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Turismo
A história de um empreendedor que enganou o coronavírus
De um dia para outro, os aviões pararam de voar, os telefones ficaram mudos e os clientes sumiram durante a pandemia. Em meio aos problemas, Antônio Neto conseguiu construir uma saída.
Redação
24/10/2020 | 05:25

Durante três dias, entre o final de março e o começo de abril, o operador turístico de Natal, Antônio Neto, dispensou todos os colaboradores e se trancou na empresa para tentar entender o que estava acontecendo com o negócio.

De um dia para outro, os aviões pararam de voar, os telefones ficaram mudos e os clientes, que são as agências de turismo, sucumbiram diante do tsunami de um patógeno global da família de um velho conhecido da ciência, o coronavírus.

Num ano que viria se provar especialmente perverso para todos os setores da economia, mas principalmente para o turismo, que irriga pelo menos 55 segmentos sociais, operadoras de todo o país foram obrigadas a fechar as portas temporária ou definitivamente.

Entre elas, uma em especial admirada por Antônio Neto, a paranaense MGM, suspendeu por tempo indeterminado, em setembro último, suas atividades depois de 23 anos.

Uma gigante do segmento, como a CVC, que iniciou o ano com suas ações cotadas a R$ 44,71, e, desde então, elas desabaram mais de 85% em pouco mais de três meses, já vinha com problemas desde o ano anterior, quando perdeu quase R$ 2 bilhões em valor de mercado.

Fatos assim povoavam a cabeça de Antônio cuja empresa, a Foco Operadora, nasceu em 2009 depois de ele, desempregado, recusar uma proposta irrecusável justamente de Klênio Rego, representante da CVC no estado, para trabalhar na empresa.

Durante três dias remoendo saídas para uma situação que parecia ser de terra arrasada, as saídas começaram meio que brotar como uma espécie de download do divino.

Todos os pacotes criados por Antônio tinham um denominador comum: destinos regionais para clientes da região, turbinados com atrativos que motivassem o público a apostar na pós-pandemia, pagando com descontos extremamente atraentes para usufruir na baixa temporada. Isso, externamente, para o público.

Internamente, os fornecedores rapidamente passaram a aderir para receber antecipadamente pelas vendas, o que não é prática usual no mundo das operadoras turísticas, muitas das quais turbinar os lucros.
“Nem quando o turismo internacional estava aquecido, jamais apostamos no faturamento para especular com a moeda em transações futuras antes de pagar primeiro as contas”, lembra Antônio Neto.

Novos pacotes

Com acordos comerciais previamente comissionados e repassados aos fornecedores, não é a toa que, em pouco mais de 10 anos de existência, a empresa, iniciada lá atrás com o sócio Dioclécio Vitor, tenha travado um ótimo business com as agências de turismo parceiras.

De posse dessas adesões endossando a iniciativa, restava apenas construir pacotes atraentes para o público local e o primeiro deles foi logo batizado como o nome da praga: “Pacote Anticorona”, logo mudado para “Onda Verde”.

“Nada mais é do que um vaucher livre, com valores promocionais, no qual o cliente tem 12 meses para agendar sua viagem, podendo escolher até três opções de data, todos na baixa temporada. Nada mal para quem esteve por meses trancado em isolamento social, podendo parcelar a conta por um link na internet”, disse.

Em junho último, Antônio Neto realizou o primeiro feirão on line de pacotes pelo You Tube, contando com a presença das agências de viagem. Detalhe: 99% dos roteiros exclusivamente para o Nordeste.

O resultado é que, por conta dessas ações, a empresa já bateu todos os recordes de vendas acima da super meta estabelecida para seus colaboradores no ano passado, o que não é pouco num ano de pandemia.

Na programação de São João de 2021, por exemplo, é tudo incluído: do café da manhã a atrações para as crianças e pelo menos uma celebridade do mundo sertanejo para um forró pé de serra para os adultos.

Foi a forma à La Antônio Neto para enganar a crise, mas com bases comerciais conservadoras, privilegiando os clientes e os fornecedores e jamais brincando com o dinheiro alheio especulando no câmbio. Ou, como ele define: “Jamais apostando as fichas no faturamento”.

Hoje, com 42 colaboradores e escritórios associados com a sua marca em João Pessoa, Aracaju e Fortaleza, Antônio Neto costuma usar a metáfora do barquinho em alto mar em relação ao transatlântico.

“Com o barquinho se tem menos a perder, tem mais agilidade, só precisa do respeito e da confiança de seus parceiros”, ensina.

Na calmaria e na tempestade.

O tombo do setor

O impacto da pandemia do novo coronavírus para as operadoras de turismo foram devastadoras este ano e já somava R$ 3,9 bilhões em adiamentos e cancelamentos de viagens em maio, segundo a Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa).

Por definição, as operadoras como a de Antônio Neto são empresas com expertise de montar pacotes e programas de viagens que são comercializados pelas agências. Ou seja, ao contrário das agências, o foco das operadoras são outros CNPJs.

De cara, logo no começo da pandemia no Brasil, um terço dos clientes que cancelou as viagens recebeu o reembolso à vista, 43% estavam no período de carência para reembolso, 11% optaram por carta de crédito e 10% estão sendo pagos de forma parcelada ou negociada.

Em consequência disso, 50 mil estabelecimentos turísticos tiveram de fechar as portas de março a agosto, de acordo com os dados mais atualizados da Confederação Nacional do Comércio (CNC).
Foram bares, restaurantes, hotéis, pousadas, agências de viagens e serviços de transportes, cultura e lazer.

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