ampliaram o acesso dos produtores ao mercado nacional.

Hoje, mais de 75 estabelecimentos possuem registro sanitário estadual, enquanto mais de 30 já podem comercializar seus produtos em todo o País.

Ele também destacou investimentos privados, como uma nova unidade industrial em Jucurutu voltada à produção de queijo muçarela, que deverá consumir mais de 150 mil litros de leite por dia.

Camarão aposta na interiorização

Na carcinicultura, Guilherme Saldanha afirmou que o Rio Grande do Norte trabalha para ampliar a produção por meio da interiorização da atividade.

Segundo ele, aproximadamente 90% dos empreendimentos do estado já possuem licenciamento ambiental e outorga de água, percentual muito superior ao observado em Estados concorrentes.

O secretário informou que o governo estadual criou um marco legal específico para estimular a criação de camarão em áreas do interior, utilizando poços de água salobra e reduzindo conflitos ambientais nas regiões de manguezais.

O projeto envolve apoio técnico da Emparn e do Sebrae, financiamento do Banco do Nordeste e ações das prefeituras para implantação da infraestrutura necessária.

Saldanha também demonstrou otimismo quanto à retomada das exportações para a União Europeia, suspensas desde 2018 em razão de restrições sanitárias relacionadas ao pescado brasileiro.

Exportação de gado vivo

Outro assunto tratado foi a habilitação do Porto de Natal para exportação de gado vivo.
Segundo o secretário, a demanda é impulsionada principalmente por países árabes, onde normas religiosas exigem que o abate ocorra no país de destino.

Ele explicou que o Brasil segue uma das legislações mais rigorosas do mundo em relação ao bem-estar animal durante transporte e confinamento.

Inicialmente, as exportações envolverão bovinos, mas o governo estadual também trabalha para incluir ovinos e caprinos, segmentos considerados promissores para o mercado do Oriente Médio.

Cana-de-açúcar busca novos investimentos

Saldanha também analisou a cadeia sucroenergética.

Segundo ele, a produção de cana-de-açúcar cresce no litoral potiguar, mas a capacidade industrial ainda é limitada diante do aumento da oferta de matéria-prima.

O secretário afirmou que o governo estadual busca atrair investimentos para ampliação das usinas existentes ou implantação de novas unidades industriais, aproveitando incentivos fiscais atualmente vigentes.

Além da produção de açúcar e etanol, ele destacou a geração de energia elétrica a partir do bagaço da cana, considerada estratégica para o setor agropecuário.

Perspectivas

Ao encerrar a entrevista, Guilherme Saldanha afirmou que o agronegócio potiguar reúne condições para manter um ciclo de expansão nos próximos anos, impulsionado pela segurança hídrica, pela ampliação da infraestrutura logística, pela regularização ambiental das atividades produtivas e pelo fortalecimento das cadeias de frutas, leite, camarão e proteína animal.

Segundo o secretário, somente a fruticultura já responde por cerca de 60 mil empregos diretos no estado, reforçando o papel do agronegócio como um dos principais motores da economia do Rio Grande do Norte.